Elas costuram com as mãos, mas também com a força de quem reergueu a própria vida. São mães, imigrantes, mulheres que perderam suas casas e seu sustento nas enchentes de 2024 e encontraram no projeto Recrie-se em parceria com a Ciclo Reverso, uma forma de reconstruir o lar, a autoestima e o futuro.
Entre as mulheres que encontraram no trabalho uma nova chance está Maria Alexandra Billa, jovem colombiana de 19 anos que chegou ao Brasil em busca de refúgio. Ao enfrentar o desafio de recomeçar em outro país, ela foi acolhida pelo projeto e encontrou ali mais do que trabalho: encontrou pertencimento. Filha de refugiados, colega da filha de uma das coordenadoras do projeto, Maria já sabia costurar e ficou empolgada com o convite.
Para ela, o projeto representa também um espaço de acolhimento, onde ela se sente segura entre mulheres. Sua história, marcada por deslocamento e coragem, tornou-se símbolo da força que atravessa fronteiras em processos de reconstrução.
Bianca das Neves é outra das mulheres cuja vida foi transformada pelo Recrie-se. Antes de chegar ao projeto, vivia em situação de extrema vulnerabilidade. A insegurança financeira e a ausência de oportunidades marcavam sua rotina. "Antes, eu só sobrevivia. Hoje, eu vivo com dignidade. Foi aqui que eu aprendi que o meu trabalho tem valor", diz Bianca
Educadora social e costureira de longa data, Maria Regina de Moura carrega no olhar a força de quem aprendeu a transformar adversidades em criação. Mãe de uma filha com deficiência, ela encontrou na costura uma forma de sustento. Desde os tempos em que reaproveitava sobras de confecção para fazer casacos e tapetes — muito antes de o termo "sustentabilidade" se tornar tendência —, Regina já entendia o valor de dar nova vida ao que seria descartado. "Pra mim, é a coisa mais incrível: uma roupa que seria jogada fora virar algo útil, bonito e cheio de significado." Declara.
Para ela, participar de um projeto que une sustentabilidade, renda e reconstrução é, sobretudo, um ato de fé. "A palavra que resume tudo isso é esperança. Porque a gente acredita. E quando as pessoas valorizam esse trabalho, a gente tem certeza que tem jeito, sim."
Lisiane Linhares é uma das idealizadoras do projeto e atua na coordenação da Ciclo Reverso, organização que há anos trabalha com reaproveitamento de resíduos. Mesmo durante sua licença-maternidade, seguiu envolvida com o Recrie-se "Eu vinha com o barrigão, sentava aqui e conversava com elas. Não tem como se desligar quando a gente vê o impacto desse trabalho na vida das pessoas. O projeto também me transformou", conta.
O projeto Recrie-se nasceu da urgência: havia roupas e tecidos sem destino após a tragédia. A idealização foi de Liliane Linhares, cofundadora da Ciclo, em parceria com o Instituto Justiça. A proposta era dupla: evitar o descarte e gerar trabalho digno para mulheres afetadas. Em poucos meses, novos grupos de costura surgiram no Morro da Cruz, Bom Jesus, Tuca, Morro da Polícia e até em Guaíba, uma das cidades mais atingidas.
Ao todo, 64 mulheres foram capacitadas no projeto. Algumas atuam na sede da Ciclo Reverso, outras em casa ou em polos comunitários. A Arco Resíduos, empresa de gestão de resíduos que também sofreu com a enchente, cedeu espaço para triagem e armazenamento. As bolsas produzidas com tecidos reaproveitados e banners publicitários carregam em cada ponto uma história de resistência.
Para Lisiane, o Recrie-se nasceu de uma escuta atenta às mulheres atingidas pelas enchentes, e cresceu com base na colaboração, afeto e urgência de reconstrução. "A Ciclo sempre teve impacto ambiental, mas o maior impacto é o social. É ver essas mulheres retomando suas vidas com dignidade e propósito." Conclui.