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Publicada em 02 de Outubro de 2025 às 19:10

Músico e radialista, Mutuca foi um pioneiro apaixonado do rock gaúcho

Durante décadas, agitador cultural transmitiu a paixão pelo rock para várias gerações de gaúchos

Durante décadas, agitador cultural transmitiu a paixão pelo rock para várias gerações de gaúchos

FABIO WINTER/DIVULGAÇÃO/JC
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Daniel Sanes
“Eu me lembro de como era antes de existir o rock’n’roll (...). Depois, ouvimos Elvis e não conseguimos mais voltar atrás.”
“Eu me lembro de como era antes de existir o rock’n’roll (...). Depois, ouvimos Elvis e não conseguimos mais voltar atrás.”
Com pequenas variações — às vezes citando algum outro nome dos primórdios do rock —, a declaração acima era recorrente nas entrevistas do britânico Lemmy Kilmister (1945-2015), sobretudo quando o líder do Motörhead contava como o gênero musical entrou em sua vida. Mas a frase poderia muito bem ter saído da boca de um contemporâneo seu, nascido em 12 de agosto de 1946, do outro lado do oceano: Carlos Eduardo Weyrauch.
Se o nome não soar familiar, basta mencionar o apelido. Mutuca foi, assim como tantos outros jovens da geração pós-guerra, testemunha de um mundo em transformação, no qual o rock’n’roll teria um papel fundamental. Em pouco tempo, o novo ritmo colocaria a 'moçada' pra dançar e se tornaria sinônimo de liberdade e rebeldia.
Foram essas características, aliadas ao som pulsante das guitarras, que levaram o pequeno Carlos Eduardo a ter uma epifania. Aos nove anos de idade, o menino conheceu o universo dos discos de vinil, com Bill Haley and His Comets e Elvis Presley.
A partir daí, decidiu que o rock não seria apenas a trilha sonora de sua vida, mas sua própria identidade. “No colégio, meu irmão já participava de bandas (marciais). Logo depois, vieram Elvis, Beatles, Rolling Stones... A vida dele girava em torno da música”, resume a pedagoga Beatriz Weyrauch.
Não é exagero dizer que Mutuca foi o responsável por apresentar o estilo a várias gerações. Como vocalista, guitarrista e gaitista, integrou os grupos Alphagroup e O Succo, ainda nos anos 1960. Nas décadas seguintes, enfileirou um projeto atrás do outro, entre os quais merecem destaque A Barra do Porto, Óculos Escuros, Os Fabulosos Irmãos Brothers, Bric-Brothers e Mutuca e Os Animais — só para citar alguns.
O baterista Edinho Galhardi tocou em três dessas bandas: A Barra do Porto, Óculos Escuros e Os Animais. Ele lembra do amigo como um grande pesquisador, “que sabia tudo sobre rock”, e um cara generoso com os demais músicos. Um exemplo disso se deu em 1983, quando Mutuca abriu o Rocket 88, bar no bairro Menino Deus que tinha como banda da casa os Garotos da Rua — grupo formado por Edinho e outro ex-A Barra do Porto, o também saudoso Bebeco Garcia.
“Ele teve essa ideia meio kamikaze de montar um bar de rock em Porto Alegre quando ninguém mais tocava rock”, afirma Edinho. “Admirei sua grandeza em permitir que fôssemos a atração do lugar, e não ele, que era o dono. Em seguida, recebemos convites de outros clubes. E aí veio o sucesso dos Garotos tocando Tô de Saco Cheio do Oiapoque ao Chuí, Chacrinha e outros programas de TV e rádio. Mas tudo começou ali, no Rocket 88.”
O bar não foi a única incursão de Mutuca fora dos palcos. Em 1988, ele passou a usar o microfone para levar o rock a um público ainda maior, através de um programa que faria história nas FMs.
Transmitido ao vivo nas tardes de sábado, o Hot Club do Mutuca trazia o melhor do “som das antigas” — primeiro, na extinta Felusp, sob o nome Tequila Sunrise, e, a partir de 1991, nas ondas da também finada Ipanema. A programação reunia clássicos das décadas de 1950 e 1960, mas, principalmente, lados B que só mesmo uma enciclopédia musical ambulante poderia apresentar aos ouvintes. Um programa leve, marcado pelas tiradas debochadas e a inconfundível voz do cantor/radialista.
Em 2014, com o desmonte da Ipanema, Mutuca se mudou para a web rádio Dinâmico FM, do colega e amigo Claudio Cunha. Lá, ficaria até o fim — o roqueiro morreu na madrugada do dia 13 de junho de 2018, após sofrer um infarto.
“Admirava o Mutuca desde a adolescência, quando conheci músicas como Entrei numa Fria e Blues da Casa Torta. Depois, já na Ipanema, tivemos a oportunidade de conviver profissionalmente e rolou uma identificação imediata. Ele era paciente, solícito e muito querido. Eu o via como um pai-irmão. É um cara que faz muita falta”, recorda o comunicador.
Alto astral, Mutuca viveu para o rock’n’roll até o fim. Segundo Kiko Souza, presidente da Associação Cultural Casa do Rock, em Taquara (cidade onde o músico viveu seus últimos anos), tinha até ensaio previsto para a semana seguinte à sua morte.
Em depoimento ao documentarista Emerson Links, que em 2017 registrou no YouTube a festa de 50 anos de carreira — e 71 de vida — de Mutuca, o músico falou sobre como o amor à música ajudava a manter o espírito jovem. “(Com a idade), muda o corpo físico, mas é só”, refletiu. “O rock torna a alma perene.”

