Porto Alegre, terça-feira, 11 de maio de 2021.
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Entrevista especial

- Publicada em 11h00min, 09/05/2021. Atualizada em 20h40min, 11/05/2021.

'Empreendedor precisa de um ambiente confiável', diz Fátima Daudt, prefeita de Novo Hamburgo

'Tornar a cidade agradável para quem mora' é um mantra para a prefeita de Novo Hamburgo

'Tornar a cidade agradável para quem mora' é um mantra para a prefeita de Novo Hamburgo


fotos: MARIANA ALVES/JC
Patrícia Comunello
"Vamos resolver." Quando a arquiteta e urbanista Fátima Daudt diz isso para empresas que enfrentam alguma dificuldade para tocar um projeto, normalmente investimento, pode esperar que a solução tardará um pouco, mas virá. A prefeita de Novo Hamburgo, cidade que é a eterna namoradinha do setor calçadista nacional, foi reeleita para o segundo mandato em 2020.
"Vamos resolver." Quando a arquiteta e urbanista Fátima Daudt diz isso para empresas que enfrentam alguma dificuldade para tocar um projeto, normalmente investimento, pode esperar que a solução tardará um pouco, mas virá. A prefeita de Novo Hamburgo, cidade que é a eterna namoradinha do setor calçadista nacional, foi reeleita para o segundo mandato em 2020.
A tucana combina estratégias de gestão herdadas da atuação no setor privado e alinhamento de pensamento: precisamos criar um ambiente confiável para o empreendedor, resume. Já a porção urbanista da gestora segue um mantra: "tornar a cidade agradável para quem mora". 
Foi com isso que Fátima conquistou o super callcenter do banco Santander, gerando quase 5 mil empregos em meio à pandemia. "Sem nenhum benefício fiscal", completa ela, que tem como marca o tom de voz suave, mas firme, que pode ser um dos segredos para gerir os interesses da coligação com oito siglas, de MDB, PTB e PDT ao Avante.
A arquiteta, mãe de Daniel e Hector, só reage quase sem paciência quando o assunto é a pandemia e o que ela considera o maior problema no Brasil: "a falta de um comando único". Para Fátima, essa é a origem do desgaste da falta de vacina, que estourou no colo dos prefeitos. 
Estreante na cena política em 2016, depois de adiar por 10 anos a decisão, ela foi eleita na primeira disputa e agora vê seu nome circular entre partidos, não só o seu, o PSDB, para a disputa ao Palácio Piratini, já que o colega tucano Eduardo Leite diz que não vai concorrer à reeleição. "Se for necessário, se acontecer, farei o meu melhor possível, mas, no momento, são apenas conversas".
Jornal do Comércio - O Estado terá novo modelo de combate à pandemia, com mais autonomia aos municípios. Qual é a sua opinião sobre dar mais poder às localidades e regiões?
Fátima Daudt - Estava na hora de o governo do Estado perceber que o modelo de distanciamento havia saturado, não gerava mais resultados e precisava passar por mudanças. Mas o sistema foi importante no começo e nos períodos mais difíceis da crise sanitária. Nada está definido ainda. Temos até agora um protocolo de intenções que foi levado às associações dos municípios. É importante esse diálogo antes de passarmos a um novo modelo.   
JC - A senhora compartilha das críticas da Famurs e do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), de que os municípios são sempre os últimos a saber? 
Fátima - O que está acontecendo agora não é isso, pois há a discussão por meio das associações. O que vejo é que no Brasil tudo aconteceu de forma muito errada na condução da pandemia. Tínhamos de ter um comando único, que caberia ao governo federal, e depois passaria aos estados e municípios. Minha crítica é à falta de unidade, e colhemos o preço disso com o número absurdo de mortes de cerca de 420 mil no País, passamos por tanta coisa e ainda vamos passar, porque a pandemia não terminou. Com vários comandos, como é até agora, não conseguimos ter resultados positivos. Considero preocupante quando se fala em passar aos prefeitos, porque continuamos sem um comando único, sensato e que valorize a ciência. Este é o tipo de comando que vimos em outros países. Ao liberar para cada um definir, uma coisa é a pequena localidade, e outra é Novo Hamburgo, que fica na Região Metropolitana. Se cada lugar tiver um modelo, não dará certo. As pessoas circulam de uma cidade para a outra. Não estamos livres de uma quarta onda de Covid-19.   
JC - Qual deve ser o papel do Estado? 
Fátima - Pela proposta, haverá um protocolo mínimo que será editado pelo governo. Haverá, portanto, um comando. O Estado não pode simplesmente lavar as mãos e dizer: agora, o problema é com os municípios. Tenho certeza que o governador não faria isso.  
JC - Como vai ser a conduta na vacinação diante da incerteza sobre o suprimento de doses, como ocorreu com a Coronavac?    
