Responsável por uma receita de R$ 27 bilhões no ano passado, crescimento de 5,3% na comparação com 2023, a indústria óptica brasileira vislumbra no horizonte potenciais oportunidades de crescimento, principalmente diante das perspectivas quanto às necessidades da população de tratamento da saúde visual, um tema ainda negligenciado por milhões de pessoas mundo afora. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), algo como 50% da população mundial necessita de óculos para tratamento de diferentes doenças, especialmente miopia, glaucoma e catarata.
Tomando por base o que preconiza a OMS, 100 milhões de brasileiros deveriam usar óculos ou lentes de contato. No entanto, as estimativas são de que apenas 40 milhões fazem uso do produto. Ou seja, há um contingente de 60 milhões de pessoas que sofrem de alguma doença ocular e não a tratam ou a previnem. "No geral, as pessoas não cuidam da saúde visual. A orientação é que até os 40 anos seja feita consulta oftalmológica bianual e, depois, anual. Mas como é uma doença que não dói, as pessoas não fazem as consultas e só veem a necessidade de tratamento, normalmente, quando já está em estágio avançado. Precisamos nos conscientizar sobre cuidados com os olhos", reflete Ambra Nobre Sinkoc, diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria Óptica (Abióptica), entidade promotora da Expo Óptica, feira do setor realizada anualmente, em São Paulo.
Existem ainda outros indicadores que potencializam o mercado óptico. Um deles é o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, o que deve aumentar a necessidade de uso dos óculos, quer para tratar doenças, quer para proteger os olhos. "Em 2040, mais de 25% dos brasileiros serão sexagenários", registra a diretora.
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Oftalmologia divulgados neste ano, cerca de 70% da população sofre de algum tipo de desconforto visual recorrente pelo uso prolongado de computadores, laptops, tablets e celulares. Segundo outros estudos, desenvolvidos pela OneSight EssilorLuxottica Foundation, cerca de 2,7 bilhões de pessoas em todo o mundo apresentam algum problema de visão. No Brasil, mais de 144 milhões de habitantes possuem alguma necessidade de correção visual.
Na outra ponta está o avanço expressivo da miopia infantil. Pesquisas indicam que, até 2050, metade da população mundial será míope. "Boa parte desses casos está diretamente relacionado com as telas de celulares e computadores. O desenvolvimento da visão para longe ocorre de zero a sete anos. Como as crianças passam muito tempo em frente e perto destas tecnologias, deixam de desenvolver o olhar para longe, dando origem à miopia. Cada vez mais aproximam o olhar dos aparelhos para enxergar melhor", registra a executiva, alertando que os pais devem ficar atentos para esta situação e levar seus filhos regularmente ao oftalmologista.
Recomendação que também se estende aos educadores. Ambra relatou registros de médicos que têm atendido crianças, supostamente com hiperatividade, de acordo com os pais. No entanto, os profissionais têm identificado dificuldades visuais nos alunos, o que os leva a não enxergarem os conteúdos ministrados e a se distraírem. "Identificado e tratado o problema ocular, as crianças não apresentam mais aquela agitação. Ou seja, pais e educadores estão confundindo miopia com TDAH. É mais um ponto de cuidado", salientou.
Esta constatação tem sido usada como defesa para um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional, tornando obrigatória a realização de exame visual em crianças para garantir a matrícula escolar. De acordo com a executiva, o exame pode ser feito em qualquer estabelecimento que tenha capacidade para comprovar a saúde ocular. No mesmo projeto, a pedido de especialistas e entidades, foi agregada a demanda de exame auditivo. "Criança com problemas auditivos também pode se distrair em sala de aula", comenta.
Outro projeto com igual preocupação, mas no âmbito profissional, torna obrigatório o exame oftalmológico aos empregados em processo de dispensa das empresas. A proposta acrescenta um parágrafo ao artigo 168 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O segmento ainda é impulsionado pela moda e pelas tendências de estilo, com o consumidor buscando diferenciais para sua rotina diária, visando uma relação entre saúde visual e qualidade de vida. Ambra frisa que os óculos são vistos como item de moda essencial, o que tem exigido design inovador com criações exclusivas para todos os perfis. Em linha com essa tendência é crescente o mercado premium, com óculos de luxo, bem como a acessibilidade de número maior de brasileiros ao segmento. "O setor óptico tem uma combinação única e estratégica, vinculando-se com saúde ocular, moda e tendências", define.