Júlia Fernandes

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Repórter

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Júlia Fernandes Repórter


Negócios

Salões gaúchos apostam em nichos para alavancar os negócios

Cabelos com curvatura, público alternativo e produtos naturais são algumas das especificidades que destacam os salões de beleza entre os demais negócios do segmento
O mercado voltado a serviços e produtos de beleza é a aposta de diversos empreendedores. Com tantas iniciativas, é preciso ter estratégia para conquistar espaço e fidelizar clientes. É nessa esteira que os negócios do segmento têm, cada vez mais, afunilado suas propostas, entendendo o poder de atender um nicho, desenvolvendo expertises que atendam públicos específicos.
O mercado voltado a serviços e produtos de beleza é a aposta de diversos empreendedores. Com tantas iniciativas, é preciso ter estratégia para conquistar espaço e fidelizar clientes. É nessa esteira que os negócios do segmento têm, cada vez mais, afunilado suas propostas, entendendo o poder de atender um nicho, desenvolvendo expertises que atendam públicos específicos.
Há poucos meses, Larissa Oliveira e Diego Limà abriram as portas do Nalu Care (@nalu.carebeauty). O salão, inaugurado em setembro de 2025 no Centro de Esteio, é especializado em cabelos com curvatura. 
O projeto é resultado da soma das trajetórias dos empreendedores. Diego, hoje barbeiro, trancista e especialista em cabelos com curvatura, começou longe das cadeiras de salão, ou nem tanto. “Sempre fui atleta profissional de futebol e, quando vi que o futebol não ia dar mais certo para mim, fui atrás do que eu ia fazer”, lembra. Foram sete anos na base do Grêmio, um período na base do Internacional e a profissionalização em São Paulo. A carreira promissora foi interrompida por quatro cirurgias no joelho. “No meu caso, aquele meme do jogador do joelho é verídico”, brinca. Sem conseguir retomar o alto rendimento, precisou recomeçar.
A barbearia, no entanto, já rondava sua história. Criado pela madrinha, dona de um salão afro em Sapucaia do Sul, Diego cresceu entre cadeiras, espelhos e conversas sobre cabelo. “Fui criado dentro do salão dela. Quando viajava com o time, era eu quem cortava o cabelo da galera.”  O primeiro curso formal de barbearia veio em 2014, mas o empreendedor não parou por aí. “Uma cliente me procurou para fazer trança, porque estava em transição capilar. Fui pesquisar o que era isso e entendi que precisava estudar muito.”
Larissa, por sua vez, já respirava beleza desde a adolescência. “Faz 14 anos que trabalho com cabelos. Nunca fiz outra coisa, eu amo fazer isso.” Antes de empreender, ela começou como auxiliar aos 17 anos, tornou-se cabeleireira e se especializou em descoloração. Atendia majoritariamente cabelos lisos, em salões de shopping, onde a cultura era sair com escova. “As cacheadas queriam fazer mecha, mas saíam com o cabelo liso. Não tinha argumento para estimular elas a ficarem naturais.”

Amor, propósito e parceria

O encontro entre os dois aconteceu em setembro de 2021. Um almoço virou janta, e a conversa nunca mais parou. “Daquela janta estamos em 2026, casados e empreendendo, porque a nossa ideia começou a combinar demais”, conta Diego. “O amor veio primeiro que o negócio”, reforça.
A parceria profissional começou logo depois. Diego passou a compartilhar o conhecimento técnico sobre avaliação de fios, estrutura capilar e cosméticos adequados. “Comecei a distribuir um pouco do meu conhecimento para ela saber avaliar a estrutura do cabelo e entender se o fio estava preparado para uma transformação.” Larissa encontrou um novo propósito. “Já amava fazer mecha, mas quando entendi o que era trabalhar com cabelo com curvatura, mudou tudo. Ver uma mulher negra empoderada, com o cabelo transformado e se sentindo acolhida, confortável no nosso espaço, é maravilhoso”, afirma.  O cuidado com a saúde dos fios se tornou diferencial. “A avaliação começa com o Diego e termina na minha cadeira. A transformação acontece de forma saudável, mantendo a estrutura do cabelo", explica a empreendedora.
Em 2023, uniram-se a um colega em um salão maior. O último salão marcou uma fase intensa de crescimento, mas também revelou limites. “Não dávamos mais conta dos clientes”, conta Larissa. Ao mesmo tempo, decidiram investir pesado em gestão e administração, atentos aos dados de mercado que mostram o alto índice de fechamento precoce de salões.