Fátima - Tenho explicado muito à nossa comunidade por meio de lives nas redes sociais sobre o que está acontecendo. Começou com reclamações de que as cidades estavam guardando para a segunda dose (D2), aí o Ministério da Saúde determinou aplicar tudo, mas garantiu a regularidade nas remessas, o que não estamos vendo e que gerou um problemão para quem está na linha de frente, que somos nós. Decidimos, em função disso, reservar as doses, pois não dá para confiar no que diz o ministério. Vamos fazer reserva inclusive dos imunizantes de Oxford. Isso vai reduzir muito a cobertura vacinal. Vamos ter de parar toda a estrutura que virou modelo pela agilidade para fazer uma vacinação mais lenta.
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 'Tínhamos de ter um comando único, que caberia ao governo federal', diz Fátima, sobre as ações na pandemia. Fotos: Mariana Alves/JC                    
JC - Uma pressão maior no governo federal ajudaria?
Fátima - O problema é que nem com pressão tem funcionado. Se não tem regularidade na entrega, pelo menos que o governo faça uma comunicação adequada e precisa, e não de mandar vacinar sem reservar a D2, que foi um desastre. 
JC - O que Novo Hamburgo fez para combater os impactos na economia local?
Fátima - Logo no começo da pandemia, criamos o Novo Hamburgo Pacto pelo Futuro, trabalhando com o Sebrae. Tivemos uma edição e vamos dar início à segunda ampliando a cobertura. Mais de 300 pequenas empresas com mais dificuldades tiveram acesso, o que incluiu crédito, para conseguir atravessar com melhores condições a crise. Mas a economia, devido à política implementada de diversificação desde 2017, tem saldo positivo no Cadastro de Empregados e Desempregados mesmo em 2020. Trouxemos o callcenter do Santander, o Toquefale, abrindo quase 5 mil vagas, e tiveram empresas que cresceram e expandiram mesmo na pandemia. Claro, que houve fechamento de negócios devido à crise. Na área de finanças públicas, teremos o desafio de dar conta da demanda de saúde que vai crescer com as pessoas que não foram atendidas, como em cirurgias eletivas, pois tivemos de priorizar casos do novo coronavírus.
JC - O reforço do financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) passa a ser urgente? 
Fátima - Esse é um tema que já tem de entrar na pauta do ministério, sobre o tamanho do SUS, que mostrou sua relevância. Temos de ver como os recursos e o montante de valores que chegam aos municípios, pois a remuneração já era insuficiente antes da pandemia. Temos de fortalecer o sistema público. 
JC - Quais são os pilares para atrair empresas? 
Fátima - Em primeiro lugar, precisar criar um ambiente confiável para o empreendedor, que ele saiba que vai ser atendido com responsabilidade pelo órgão público, quando precisar. Também tem de assegurar uma infraestrutura adequada. Em 2017, começamos uma requalificação de espaços na cidade, como praças e  parques em bairros. Tenho minha visão como urbanista: você precisa tornar a cidade agradável para quem mora. As empresas que querem vir observam isso: qual é o ambiente para seu empregado. Não houve nenhum benefício fiscal para que o banco instalasse seu serviço.  
JC - Como a senhora compôs o funcionamento da máquina pública para assegurar essa condição?
Fátima - Desde que assumi, adotei um trabalho conjunto das secretarias. Faço uma reunião mensal com todos os titulares para que se discutam os assuntos da administração e se uniformize a informação para evitar retrabalho e para que todos entendam como a máquina funciona. A pasta de Desenvolvimento Econômico faz todo o trabalho de desburocratização, mas é importante que as demais áreas atuem para auxiliar os empreendedores.
JC - O que é foi possível levar do setor privado, que é sua origem, para a "empresa" que atende a 250 mil "clientes" que a senhora administra hoje? 
Fátima - É possível aplicar muito dessa experiência ao setor público, mas nem tudo, pois é diferente. É um erro comum de quem está na área privada achar que se a prefeita tem a caneta "por que ela não muda". Não mudo porque não posso. O prefeito é eleito para cumprir as leis. Para fazer diferente, tem de alterar a legislação, o que é feito na Câmara de Vereadores. O que deixa a máquina mais lenta é este regramento. Mesmo assim, trouxemos práticas comuns nas empresas, como atuar em equipes para dar mais agilidade.
JC - No caso do empreendimento do bairro planejado do Zaffari, que estava travado, funcionou esse trabalho para resolver barreiras?  
Fátima - No projeto do Zaffari, assumi, e montamos um grupo de trabalho na prefeitura, e a empresa o dela. Os dois atuavam em conjunto para remover entraves. Hoje o Zaffari está com quase tudo aprovado para começar as obras do Boulevard Germânia. Foi o mesmo com o Hospital da Unimed, que, desde 2012, tentava aprovar o empreendimento. Estava quase desistindo. Fomos atrás, não podíamos perder o projeto. Também foram montados grupos para dar conta das necessidades. Hoje, o hospital está pronto para ser inaugurado. Mas não para aí. Estamos montando um polo de tecnologia voltado à saúde e vamos inaugurar nosso centro de inovação, que vai trazer soluções do calçado para este setor. Vamos ampliar o Hospital Municipal, com aporte de R$ 20 milhões, que agora é hospital-escola da Feevale, e teremos o novo Hospital da DoctorClin e ampliação do Hospital Regina.     