Na trilha do Mutuca

Mutuca em 1981, durante apresentação no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre

Mutuca em 1981, durante apresentação no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre

ACERVO PESSOAL FAMÍLIA WEYRAUCH/REPRODUÇÃO/JC
Mutuca (Mutz ou Muts, para os mais íntimos) era o típico "roqueiro raiz". Influenciado pelos pioneiros do estilo, fazia questão de se manter fiel à essência do som que tanto amava. Isso não significa, porém, que abominava outros tipos de música — desde, é claro, que soassem honestos aos ouvidos dele.
"Muts era um roqueiro clássico, mas também um compositor aberto a todas as tendências. Não era fundamentalista, e sim um artista como poucos", defende o jornalista Nei Duclós, autor de diversas poesias que, musicadas, se tornaram hits do repertório de Mutuca.
Carlos Eduardo Weyrauch passou a infância no bairro Partenon, rodeado por diferentes instrumentos musicais. Começou a ter aulas de violão em 1963, quando ganhou o instrumento da avó. "Vovó tocava bandolim e mamãe, piano. Então, ele já carregava a música no sangue", afirma a irmã Beatriz.
Descendente de imigrantes alemães vindos da cidade de Kassel, seu pai, Ernesto Carlos Joaquim, conheceu a mãe, Clory Paulina, na antiga Esef, como era chamada a Faculdade de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Tiveram quatro filhos: Carlos Eduardo, Luiz Fernando, Gustavo Henrique e Beatriz.
Bia, a única ainda viva dos quatro irmãos, lembra que o quarto de Mutuca (ou Dadado, como se refere a ele desde criança) despertava "fascínio" — especialmente para uma menina 12 anos mais nova. "Eu era meio rebelde e queria participar de tudo, mas era muito pequena. Ele sempre me acolhia, seja colocando discos na vitrola, seja tocando violão e gaitinha de boca", diz a pedagoga.
Do Grupo Escolar Apeles Porto Alegre, onde cursou os anos iniciais, Mutuca foi para o Colégio Júlio de Castilhos fazer o Ensino Médio, já no início dos anos 1960. Ao entrar na faculdade, optou pelo curso de Arquitetura da Ufrgs, que não chegou a concluir. No entanto, ali fez grandes amizades e começou a se tornar uma lenda do rock gaúcho.
 

Vida nos palcos

A Barra do Porto, em 1975 (esq para dir): Rogerio Collares, Mutuca, Felipe Soares, Bugo Silveira e Bebeco Garcia

A Barra do Porto, em 1975 (esq para dir): Rogerio Collares, Mutuca, Felipe Soares, Bugo Silveira e Bebeco Garcia

