Se o mercado europeu se apresenta, com o avanço do novo acordo comercial entre Mercosul e UE, como uma oportunidade aos produtos industriais da Serra, onde está o maior pólo metalmecânico do Rio Grande do Sul, o setor também vê nesta abertura uma oportunidade de modernizar a sua produção com ganhos de competitividade.
"Especialmente no segmento de maquinário e ferramentaria, abre-se uma possibilidade de ganhos em uma via dupla, tanto para a abertura de mercados para produtos que saem prontos daqui, quanto para a modernização dos nossos parques industriais", aponta o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs), Paulo Joel Scopel.
A estimativa é de que, mesmo sendo a principal concentração industrial do setor no Rio Grande do Sul, a região tenha seus parques industriais com média de 28 anos no tempo de uso do maquinário. A Europa é origem de equipamentos de referência tecnológica para segmentos como fabricação de máquinas agrícolas, domésticas e de transformação de bens.
"Hoje, além do custo, com uma máquina de 100 mil euros chegando aqui a 150 mil euros, na produção, perdemos em velocidade em relação a concorrentes de outros lugares, por exemplo, e que têm acesso a maquinário mais moderno e com cargas tributárias reduzidas. Boa parte da modernização dos parques industriais tem origem asiática, que tem evoluído muito, mas as europeias, especialmente em usinagem, são de ponta", explica Scopel.
A partir das primeiras informações sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia, a perspectiva do Simecs é de que haja uma redução de pelo menos 20% no custo de máquinas e equipamentos, que poderão refletir em até 25% de ganhos finais na produção.
Ainda sem este novo cenário, hoje a produção metalmecânica é responsável pelos maiores volumes de exportações de cinco dos dez principais municípios exportadores da macrorregião Serra. Em Caxias do Sul – 8º maior município exportador do Estado em 2025 –, houve crescimento de 20,3% nas vendas ao Exterior em relação a 2024, com 51,8% das exportações entre carrocerias, reboques e peças para veículos. Em Montenegro, no Vale do Caí – 13º exportador do RS –, 55,1% das exportações foram de tratores e automóveis, enquanto em Farroupilha e Carlos Barbosa, com atuação predominante da Tramontina, as exportações de artefatos domésticos e ferramentas são as principais.
A Tramontina foi uma das empresas afetadas em suas exportações em 2025 pelo tarifaço dos Estados Unidos. Em Carlos Barbosa, 22% das vendas ao exterior foram para os norte-americanos. Agora, a empresa vive a expectativa de que o futuro acordo comercial UE-Mercosul dê maior competitividade aos seus produtos na Europa, especialmente facas, talheres, panelas, frigideiras e porcelanas. Facas e porcelanas, por exemplo, hoje têm a maior carga de impostos na Europa dentro do mix de produtos da empresa.
"Caso as expectativas positivas se confirmem, a demanda pelas linhas de produtos que já se destacam na Europa deve aumentar. Estamos falando de facas domésticas e profissionais, frigideiras e panelas de alumínio e aço inox, talheres em geral, utensílios de cozinha e lixeiras em aço inox. Temos hoje presença em todo continente europeu, com cinco unidades próprias na Espanha, França, Alemanha, Letônia e Reino Unido. Claro que este também será um desafio pela entrada mais facilitada de produtos no mercado brasileiro, então, será ainda mais essencial nos mantermos atualizados com as expectativas do mercado, tendências de consumo e planejamento", avalia o diretor de mercado externo da Tramontina, Jandir Brock.
Neste ano, a empresa iniciou a construção da sua planta de produção de hidrogênio verde, com aporte estimado em R$ 43 milhões, junto à unidade de cutelaria, em Carlos Barbosa. A iniciativa coloca a indústria da Serra na vanguarda no setor em relação à produção mais limpa. A unidade poderá chegar a até 500 quilos de hidrogênio verde produzido de alta pureza. O gás será aplicado, inicialmente, na logística interna da divisão de Starflon, alimentando empilhadeiras e veículos industriais com combustível limpo.