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Em seu gabinete, a prefeita mantém a imagem de Nossa Senhora de Fátima, santa da qual é devota 
JC - O que a arquiteta e urbanista ainda quer fazer para sua cidade?
Fátima - O grande desafio é ter uma cidade construída e planejada para o futuro. Com um detalhe importante: que o cidadão hamburguense tenha a sensação de pertencimento. Tudo tem de ser feito para que as pessoas usem a cidade. Isso significa cuidar da zeladoria e ocupar praças e parques. Na área de moradia, estamos fazendo a reurbanização em áreas que não são de risco e onde as pessoas estão há muito tempo e não querem sair. A ideia é melhorar a condição de vida.  
JC -  Com o novo Marco do Saneamento, qual é o plano para a companhia municipal de Serviços de Água e Esgoto de Novo Hamburgo (Comusa)?
Fátima - Em 2017, a cidade tinha pouco mais de 7% de esgotamento sanitário. Fizemos uma força tarefa e vamos chegar a 50% de cobertura em 2022. Mas o marco prevê que tenhamos 90% até 2033. Já fizemos estudos para definir neste semestre se vamos entrar em uma parceria público-privada (PPP), por exemplo, para cumprir a meta em esgoto. Já a água, sempre digo, como urbanista, é um bem público preciosíssimo. Enquanto for prefeita, a água em Novo Hamburgo não será privatizada.
JC - A gestão tem uma coligação bem ampla, com PSDB, MDB, PDT, PTB, PSB, PSD, Cidadania e Avante, como a senhora conduz? 
Fátima - Faz parte na gestão pública, precisa ser um ente político, mas não é fácil, pois são várias visões. Desta vez, temos siglas maiores, diferentemente da primeira gestão. Eu gosto de dialogar com quem quer dialogar, é claro. Sempre abro reuniões de secretariado dizendo: "vocês têm autonomia, mas autonomia não é soberania". Qualquer ação com repercussão maior na sociedade, preciso ser consultada. Essa conversa de perto é importante, pois o olho da prefeita não chega a tudo. Quando se identifica algum problema, o servidor é exonerado ou vai para uma sindicância. A indicação pelos partidos para cargos não é errado. Vemos também isso no setor privado. O errado é colocar uma pessoa que não está capacitada para aquele trabalho.     
JC - Qual é o futuro político da Fátima Daudt?
Fátima - Recebi meu primeiro convite para entrar em um partido em 2006 e não aceitei. Só fui me filiar em 2 de abril de 2016 ao PSDB. Meu nome foi lançado para prefeita em agosto daquele ano e, em outubro, venci a eleição. Para quem ficou 10 anos amadurecendo a ideia de filiação, cheguei com uma ideia bem madura do trabalho que gostaria de fazer, o da boa política, não da nova e nem da velha. Qual é o meu projeto de vida? Continuar trabalhando muito, trazendo resultados positivos.
JC - Seu nome vem sendo cogitado para disputar o Piratini em 2022, já que o seu colega tucano diz que não vai à reeleição... 
Fátima - (risos) Há muitas conversas de bastidores e já recebi pessoas de outros partidos. É um momento em que todos estão falando sobre isso, mas minha cabeça está em Novo Hamburgo. Quando o meu partido começar a abordar este tema, aí sim, posso falar mais.     
JC - A senhora termina o segundo mandato?
Fátima - A minha intenção é estar prefeita e terminar o mandato. 
JC - A senhora se imagina disputando o governo estadual?
Fátima - Sempre gostei muito de desafios. Quero sempre, em qualquer coisa que entro, sair maior do que entrei. É uma filosofia de vida. Se acontecer, farei o meu melhor possível, mas, no momento, são apenas conversas.

Perfil

Fátima Cristina Caxinhas Daudt nasceu em 8 de outubro de 1966, tem 54 anos e é mãe de Daniel, 33 anos, com formação em Administração e Marketing, e Hector, 23 anos, estudante de Engenharia Mecânica. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Unisinos, é pós-graduada em Gestão Estratégica de Cidades. Antes de entrar na vida política eleitoral, na disputa de 2016, quando se filiou ao PSDB, Fátima foi empresária, professora e integrou os conselhos de entidades como Fecomércio e Federasul. Foi a primeira mulher eleita para a presidência da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, que soma mais de 1,2 mil empresas associadas. O pioneirismo se repetiu em 2017 ao ser a primeira prefeita a assumir a gestão de Novo Hamburgo. Na disputa de 2020, a coligação Unidos por Novo Hamburgo, com 51.467 votos, mais de 45% dos votos válidos, garantiu a reeleição de Fátima na cidade do Vale do Sinos.

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