A Companhia Carris Porto Alegrense, empresa pública de 148 anos fundada por Dom Pedro II, pode estar muito perto de mudar de dono. A decisão de privatizar a Carris foi tomada em meados de março pelo prefeito Sebastião Melo. "Quero dizer que vamos privatizar a Carris, não tem outro jeito, estamos fazendo os trâmites para isso" disse, em evento promovido pela Federasul.
O próximo passo para a privatização já tem prazo: até dia 20 de maio deve ser enviado o projeto à Câmara de Vereadores, informa Melo. Depois vêm as fases de articulação e debate político. "Vamos nos reunir com a oposição e com os líderes de governo para apresentar a necessidade da medida".
Embora seja responsável por 22% das viagens de ônibus, a Carris é cerca de 40% mais cara do que os outros três consórcios que operam na Capital. Há cerca de nove anos, quando a Carris começou a registrar déficit, a prefeitura faz sistemáticos aportes na empresa para cobrir parte do prejuízo. Os demais consórcios receberam o primeiro repasse neste ano. Um dos motivos que fazem a Carris mais onerosa, segundo Melo, é o processo de compra, que é feito por licitação diferente dos outros operadores. "Na compra privada é possível pechinchar. Na pública, a comprar é pelo edital."
A questão trabalhista também impacta. A Companhia tem um passivo trabalhista que gira em torno de R$ 19 milhões. Além disso, fraudes contratuais voltadas a pagamentos de indenizações eclodiram na mídia em 2017, o que afetou ainda mais a imagem da empresa. Segundo antigos gestores de transporte na Capital, a Carris cultivou durante muito tempo uma postura de cabide de empregos e celeiro de cargos comissionados (CCs), o que contribui para o inchamento de suas despesas extras (fora do custo de operação).
Mas nem sempre foi assim. A Companhia começou a fechar o ano no vermelho somente em 2011. Antes disso, a Carris não só deu lucro, como também foi eleita a melhor empresa de transporte do Brasil, em 1999 e 2001, pela Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP).
Durante muito tempo ela faz parte do imaginário do porto-alegrense como balizadora da qualidade do transporte na Capital. Enquanto os demais consórcios reduziram a frota em circulação durante a pandemia, a Carris manteve a operação sem poder gozar de acordos de redução de jornada com as operadoras privadas.
A Companhia pública fechou 2020 com déficit de mais R$ 40 milhões e queda de 70% na receita desde que foram deflagradas as medidas para evitar a disseminação do novo coronavírus. Mesmo assim, o projeto de privatização deve encontrar resistência da oposição.