RAIO-X DA SABESP
Fundação: 1973
Lucro líquido 2023: R$ 3,5 bilhões
Valor de mercado: R$ 57 bilhões
Funcionários: 11.170
Municípios atendidos: 375
População atendida: 28,4 milhões
QUAL O VALOR DAS AÇÕES DA SABESP?
Em fevereiro de 2023, quando o governo de São Paulo colocou a empresa no programa de desestatização, a ação era negociada a R$ 51,75 na Bolsa. No final daquele ano, a cotação estava próxima de R$ 67.
No dia da oferta feita pela Equatorial, o preço estava acima de R$ 70. Na última terça (23), encerrou a sessão no patamar de R$ 88.
OBSERVATÓRIO APONTA PERDA
O Observatório Nacional de Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), que participou de ações na Justiça questionando a privatização, diz que São Paulo vendeu as ações por um valor R$ 4,4 bilhões abaixo das cotações atuais.
Também afirma que a procura pelas ações na Bolsa, que continua se refletindo em valorização, mostra que o valor da venda ficou abaixo do que seria correto. A instituição avalia que o preço da ação irá disparar e dará grandes lucros para todos os participantes da oferta.
GOVERNO DE SÃO PAULO APONTA GANHO
Na entrevista à GloboNews, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) utilizou o valor de fevereiro de 2023 para afirmar que o estado já ganhou R$ 8 bilhões com a venda da empresa.
Essa é a diferença entre dois números: 1) o valor das ações do governo paulista no começo do ano passado (R$ 17 bilhões) e 2) a soma do que foi arrecadado agora com a venda de 32% (R$ 14,8 bilhões) com o valor das ações que ainda estão nas mãos de São Paulo (18% da companhia, valendo R$ 11 bilhões), totalizando quase R$ 25 bilhões.
O governador disse que a ação deve superar R$ 120 nos próximos anos, considerando investimentos e ganhos de eficiência. Quando chegar a esse patamar, os 18% que ainda estão nas mãos de São Paulo vão valer a mesma coisa que os 32% vendidos agora, afirmou.
O governo paulista já havia dito que a Equatorial vai pagar quase R$ 7 bilhões pela empresa, mas não está assumindo o controle, pois São Paulo ainda possui a maior parte dos papéis. Há também a regra que exige que a empresa fique com as ações por um período de cinco anos e faça investimentos. Por isso, era natural que houvesse um desconto em relação ao valor da cotação no dia.
O NOVO ACIONISTA DE REFERÊNCIA JÁ LUCROU COM AS AÇÕES?
A empresa Equatorial, ligada ao setor de energia, foi a única a apresentar proposta para comprar os 15% das ações da estatal oferecidas por São Paulo e se tornou acionista de referência da companhia. O grupo ofereceu o valor de R$ 67 por ação, um total de R$ 6,9 bilhões.
A existência de um único interessado contribuiu para que o preço não fosse mais alto.
O acordo com o estado prevê que a empresa não poderá vender as ações adquiridas na oferta pública até 31 de dezembro de 2029, tempo para conclusão da universalização do saneamento em São Paulo. A previsão é de investimentos de R$ 69 bilhões até essa data. "Isso vai garantir uma estabilidade de conselho, na direção da companhia", diz Tarcísio.
OUTROS INVESTIDORES JÁ LUCRARAM?
Essa também foi a cotação paga pelos demais investidores, incluindo pessoas físicas e fundos, que participaram da oferta de outros 17% vendidos pelo estado, levantando mais R$ 7,9 bilhões.
A operação contou com a participação de 17,9 mil pessoas físicas. Entre os investidores institucionais, foram 290 fundos, sendo 50% internacionais. Esses Investidores já podem vender os papéis, mas a valorização da ação mostra que não houve um movimento imediato para realizar lucros.
POR QUE O GOVERNO DE SP SÓ NÃO COLOCOU AS AÇÕES NA BOLSA?
O governo diz ter estudado vários modelos de desestatização, inclusive a venda total da empresa. A opção escolhida foi a de fazer uma oferta subsequente de ações (follow-on). É um modelo diferente do que aconteceu com a privatização da Eletrobras, em que as ações foram diluídas na Bolsa, sem que houve a procura por um sócio que atendesse certos requisitos.
O governo paulista diz que sempre teve a preocupação em conciliar a maior valorização com a entrada de um acionista comprometido com o futuro da empresa e a meta de universalização do saneamento básico em São Paulo.
O formato do follow-on escolhido por Tarcísio é inédito, cheio de complexidades que deixaram o mercado em dúvida ao longo do processo. Houve uma etapa voltada para os agentes privados interessados em serem acionistas de referência da Sabesp e outro para investidores do mercado. O acionista de referência será uma espécie de sócio estratégico do governo paulista no negócio.
Nesse modelo, o acionista de referência forma o preço da oferta, o que confirmou a expectativa de que isso puxasse o preço por ação para baixo.
CRÍTICAS AO PROCESSO
Especialistas criticaram as regras da privatização, argumentando que o formato escolhido para a oferta de ações privilegiava uma proposta com valor menor, não a maior -como costuma ser o critério para processos de desestatização.
Outra preocupação foi com uma cláusula que limitou a participação do acionista de referência da Sabesp em novos leilões de saneamento, diminuindo a concorrência.
Na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), a aprovação da privatização da Sabesp teve idas e vindas e foi palco de tensão, com manifestação violenta de sindicatos.
PRÓXIMOS PASSOS
A compra da fatia de 15% pela Equatorial ainda precisa de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A nova gestão assumirá a empresa após a eleição do novo conselho de administração em assembleia geral dos acionistas. Também haverá escolha do novo diretor-presidente da Sabesp.
QUEM ESTARÁ NO NOVO CONSELHO
O novo conselho de administração será composto por três indicados pelo governo de São Paulo, três indicados pelo acionista de referência (Equatorial) e três conselheiros independentes. O presidente do conselho será indicado pelo investidor de referência.
QUEM VAI COMANDAR A EMPRESA
Pelas regras da privatização, o governo estadual deverá se abster de indicar o candidato a diretor-presidente, podendo apenas participar da votação para escolha do CEO, por meio de seus representantes no conselho de administração.
QUAL A PARTICIPAÇÃO DO ESTADO NA SABESP AGORA
Com a oferta, o Governo de São Paulo reduziu sua participação no capital social da Sabesp de 50,3% para 18%.
QUEM SÃO OS ACIONISTAS DA EQUATORIAL?
A companhia, que tem ações negociadas na Bolsa de Valores desde 2006, não tem um controlador único. Seu capital social está distribuído entre as gestoras Opportunity (6,3%), Atmos (5,5%), Capital World Investors (5,2%), Squadra Investimentos (5,0%), Canada Pension Plan (5,0%) e BlackRock (5,0%).