O sonho do espaço próprio

O sonho do espaço próprio amadureceu com planejamento. “Sempre quis ter um salão voltado a resgatar uma essência, um espaço onde as pessoas pretas pudessem ficar confortáveis e saber que seriam escutadas”, afirma Diego. Em 2024, durante o recesso de fim de ano, sentaram para decidir e entenderam que estavam prontos.
Inicialmente, cogitaram comprar o ponto onde já trabalhavam. Larissa, no entanto, sentia que faltava algo. “Sempre falei que queria que o salão fosse em uma casa.” Faltando uma semana para a decisão final, apareceu o anúncio de um imóvel comercial. Era uma casa de 1963, que sempre pertenceu à mesma família e nunca havia sido alugada como ponto comercial. “Nós somos os primeiros inquilinos. Ela sempre foi da família e foi colocada para alugar justamente na semana em que eu precisava decidir”, conta.
O casarão mantém elementos originais, como o desenho na parede da sala principal, que descobriram representar um jangadeiro. “A gente nem sabia. Fomos pesquisar e entendemos que o jangadeiro é o defensor do mar, aquele que enfrenta as adversidades.” A descoberta dialogou com o nome escolhido.
Nalu tem dois significados que traduzem a identidade do salão. No havaiano, significa o poder e a liberdade das ondas do mar. Em algumas culturas do continente africano, remete ao poder da luz do sol. A gente trouxe essa ideia das ondas para o cabelo com curvatura, para a liberdade de usar o cabelo natural. E a luz do sol é esse brilho que elas dizem sentir quando se olham no espelho”, explica Diego.
A arquitetura reforça essa proposta. A luz natural invade a sala principal por uma grande janela que ocupa quase toda a parede voltada para o jardim frontal. O chão de taco original foi preservado; há uma parede de pedras aparentes, cadeiras estofadas em couro terracota, plantas distribuídas pelo ambiente e tons terrosos que aquecem o espaço. Uma sala é dedicada exclusivamente aos lavatórios, garantindo mais privacidade aos clientes. Recentemente, inauguraram outra sala para manicure e pedicure. Nos fundos, a área externa abriga jardim e piscina. Em uma peça próxima à piscina, o casal planeja instalar uma sala de aula para cursos e mentorias.

Transformar autoestima em legado

Mais do que estética, o Nalu Care se tornou um espaço de pertencimento. Hoje, a clientela vem de diferentes cidades da Região Metropolitana e de Porto Alegre. O atendimento começa pela escuta, pela compreensão da história capilar e das vivências de cada cliente. Em um mercado que historicamente negou estrutura e acolhimento ao público negro, o salão se posiciona como território de celebração da beleza negra.
“Não é sobre o valor em dinheiro. É sobre o valor da autoestima, sobre entender o quanto a tua beleza é importante", reflete Diego. Para o casal, oferecer uma estrutura confortável, sofisticada e pensada para cabelos com curvatura é também um ato político. “Estamos resgatando uma essência que se perdeu. Mostrar que mulheres e homens negros podem ter acesso a espaços bem estruturados, podem celebrar a própria beleza e se sentir pertencentes.”
Ao olhar para trás, Diego encontra sentido na trajetória. “Tudo estava me trazendo até esse momento", afirma. “Descobrimos juntos o propósito disso", completa Larissa. 

De cortes criativos à saúde dos fios, salão é novidade para o público alternativo na Cidade Baixa

A Sala Ruído trabalha com uma proposta que vai além da estética, olhando para o cuidado com a saúde do cabelo
Aberta desde dezembro em Porto Alegre, a Sala Ruído se apresenta como um salão de beleza com proposta que vai além da estética. O espaço reúne serviços de corte, coloração e cuidados capilares com foco em valorizar os fios naturais e oferecer um atendimento personalizado.

Um dos diferenciais do salão é a presença de serviços especializados voltados à saúde do couro cabeludo e dos fios. A tricologista e terapeuta capilar Vanessa Berg integra a equipe oferecendo avaliações e tratamentos específicos para questões capilares.

“Realizo um atendimento bem personalizado, que envolve escutar os problemas e as queixas em relação à pele do couro cabeludo, à queda, afinamento capilar”, explica Vanessa. O trabalho inclui também o tratamento de patologias como seborreia, psoríase, entre outras condições.

As avaliações e terapias utilizam tecnologias específicas. “Faço a avaliação a partir de um tricoscópio, um equipamento que funciona como uma espécie de microscópio para a pele. Também realizamos tratamentos com laser e fototerapia”, detalha. Segundo ela, a proposta da Sala Ruído é unir criatividade e cuidado com a saúde capilar.