LEONID STRELIAEV/REPRODUÇÃO/JC
Praticamente todo mundo que decidiu tocar rock nos anos 1960 em Porto Alegre integrou uma banda ao lado de Mutuca. Tudo começou em 1966, com Os Incógnitos. No ano seguinte, o conjunto virou Alphagroup e, mesmo acabando em 1968, fez história na cidade.
"Tendo como sideman o guitarrista e futuro jornalista Mola (Nelson Matzenbacker Ferrão), são muito mais rock que pop, ingleses que estadunidenses, e ainda botavam na roda suas primeiras composições — em inglês", escreve o jornalista e músico Arthur de Faria em um trecho da série de livros Porto Alegre: uma Biografia Musical, disponível no site Matinal Jornalismo. "Mutuca era o cara. Talvez se vivesse num mercado mais poderoso, como Rio e São Paulo, teria feito ainda mais", acredita Mola.
Mas isso não era algo que passava pela cabeça de Mutuca. "Ir para um grande centro para passar mal não é coisa de gaúcho. Prefiro ficar aqui e curtir o sol se pondo no Guaíba", filosofava.
Depois do Alphagroup, Mutuca se uniria a outro pioneiro da cena: Claudio Vera Cruz. Vindo do Som 4, apontado como "a melhor banda beatle da cidade", o guitarrista vivenciou, junto do amigo, um dos episódios mais folclóricos da época.
Com a banda O Succo — que ainda tinha Moka Lucena (guitarra), João Blattner (bateria), Flávio 'Chaminé' Dias (baixo e vocais) e Renato 'Português' Rodrigues (baixo) — eles participaram do II Festival Universitário de MPB da Arquitetura da Ufrgs, com a música Nem Só de Graves Vive o Homem, em 1969.
Foi uma performance caótica, com direito a "lançamento de talco" por Mutuca, atingindo a orquestra no fosso em frente ao palco. Empolgado pela reação da plateia, Português levou uma galinha viva na noite seguinte. "Lembro do maestro agachado e o bicho passando por cima. E a massa delirando, pedindo pra quebrar tudo", ri Vera Cruz.
Irritado com as críticas da esposa do músico Geraldo Flach à performance, Chaminé partiu para as vias de fato. Português entrou na briga e acertou o baixo na cabeça do pianista, que foi levado sangrando para o hospital. Resultado: a banda precisou prestar contas ao delegado - nada menos que o irmão de Geraldo, Matias Flach. Por sorte, ele acabou liberando todo mundo.
Após O Succo, Mutuca participou de outros shows históricos, como Amelita, Cabeça, Tronco e Membros. Em 1975, começou a tocar nas Rodas de Som, organizadas por seu primo e também músico Carlinhos Hartlieb, no Teatro de Arena. Nesse mesmo ano, fundou A Barra do Porto, apontada como a primeira banda de blues da Capital.
Na virada da década, passou a escrever trilhas para teatro — outra expressão artística com a qual tinha bastante afinidade —, mas sem deixar de montar bandas. Para o baterista e engenheiro de som João Blattner, parceiro tanto em O Succo como n'Os Animais, a inquietude era algo inerente à personalidade do músico. "Ele sempre vinha com uma ideia nova para ser produzida", afirma. "Era um cara do bem, e um senhor conhecedor de música, especialmente rock'n'roll."
 

Um personagem carismático

Formação original de Mutuca e Os animais: Sérgio Stosch, Paulinho Supekovia, Lúcio 'Bolita' Vargas, Duda Guedes e Mutuca

Formação original de Mutuca e Os animais: Sérgio Stosch, Paulinho Supekovia, Lúcio 'Bolita' Vargas, Duda Guedes e Mutuca

