Ao todo, o Rio Grande do Sul comporta 2,4 mil indústrias de móveis. Delas, cerca de 300 ficam localizadas no polo moveleiro de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, que também inclui as cidades de Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza. Conforme uma estimativa da Secretaria da Fazenda, entretanto, em 2025, houve uma estagnação nesse conglomerado: corrigindo pela inflação, o aumento no faturamento real das empresas do setor na região foi de apenas 0,93%.
O polo moveleiro resiste, mas com baixas. Afinal, os Estados Unidos representavam o maior mercado internacional do setor. E, com as tarifas de 40% aplicadas por Donald Trump sobre os móveis brasileiros, a competitividade foi afetada.
O impacto na Serra foi maior do que no Estado, conforme explica o vice-presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Rio Grande do Sul (Movergs), Basilio Vivan. “O setor no RS teve um crescimento nominal de 6,48%, e um crescimento real de 2,22%. As exportações caíram 3,3%, apenas. Se considerarmos o polo de Bento, caiu um pouco mais, com um valor de 7%. Agora, ao olharmos para os Estados Unidos, retraiu 34% nas exportações”, explica. As perdas foram, em parte, mitigadas pelo aumento nas importações por mercados latino-americanos.
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Mas, ao colocar na balança, a conta não fecha. E as empresas começaram a tomar atitudes drásticas: redução das linhas de produção, paralisações e redução do quadro funcional foram algumas delas. Não é à toa que houve uma retração de 2,27% no número de trabalhadores no polo moveleiro de Bento Gonçalves ao final de 2025 em relação ao mesmo período de 2024.
Por isso, para Vivan, 2025 foi o ano da resiliência. E 2026 deve ser o de colocar a casa em ordem. Afinal, as tarifas reduziram quase à normalidade. “É o momento de buscar eficiência. Temos muita escassez de mão de obra e o custo está muito alto. Mas vemos os fabricantes fazendo a lição de casa e se organizando, investindo em automação e melhoria dos processos. É um ano de retomada, para se equilibrar. Não tem perspectiva de crescimento, mas de buscar estabilidade e trabalhar para melhorar a eficiência, a competitividade e o controle de custos”, avalia.
Empresas tiveram compras canceladas após sobretaxas
Em Bento Gonçalves, a Móveis Delucci realizou, ao longo dos últimos anos, uma intensificação nas relações com os Estados Unidos para a exportação dos produtos. Com foco em mobiliário corporativo, a empresa conquistou um importante mercado, incluindo uma rede de churrascarias brasileira presente no país. Quando Donald Trump iniciou as sanções econômicas, cerca de 20% do faturamento da indústria vinha das exportações aos EUA.
“No início do ano passado, em três meses, chegamos a exportar oito contêineres para lá. Estávamos indo super bem. Com o advento do tarifaço, simplesmente tivemos todos os pedidos cancelados. Foi um choque. Tudo parou”, conta a CEO da Delucci, Cíntia Weirich.
Com a redução das tarifas ao patamar atual, foi possível retomar a competitividade. Mas voltar a conquistar o mercado consumidor é uma atividade morosa.
“Começamos a ter alguns pedidos. Agora, em abril, embarcamos dois contêineres. Mas, quando sobe a tarifa, o custo aumenta consideravelmente e a parada é abrupta. Já quando baixa a tarifa, a retomada é mais cautelosa, porque os clientes já foram atrás de outros fornecedores no período em que não compraram da gente. Tem que renegociar contratos e ter a certeza de que essa queda das tarifas é estável, que elas não voltem a ocorrer novamente”, explica Cíntia.
No caso da Delucci, a perda das compras no exterior foi mitigada, em partes, por um redirecionamento de produtos ao mercado interno. Entretanto, em 2026, a expectativa da empresária é que reduza a demanda dos clientes brasileiros devido a um contexto macroeconômico marcado pela gradativa implementação da reforma tributária, pelo período eleitoral e pela Copa do Mundo.
A Multimóveis, também em Bento Gonçalves, por sua vez, foi impactada de outra forma: pelas exportações a Porto Rico. “Eles têm a mesma legislação que a dos Estados Unidos. E exportamos bastante coisa para lá. Representa praticamente 6% do nosso faturamento de exportação. Com a redução das taxas, voltaram a comprar de nós porque a logística de importar do Brasil é mais fácil para eles”, relatou o empresário Euclides Longhi.
Acordo Mercosul-UE traz perspectiva de abertura de novos mercados
A partir do dia 1º de maio, o acordo comercial entre os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e da União Europeia começará a ser aplicado provisoriamente. Assim, os blocos econômicos terão benefícios recíprocos implementados gradativamente nas transações internacionais.
Com ele, o setor moveleiro espera conquistar competitividade frente às indústrias europeias, com menores tarifas para o comércio exterior. Entretanto, ainda é necessário compreender como isso funcionará na prática.
“Com certeza vai gerar um impacto positivo, mas a médio e longo prazos. Vai depender de uma série de fatores, como a questão cambial do futuro e com o trabalho das empresas nesses mercados. Nesse momento, tem, ainda, toda uma instabilidade em função das guerras”, avalia o vice-presidente da Movergs.