Mesmo com o segundo maior PIB do Rio Grande do Sul e no centro do maior polo metalmecânico do Estado, Caxias do Sul e a Serra Gaúcha vivem, nos últimos anos, o desafio da perda de competitividade, em boa parte, como consequência dos problemas logísticos da região. No segmento de ferramentaria, que já teve a cidade como o principal centro produtor do País, a principal concorrência está na região de Joinville, em Santa Catarina. E o comparativo para receber matérias-primas e escoar a produção é preocupante.
"Somente em relação àquela região catarinense, hoje estamos enfrentando uma perda de 30% em poder competitivo. Não bastasse a maior proximidade com São Paulo, todos os ramais logísticos deles, hoje, têm vantagem em relação à Serra. Enquanto não tivermos estradas adequadas, vamos continuar com dificuldades para chegar ao centro do país e às exportações", explica Paulo Joel Scopel, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs).
Scopel é CEO da Inova Indústria de Matrizes, que atua no segmento de ferramentaria, e exemplifica o tamanho do gargalo para a indústria da região: "Toda a BR-101 tem pista dupla, por exemplo, mas na Rota do Sol (RSC-453/ERS-486), que é a nossa principal ligação com essa faixa litorânea, não tem pista duplicada. Se fosse, o custo do transporte seria muito mais econômico e ágil. E temos ainda a dificuldade do caminho até Porto Alegre, também com boa parte do trajeto não duplicado".
De acordo com o diretor-presidente da concessionária Caminhos da Serra Gaúcha (CSG), Ricardo Peres, o fluxo entre as rodovias do eixo da Serra e Vale do Caí não tem acompanhado o ritmo do PIB da região, registrando em 2025 movimentação estável e com leve redução. Foram 5 milhões de veículos comerciais cruzando os pontos de free flow no bloco de rodovias, uma média 416,6 mil cruzando todos os postos por mês (considera medidas dos 6 pontos, em alguns casos, o mesmo veículo cruza mais de um deles), representando uma queda de 10% em relação à média mensal de 2024. Em 2025, os veículos comerciais representaram 26,5% do fluxo, em 2024, era 27,7% neste pólo rodoviário.
A tendência é de que, sem novas soluções rodoviárias, o problema para escoar cargas seja agravado a partir do momento em que, finalmente, o Aeroporto de Vila Oliva terá as suas obras iniciadas e o Porto do Meridional, em Arroio do Sal, também avança em seu projeto. Neste ano, o Governo do Estado investe, por meio do Funrigs, R$ 390 milhões na recuperação da atual estrutura da Rota do Sol. O primeiro trecho, entre Tainhas e Terra de Areia, teve ordem de início assinada em janeiro, com aporte de R$ 134 milhões.
Apesar de melhorar a infraestrutura, o investimento não representará mudanças logísticas no principal eixo rodoviário entre o polo industrial da Serra, o futuro aeroporto e o futuro porto. Paralelamente, no ano passado o Centro das Indústrias de Caxias do Sul (CIC Caxias) levou adiante a proposta de custear e doar ao Estado um estudo estimado em R$ 5 milhões para uma modelagem de concessão da Rota do Sol e possível projeto para duplicação da estrada.
"A Rota do Sol é uma artéria de cargas, e isso vai se ampliar com o porto e o aeroporto. Não é mais uma rodovia de passeio, mas de transporte logístico, e precisamos estar atentos a isso", diz o presidente do CIC Caxias, Celestino Loro.
Enquanto não há um denominador comum entre a concessionária CSG e o Governo do Estado em relação ao reequilíbrio econômico da concessão após os custos com a recuperação de rodovias durante a cheia de 2024, o plano de duplicação das estradas no polo que envolve estradas da Serra e Vale do Caí avança, mas em marcha bem mais lenta do que o inicialmente planejado.
Nos próximos meses deve ser concluída a ponte duplicada sobre o Arroio Tega, em Caxias do Sul, primeiro trecho do contorno norte da cidade a ser duplicado na ERS-122
A concessionária investe R$ 250 milhões em obras de duplicação este ano, que incluem ainda o início das obras de duplicação de 18 quilômetros entre Farroupilha e Bento Gonçalves, na RSC-453. Até o fim de 2026, o plano da CSG é chegar a 40% da obra executada. A CSG é responsável pela administração de 271 quilômetros em trechos das ERSs 122, 240 e 446, das RSCs 287 e 453 e da BRS-470.
Se os
aeroportos e o Porto Meridional tornam-se eixos de multimodalidade logística na região, os planos futuros incluem ainda o modal ferroviário. Com a proximidade do
fim da concessão das ferrovias no País, e com o
plano federal para renovação da malha, volta à tona a importância de um terminal rodoferroviário em Vacaria, e que teria, por exemplo, a RS-484 como um eixo entre o Aeroporto de Vila Oliva e a Rota do Sol, tendo este terminal no caminho, nos Campos de Cima da Serra.
Desde a cheia de 2024, estão desativados os trilhos da região, que tinham ligação com o principal e único ramal ativo da malha ferroviária gaúcha, que liga o Centro do Estado ao Porto de Rio Grande. Além, claro, de ligar a região aos demais estados do Brasil. O projeto, que seria custeado pela iniciativa privada, já tem área definida desde 2021, às margens da BR-116, no caminho para Lages, em Vacaria.
O terminal multimodal, à primeira vista, é apontado como alternativa de ligação até São Paulo para o escoamento das safras da região, como da maçã, mas também desperta o interesse do polo industrial metalmecânico da Serra. A região está entre as principais compradoras de metais vindos da região Sudeste. O uso da ferrovia para integrar às rodovias da região representaria uma importante redução de custos com matéria-prima e logística.