ACERVO PESSOAL FAMÍLIA WEYRAUCH/REPRODUÇÃO/JC
Quem conviveu com Mutuca o define como um personagem. Não no sentido de ser alguém que interpreta algo que não é, mas de ter um brilho tão intenso que transcende palcos e microfones. "Ele tinha um lado teatral. Não era só um músico, era um ator fazendo música", observa Mola.
O jornalista e professor Sérgio Stosch, que, como pianista, acompanhou Os Animais por mais de uma década, destaca que o amigo sempre carregava um lencinho nos shows, que usava para limpar o suor. Depois, colocava no bolso de trás, mas deixando parte para fora. Fazia parte do "estilo Mutuca de ser".
Stosch o conheceu quando foi trabalhar na Rádio da Universidade, na Ufrgs, no início dos anos 1970. O jovem aspirante a arquiteto era um habitué do estúdio, pois levava materiais para divulgar os festivais realizados no prédio vizinho. Um dia, os dois trocaram figurinhas e rolou uma afinidade. Após uma participação especial aqui, outra ali, somente no fim dos anos 1980 se juntaram para formar uma banda.
"Ele me procurou falando que precisava de um pianista para tocar rhythm 'n' blues, que já tinha fechado com o Chaminé, com o King Jim (saxofonista)... Eu estava enferrujado, porque meu último conjunto tinha sido o Impacto — que é uma banda de baile, né? Pode-se dizer que, musicalmente, o Mutuca abriu a tumba e me tirou do caixão", brinca Stosch.
O pianista só guarda boas memórias do companheiro de banda, que, para ele, tinha o completo domínio do palco. "Se errasse uma letra, imediatamente fazia uma piada, dava um jeito de contornar o problema. Era uma figura muito carismática."
O guitarrista/tecladista (e, atualmente, dentista) Edmar 'Eco' Alvares concorda. Parceiro dos tempos de Alphagroup, ele chegou a tocar com o músico em diversos momentos da carreira. Resolveu deixar os palcos no que considerou o auge "insuperável": a abertura de Mutuca e Os Animais para o lendário cantor e pianista Jerry Lee Lewis, em 2009.
"O Mutuca não tinha grande formação musical. Eu até brincava e dizia que ele não tocava porra nenhuma, que era um cara de pau", debocha Eco. "Mas uma coisa não dá pra negar: ele tinha uma performance maravilhosa. Em um dia em que estivesse legal, mandava bem pra caramba. Cheguei a ver músicos mais jovens trocando ideia com ele depois dos nossos shows. Parecia que estavam diante do Mick Jagger."
Para Mola, um diferencial do músico era que ele tinha atitude, mas não era arrogante. "Mutz sacava tendências e antecipava o que poderia estar vindo da Europa e dos EUA. Conhecia e diferenciava bandas, cantores, cantoras", diz. "Do jeitinho dele — às vezes meio esquivo, mas sempre inteligente —, ajudou muita gente na música. E alegrou milhares, tocando, cantando e performando."
Fora dos palcos, a coisa era um pouco diferente. "A verdade é que ele era um cara tímido, meio bicho do mato. Não saía conversando com todo mundo", revela Eco. Segundo Stosch, Mutuca se considerava um "lobo solitário". "Ele gostava dessa fantasia, do cowboy que caminha no deserto, de se sentir o cara que não tem ninguém. Só que não resistia a um vestidinho, como ele mesmo falava", ironiza.
Isso não o impedia de ser um romântico incurável. Nos dois relacionamentos mais sérios que teve, segundo Beatriz, Mutuca revelou uma faceta bem diferente do clichê de roqueiro boêmio. "A companheira dele chegava em casa, e ele já estava esperando com a comida pronta. Meu irmão era um cara caseiro, que curtia cozinhar."
 

Registros para a posteridade

Mutuca no estúdio, um de seus habitats naturais

Mutuca no estúdio, um de seus habitats naturais

ACERVO PESSOAL FAMÍLIA WEYRAUCH/REPRODUÇÃO/JC
Apesar da longa carreira, Mutuca só deixou dois álbuns de estúdio. Não que ele se preocupasse muito com isso. "Músico é músico quando está no palco", costumava dizer.
O primeiro CD saiu em 1999, quando já tinha 53 anos. Intitulado apenas Hot Club, foi gravado sob o nome Mutuca e Os Animais, que trazia um timaço de músicos: Sérgio Stosch (piano), Paulinho Supekovia (guitarra), Lúcio 'Bolita' Vargas (baixo) e Duda Guedes (bateria).
Nesse disco, registrou para a posteridade os hits regionais Entrei numa Fria, Blues da Casa Torta e Declaração — esta já conhecida na voz de Nei Lisboa, que a havia gravado em Carecas da Jamaica (1987).
O repertório conta ainda com dois clássicos de Nei: Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina e Faxineira, na qual o compositor faz referência direta ao amigo: "Faxineira, fascinante/Onde guardaste o papel/Que eu deixei na estante anteontem/É o telefone que o Mutuca me passou/De uma garota de Brasília/Filha única de um governador".
Na versão d'Os Animais, Mutuca retribui a gentileza, trocando seu nome pelo de Nei. O disco foi indicado ao Prêmio Açorianos nas categorias Cantor de Rock e Disco de Blues.
O segundo álbum levaria mais 15 anos pra sair do forno. Mais uma vez, Mutuca reuniu um dream team do rock gaúcho, com destaque para o guitarrista Luiz Henrique 'Tchê' Gomes e o baterista/produtor Paulo Arcari.
Assinado como Mutuca Weyrauch, Alma Prisioneira (2014) tem um repertório em que predominam as composições próprias, solo ou em parceria com Nei Duclós, coautor de algumas de suas músicas mais conhecidas. "Ele ia lá em casa e folheava meu caderno de poemas para criar melodias. Mutuca mantinha o poema íntegro, sem modificações. Quando optava por outra solução, sempre me consultava", garante o letrista.
Infelizmente, os discos ainda não estão nas plataformas de streaming. É possível achar algumas faixas esparsas na internet, a maioria no YouTube.
 