O salão se propõe ainda a ser um espaço inclusivo, sem delimitar público por idade ou gênero. Apesar disso, muitos clientes compartilham um interesse em comum: manter os cabelos em sua forma natural, sem químicas que alterem a estrutura dos fios. “O público que nos procura busca se reconhecer de uma forma diferente, gosta de sair um pouco fora do padrão”, comenta a cabeleireira e sócia do negócio, Raquel Saim. Entre os serviços mais procurados estão os cortes e as colorações.
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Vanessa também atua nessas áreas e possui especialização em cabelos cacheados e crespos. Mesmo com a preferência por cortes criativos, a equipe ressalta que estilos clássicos continuam sendo atendidos. “O nosso nicho foi criado de forma orgânica. Como muitos clientes já eram atendidos por nós há anos, entendiam a nossa proposta e acabaram trazendo outras pessoas que buscavam esse mesmo estilo”, destaca Raquel.

A valorização dos fios naturais também aparece na finalização dos cabelos, que prioriza produtos mais leves e um acabamento menos estruturado. “Acho que existe uma tendência das pessoas procurarem algo que não tome muito tempo da rotina. Quando divulgamos nosso trabalho com esse aspecto mais natural, atraímos um cliente que já busca isso para o dia a dia”, completa Raquel.

O espaço físico acompanha essa proposta. O salão tem um ambiente amplo, com decoração despojada e criativa, marcada pela presença de folhagens que reforçam a proposta natural do negócio. Um mezanino abriga uma sala reservada para as avaliações e tratamentos capilares.

A Sala Ruído conta ainda com três bancadas de atendimento, além das utilizadas pelos profissionais fixos. Esses espaços também podem receber artistas convidados. De acordo com Raquel, muitos deles vêm de São Paulo e abrem agendas temporárias para atender em Porto Alegre.

Nos fundos do salão, há também um espaço dedicado a uma coleção de roupas assinada por Vanessa. “Já atuei como designer de moda e essa foi minha última coleção antes de fazer essa transição de carreira”, explica.

História do negócio

A Sala Ruído é a materialização de um negócio pensado a quatro mãos. Raquel Saim e Laurie Martignago, sócios à frente do salão, já atuam no segmento de cabelos há anos.

Laurie divide sua agenda de atendimentos entre São Paulo e Porto Alegre. Na capital paulista, ele também está à frente do Pelo Tosco, salão já consolidado que tem como foco um público mais alternativo. Segundo Raquel, a proposta da Sala Ruído foi trazer um pouco desse estilo para Porto Alegre.

“Nos juntamos aqui para começar a fazer essa movimentação também”, comenta a empreendedora, que já acompanhava o trabalho do sócio. “Sempre me inspirava muito no trabalho dele. Ele tem um estilo mais independente e já viajou o mundo fazendo cabelos”, conta.

Os dois se conheceram pouco antes da pandemia de Covid-19 e, desde então, compartilhavam a ideia de trabalhar juntos. “Nos juntamos pela primeira vez duas semanas antes de tudo começar a fechar. O Laurie saiu de Porto Alegre e eu fiquei um tempo parada”, lembra Raquel. Depois disso, ela voltou a atender sozinha, primeiro em casa e também a domicílio.

Nos anos seguintes, cada um seguiu caminhos diferentes, mas a ideia de unir forças permaneceu. Raquel se tornou mãe e abriu o próprio espaço na Capital. Laurie também chegou a operar um salão sozinho em Porto Alegre. Os caminhos voltaram a se cruzar no último ano, quando decidiram que era o momento certo para abrir um negócio em sociedade.

“Decidimos dar esse passo de juntar as malinhas e abrir um lugar. Era para ser um movimento mais devagar, mas encontramos o espaço e já fechamos”, conta Raquel. Na época, ela já contava com a parceria de Vanessa, que acabou se juntando ao projeto para complementar a proposta do salão com serviços voltados à saúde capilar.

Além dos atendimentos, os sócios pretendem transformar a Sala Ruído em um espaço criativo que vá além da função tradicional de um salão de beleza.

“Não é algo ainda totalmente definido, mas estamos buscando projetos diferentes para ocupar o nosso espaço”, afirma Raquel.

Salão cria linha própria de produtos naturais para cabelo

Operando há seis anos, o Crua lançou uma linha de produtos com shampoo, máscara condicionadora, finalizador e sérum
Na busca por uma beleza mais natural e consciente, o salão Crua, na Cidade Baixa, ganhou recentemente um novo capítulo com o lançamento da linha própria de produtos para cabelo. À frente do negócio estão os sócios Fernanda Griebler e Mauro Tarragoa. Após cerca de quatro anos de desenvolvimento, o casal lançou, em fevereiro, a primeira coleção de produtos que leva o nome do negócio, criada com foco em ingredientes naturais, embalagens reduzidas e formulações pensadas para o uso profissional e doméstico.

