Há poucos meses, Larissa Oliveira e Diego Limà atravessaram a porta do próprio negócio pela primeira vez. O Nalu Care (@nalu.carebeauty), salão inaugurado em setembro de 2025 no Centro de Esteio, carrega uma trajetória que começou muito antes da abertura. Entre sonhos interrompidos, redescobertas profissionais e um encontro que mudou rumos, nasceu não apenas um negócio, mas também uma história de amor e parceria.
O projeto é resultado da soma das trajetórias dos empreendedores. Diego, hoje barbeiro, trancista e especialista em cabelos com curvatura, começou longe das cadeiras de salão, ou nem tanto. “Sempre fui atleta profissional de futebol e, quando vi que o futebol não ia dar mais certo para mim, fui atrás do que eu ia fazer”, lembra. Foram sete anos na base do Grêmio, um período na base do Internacional e a profissionalização em São Paulo. A carreira promissora foi interrompida por quatro cirurgias no joelho. “No meu caso, aquele meme do jogador do joelho é verídico”, brinca. Sem conseguir retomar o alto rendimento, precisou recomeçar.
A barbearia, no entanto, já rondava sua história. Criado pela madrinha, dona de um salão afro em Sapucaia do Sul, Diego cresceu entre cadeiras, espelhos e conversas sobre cabelo. “Fui criado dentro do salão dela. Quando viajava com o time, era eu quem cortava o cabelo da galera.” O primeiro curso formal de barbearia veio em 2014, mas o empreendedor não parou por aí. “Uma cliente me procurou para fazer trança, porque estava em transição capilar. Fui pesquisar o que era isso e entendi que precisava estudar muito.”
Larissa, por sua vez, já respirava beleza desde a adolescência. “Faz 14 anos que trabalho com cabelos. Nunca fiz outra coisa, eu amo fazer isso.” Antes de empreender, ela começou como auxiliar aos 17 anos, tornou-se cabeleireira e se especializou em descoloração. Atendia majoritariamente cabelos lisos, em salões de shopping, onde a cultura era sair com escova. “As cacheadas queriam fazer mecha, mas saíam com o cabelo liso. Não tinha argumento para estimular elas a ficarem naturais.”
Amor, propósito e parceria
O encontro entre os dois aconteceu em setembro de 2021. Um almoço virou janta, e a conversa nunca mais parou. “Daquela janta estamos em 2026, casados e empreendendo, porque a nossa ideia começou a combinar demais”, conta Diego. “O amor veio primeiro que o negócio”, reforça.
A parceria profissional começou logo depois. Diego passou a compartilhar o conhecimento técnico sobre avaliação de fios, estrutura capilar e cosméticos adequados. “Comecei a distribuir um pouco do meu conhecimento para ela saber avaliar a estrutura do cabelo e entender se o fio estava preparado para uma transformação.” Larissa encontrou um novo propósito. “Já amava fazer mecha, mas quando entendi o que era trabalhar com cabelo com curvatura, mudou tudo. Ver uma mulher negra empoderada, com o cabelo transformado e se sentindo acolhida, confortável no nosso espaço, é maravilhoso”, afirma. O cuidado com a saúde dos fios se tornou diferencial. “A avaliação começa com o Diego e termina na minha cadeira. A transformação acontece de forma saudável, mantendo a estrutura do cabelo", explica a empreendedora.
Recentemente o Nalu Care abriu uma sala específica para o serviço de nail design
NATHAN LEMOS/JC
Em 2023, uniram-se a um colega em um salão maior. O último salão marcou uma fase intensa de crescimento, mas também revelou limites. “Não dávamos mais conta dos clientes”, conta Larissa. Ao mesmo tempo, decidiram investir pesado em gestão e administração, atentos aos dados de mercado que mostram o alto índice de fechamento precoce de salões.
O sonho do espaço próprio
O sonho do espaço próprio amadureceu com planejamento. “Sempre quis ter um salão voltado a resgatar uma essência, um espaço onde as pessoas pretas pudessem ficar confortáveis e saber que seriam escutadas”, afirma Diego. Em 2024, durante o recesso de fim de ano, sentaram para decidir e entenderam que estavam prontos.
Inicialmente, cogitaram comprar o ponto onde já trabalhavam. Larissa, no entanto, sentia que faltava algo. “Sempre falei que queria que o salão fosse em uma casa.” Faltando uma semana para a decisão final, apareceu o anúncio de um imóvel comercial. Era uma casa de 1963, que sempre pertenceu à mesma família e nunca havia sido alugada como ponto comercial. “Nós somos os primeiros inquilinos. Ela sempre foi da família e foi colocada para alugar justamente na semana em que eu precisava decidir”, conta.
O casarão mantém elementos originais, como o desenho na parede da sala principal, que descobriram representar um jangadeiro. “A gente nem sabia. Fomos pesquisar e entendemos que o jangadeiro é o defensor do mar, aquele que enfrenta as adversidades.” A descoberta dialogou com o nome escolhido.
Nalu tem dois significados que traduzem a identidade do salão. No havaiano, significa o poder e a liberdade das ondas do mar. Em algumas culturas do continente africano, remete ao poder da luz do sol. A gente trouxe essa ideia das ondas para o cabelo com curvatura, para a liberdade de usar o cabelo natural. E a luz do sol é esse brilho que elas dizem sentir quando se olham no espelho”, explica Diego.
Uma sala é dedicada exclusivamente aos lavatórios
NATHAN LEMOS/JC
A arquitetura reforça essa proposta. A luz natural invade a sala principal por uma grande janela que ocupa quase toda a parede voltada para o jardim frontal. O chão de taco original foi preservado; há uma parede de pedras aparentes, cadeiras estofadas em couro terracota, plantas distribuídas pelo ambiente e tons terrosos que aquecem o espaço. Uma sala é dedicada exclusivamente aos lavatórios, garantindo mais privacidade aos clientes. Recentemente, inauguraram outra sala para manicure e pedicure. Nos fundos, a área externa abriga jardim e piscina. Em uma peça próxima à piscina, o casal planeja instalar uma sala de aula para cursos e mentorias.
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Transformar autoestima em legado
Mais do que estética, o Nalu Care se tornou um espaço de pertencimento. Hoje, a clientela vem de diferentes cidades da Região Metropolitana e de Porto Alegre. O atendimento começa pela escuta, pela compreensão da história capilar e das vivências de cada cliente. Em um mercado que historicamente negou estrutura e acolhimento ao público negro, o salão se posiciona como território de celebração da beleza negra.
A transformação começa na cadeira de Diego e termina nas mão de Larissa
NATHAN LEMOS/JC
“Não é sobre o valor em dinheiro. É sobre o valor da autoestima, sobre entender o quanto a tua beleza é importante", reflete Diego. Para o casal, oferecer uma estrutura confortável, sofisticada e pensada para cabelos com curvatura é também um ato político. “Estamos resgatando uma essência que se perdeu. Mostrar que mulheres e homens negros podem ter acesso a espaços bem estruturados, podem celebrar a própria beleza e se sentir pertencentes.”
Ao olhar para trás, Diego encontra sentido na trajetória. “Tudo estava me trazendo até esse momento", afirma. “Descobrimos juntos o propósito disso", completa Larissa.