Alma (quase) prisioneira

Quase-prisão de Mutuca antes de show em Caxias do Sul tornou-se episódio lendário na trajetória do artista

Quase-prisão de Mutuca antes de show em Caxias do Sul tornou-se episódio lendário na trajetória do artista

MUTUCA WEYRAUCH/FACEBOOK/REPRODUÇÃO/JC
Eu tava na rua andando e cuidando da minha vida
Quando dois ‘cana-dura’ me abordaram logo em seguida/
Eles disseram: “Tú é o Mutuca?”/
Eu falei: “Sou, por que? Tô dançando?”/
Eles disseram: “Tu é o cara que a gente tava procurando…” 
Uma das músicas mais conhecidas de Mutuca, Entrei numa fria é uma historinha divertida sobre uma revista policial para “averiguar” se o sujeito estava portando substâncias ilícitas. Tanto que em outro trecho da letra, ele diz que “Queriam saber porque eu tava tão alegre/Se os meus olhos estavam vermelhos como os de uma lebre”, uma clara alusão aos efeitos da maconha.
Embora Mutuca já tenha dito mais de uma vez que a letra é pura ficção, há relatos de que, por pouco, ele não passou maus bocados com a lei. E não foi por porte de marijuana — apesar de que, como revela Sérgio Stosch, o amigo “fumava um baseadinho pra ficar esperto antes dos shows”.
A “quase prisão” teria ocorrido por um motivo pra lá de aleatório. Quem conta é Claudio Vera Cruz:
“Certa vez, lá por 1969, 1970, fomos tocar em Caxias do Sul. Uma viagem bem legal, de trem. O Mutuca se destacou passeando pela cidade e fazendo discursos sobre a juventude e o rock‘n’roll — nada político — e prenderam ele. Eu, como tinha feito o serviço militar lá, conhecia todo mundo no quartel. Quando fui resgatá-lo, só ouvia o cara gritando: ‘Me tira daqui! Me tira daqui! (risos). Liberaram o Mutuca, tocamos numa boate e pegamos o trem de volta”.
O episódio, porém, não é amplamente conhecido. De todos os músicos consultados, nenhum soube confirmar — na verdade, sequer haviam ouvido falar. Apenas João Blattner, que conviveu com a dupla nos tempos de O Succo, tem uma vaga lembrança.
“O que sei dessa história é a versão contada pelo Claudio, pois eu não estava em Caxias nessa ocasião. Mas, quando se trata de Mutuca, tudo é possível”, brinca o baterista.

Cinco curiosidades sobre Mutuca

Mutuca no estúdio da DinâmicoFM, última estação a abrigar os programas radiofônicos do comunicador

Mutuca no estúdio da DinâmicoFM, última estação a abrigar os programas radiofônicos do comunicador

CLAUDIO CUNHA/DIVULGAÇÃO/JC
- Ninguém sabe ao certo a origem do apelido, mas supõe-se que tenha surgido nos tempos da Arquitetura. Segundo Claudio Cunha, seria algo semelhante a uma "mosca na sopa", ou seja, alguém que viria para causar desconforto. Edinho Galhardi acredita que tenha sido até antes, pois Mutuca "incomodava toda a turma" desde a primeira banda.
- O primeiro show, com o Alphagroup, foi no dia de seu aniversário de 21 anos (12 de agosto de 1967), em Caxias do Sul. A data virou uma celebração dupla, de vida e de carreira. O principal palco dessas comemorações foi o bar Vermelho 23, no Bom Fim.
- A verve teatral de Mutuca pode ser conferida no engraçadíssimo especial Palcos da Vida — O Selvagem da Guitarra, exibido em 1990 pela TVE. Mescla de ficção com um show no Teatro Renascença, o programa está disponível no site Relicário do Rock Gaúcho, que reúne raridades da cena local.
- Outro importante registro de Mutuca na TV é seu depoimento no RBS Documento, programa de 1986 que mapeia a efervescente cena gaúcha da época. O documentário pode ser visto no YouTube.
- Mutuca também tinha um lado escritor, registrado em uma coluna nos jornais NH e VS, do Vale dos Sinos. Segundo Arthur de Faria, também tinha dois livros na gaveta: Almanaque da Família Weyrauch, sobre memórias familiares, e Remembranças do Rock Gaúcho - Autobiografia e Histórias das Bandas. Sua irmã, Beatriz, espera tirar o primeiro do papel. O destino do segundo é incerto.
 

* Daniel Sanes é jornalista formado pela Universidade Católica de Pelotas. Já foi repórter e editor no Jornal do Comércio. Hoje, trabalha na República – Agência de Conteúdo e atua como freelancer.

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