A linha inicial chega ao mercado com cinco itens, sendo eles dois tipos de shampoo em barra —um voltado para raízes sensíveis ou ressecadas e outro para cabelos mais oleosos —, uma máscara condicionante multifuncional, um finalizador em creme e um óleo para finalização. O desenvolvimento começou ainda durante a pandemia, quando os dois passaram a estudar formulações naturais e testar versões em um pequeno laboratório montado em casa.

“A gente estava há uns quatro anos desenvolvendo. Na pandemia, começamos a estudar, montamos até um minilaboratório em casa e fomos testando as formulações até chegar em algo que realmente tivesse resultado”, conta Fernanda.

Segundo ela, a proposta da linha nasceu da própria experiência profissional do casal. "Queríamos trabalhar com produtos que realmente acreditamos, mais sustentáveis e com resultado, que funcionassem no salão e no dia a dia das clientes”, diz a empreendedora. A criação da marca própria também reflete a filosofia que orienta o trabalho do salão desde a abertura de priorizar ingredientes naturais, reduzir embalagens e optar por fornecedores nacionais sempre que possível.

Do salão tradicional ao nicho natural

A história do empreendimento começou antes mesmo da abertura da Crua. Fernanda e Mauro trabalharam por anos em salões tradicionais até perceberem que tinham uma visão diferente sobre o atendimento e os produtos utilizados. “A gente sempre teve essa tendência de querer trabalhar com produtos mais naturais e com um atendimento mais slow, com mais tempo e respeito ao cliente. Nos salões tradicionais, não tinha muito espaço para isso”, lembra Mauro.

A decisão de empreender veio em 2020, no início da pandemia. O casal alugou uma pequena sala comercial e começou a atender apenas os dois, priorizando produtos naturais de marcas brasileiras. “Da pandemia para cá, a gente começou a pensar mais na nossa própria saúde e no que estava usando no dia a dia. Aí pensamos: 'por que não levar isso também para os clientes?'”, afirma o empreendedor.

A proposta do salão passou então a combinar técnicas de corte e tratamento capilar com um atendimento mais individualizado e menos acelerado. Em vez de agendas lotadas e rotatividade constante de clientes, os atendimentos são feitos com horários mais espaçados.

Decidimos aumentar o tempo de cada atendimento para realmente conversar com a cliente, entender o que ela precisa. Às vezes, não é só sobre um serviço, mas sobre entender o cabelo e a rotina da pessoa”, explica Fernanda.

Hoje, o carro-chefe do salão são os cortes e tratamentos capilares voltados à valorização da textura natural dos fios. Os serviços de coloração existem, mas seguem a mesma lógica de intervenção mínima. Um dos exemplos é o procedimento chamado beijo do sol, técnica feita à mão livre para clarear suavemente as pontas do cabelo, sem exigir manutenção frequente. “A ideia é criar uma iluminação natural, respeitando o cabelo e sem gerar muito dano. Se a pessoa não quiser retocar depois, também fica bonito”, explica Fernanda.

Público de nicho e educação do cliente

O perfil de público que procura o salão costuma ter afinidade com produtos naturais ou buscar alternativas por questões de saúde, como alergias a cosméticos convencionais. Pessoas que preferem ambientes mais tranquilos e menos movimentados também fazem parte do público. “Muitas vezes, são clientes que já usam produtos naturais ou que têm algum tipo de sensibilidade. Também tem quem simplesmente não goste daquele salão lotado, cheio de gente”, diz Fernanda.

Apesar do crescente interesse por cosméticos naturais, o setor ainda apresenta desafios. Um dos principais, segundo o casal, é a limitação de opções de produtos realmente naturais em algumas áreas. “O maior desafio é que ainda existem poucas opções naturais para certos serviços, principalmente na parte de cor”, afirma Mauro.

Outro ponto é o trabalho constante de explicar aos clientes as diferenças entre os resultados de produtos naturais e os cosméticos tradicionais. “Às vezes, a pessoa está acostumada com aquele resultado imediato do produto cheio de química. Então, a gente conversa bastante e explica como funciona o processo natural”, comenta Fernanda.

Para os empreendedores, a tendência é que o mercado de beleza continue avançando para modelos mais especializados e focados em nichos específicos.