Valny Giacomelli Sobrinho
Tradução brasileira de Summer of '42, "Houve uma vez um verão", filme de 1970, narra a história de um adolescente que, em férias nas praias da ilha de Nantucket, Massachusetts, nos Estados Unidos, vive uma ilusão romântica com uma mulher recém-casada, mais velha, cujo marido havia sido convocado para lutar na 2ª Guerra Mundial. Enlutada, a mulher muda-se de repente, sem aviso. Ao adolescente resta a lembrança eterna daquele envolvimento efêmero.
Traços de adolescência insinuam-se nos argumentos que justificam o controvertido horário de verão. Embora tecnicamente inadequado nos trópicos e comprovadamente danoso à saúde cardíaca, psíquica e alimentar, prevalece a ênfase hedonista na maior frequência a praias, bares e restaurantes que o prolongamento artificial da luz do dia proporcionaria.
Proposta por Benjamin Franklin, em 1784, a medida destinava-se a aproveitar as diferenças de luminosidade entre as estações do ano, típicas das altas latitudes, próximas dos polos da Terra, onde, por causa da curvatura mais acentuada do globo, a incidência da luz solar sofre deflexão. Geograficamente, porém, nos trópicos, as estações são mal definidas, justamente porque a curvatura do globo aí é menos pronunciada.
Econômica e energeticamente, o horário de verão apresenta, se tanto, eficácia marginal. Primeiro, porque, há décadas, o pico e a sobrecarga de energia se deslocaram da iluminação, no início da noite, para a refrigeração, nas primeiras horas da tarde, quando as temperaturas, em verões sempre mais intensos, são mais elevadas.
Tecnologicamente, a substituição gradual de lâmpadas incandescentes por outras mais econômicas aliviou consideravelmente o gasto de energia com iluminação pública e residencial. Da mesma forma, eletrodomésticos e eletrônicos ficaram mais eficientes energeticamente.
De resto, economia de energia deve ser perseguida o ano todo; não só no verão. Um estudo (The tropical twilight of daylight-saving time: Enlightening energy savings from electricity markets across Brazilian regions) publicado no periódico Energy for Sustainable Development (v. 67, p. 81-92, 2022) revela que se poderia triplicar a economia de custos e de consumo de energia.
Em vez de medidas coercitivas como o horário de verão, uma política energética com incentivos financeiros, adotada voluntariamente o ano todo por todas as regiões brasileiras, seria, sem a desilusão do verão de 42, a forma mais barata (eficiente) de conservar energia.
Economista ambiental