Câmara municipal, enfermaria para feridos na Guerra do Paraguai, cadeia e tribunal do júri. Essas foram algumas das atribuições do prédio localizado no número 364 da rua Quinze de Novembro, no Centro de Cachoeira do Sul, e que, há oito anos, abriga o Museu Municipal Edyr Lima, dedicado à bicentenária história do município.
“O nome de Edyr Lima foi escolhido para nomear o museu porque ele foi o idealizador”, conta a diretora da instituição, a pedagoga Aimara Carlos da Silva. Ainda hoje, ao lado da exposição temporária, objetos do fundador estão expostos junto às doações realizadas por ele. Inicialmente, o acervo era composto por objetos pessoais de época.
Exposição trata da imigração e formação da cidade; ao lado, antiga sala do intendente municipal, que atualmente abriga o gabinete do prefeito
Ana Stobbe/Especial/JC
Com o tempo, foi sendo aperfeiçoado. Atualmente, conta toda a trajetória — oficialmente — bicentenária do município. Mais do que isso, preserva a trajetória econômica da Região Central do Estado, da agropecuária à logística em um local que há algumas décadas contava com ferrovia e hidrovia.
Uma cidade de múltiplas etnias
A fundação da cidade está ligada à criação de gado por soldados portugueses que receberam sesmarias na região na década de 1750. Na mesma época, casais açorianos que imigraram ao Rio Grande do Sul sob incentivo do governo português se estabeleceram ao longo do Rio Jacuí, se dedicando à agropecuária. Inicialmente, Cachoeira do Sul pertencia a Rio Pardo — uma das quatro primeiras cidades do Estado, ao lado de Rio Grande, Viamão/Porto Alegre e Santo Antônio da Patrulha.
A região também foi de influência indígena, especialmente a partir de 1769, quando foi criado um aldeamento Mbyá-Guarani no Passo do Fandango, existente até a atualidade. No museu, artefatos arqueológicos como boleadeiras e fragmentos de cerâmica registram sua presença.
Em 1780, aliás, os indígenas representavam 57,9% da população de Cachoeira do Sul, conforme dados censitários da época — e que poderiam ter englobado regiões próximas à cidade, incluindo aldeamentos jesuítas. É essa uma das hipóteses que sustentam a queda drástica no percentual do recenseamento de 1810, que pode ter adotado outros critérios.
Aimara Carlos da Silva é a atual diretora do Museu Municipal Edyr Lima
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Fato é que os indígenas fizeram parte do núcleo fundamental do município, como bem descreveu o cronista viajante europeu August Saint-Hilaire ao conhecer Cachoeira do Sul: “Entre a vila e o rio, sobre declive da colina, as miseráveis palhoças separadas umas das outras, cuja reunião toma o nome de Aldeia. Estas choupanas são habitadas por índios, que vieram da Aldeia de São Nicolau, vizinha a Rio Pardo, para lançar fundações desta vila e que aqui permaneceram após concluída sua empreitada”, escreveu entre 1820 e 1821, quando percorreu o Estado.
A população negra também se fez presente. Afinal, escravizados foram levados junto aos soldados portugueses que primeiro ocuparam as terras. Embora, muitas vezes excluídos da história oficial, seus registros estão presentes em inventários.
Uma análise de 213 desses documentos produzidos entre 1845 e 1865, conduzida pela historiadora Rosicler Fagundes, demonstrou que em 84% deles estavam arrolados pelo menos um escravizado. Estudos recentes afirmam que a escravidão na região era comum, mas com cada um dos proprietários de terras possuindo poucos escravizados, diferentemente da região das charqueadas, em Pelotas e Rio Grande, onde os estancieiros possuíam um vasto contingente.
Local abrigou tribunal do júri antes de se tornar um museu
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Eram os negros escravizados, africanos ou não, que compunham a mão de obra que girava a economia do período. Grilhões, algemas, tornozeleiras e outros artefatos expostos no museu relembram a violência à qual essa população foi submetida em um passado não muito distante — embora tenha, de fato, construído estratégias de resistência. No presente, o Quilombo Cambará, recentemente reconhecido pela Fundação Palmares, representa essa luta no município.
Posteriormente, mãos italianas e alemãs chegaram para viver e trabalhar na região. Sua atuação está voltada ao comércio e à formação da indústria em Cachoeira do Sul. É fruto dessa colonização, inclusive, o item comprovadamente mais antigo do acervo do museu: uma Bíblia escrita em alemão gótico impressa na Alemanha durante a década de 1750 e levada à cidade no século XIX pela família Brink.
A consolidação do arroz
Desde os primeiros habitantes, Cachoeira do Sul se consolidou como uma região voltada à agropecuária. Em 1820, quando foi elevada à categoria de vila, os açorianos já cultivavam o arroz como meio de subsistência. Com os alemães, desenvolveu-se um cultivo comercial buscando abastecer o mercado na Capital, Porto Alegre. No início do último quartel do século XIX — em meados de 1875 — a extinta Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul estimou que havia 16 engenhos de beneficiamento de arroz em regiões de colônias alemãs no Estado.
No século XX essa atividade se consolidaria, a transformando em um dos principais centros de rizicultura do Estado, junto à região de Pelotas. Foi em 1912 que iniciou um processo maior de industrialização, com a implementação de engenhos de beneficiamento de arroz de maior porte. E, desde então, a economia regional passou a crescer. Incluindo a produção de gado, diretamente relacionada ao acúmulo do capital gerado pela comercialização do grão.
Exposição temporária relembra a história da Fenarroz, iniciada em 1941
Ana Stobbe/Especial/JC
A cultura se consolidou e a cidade tornou-se conhecida como polo de rizicultura. Tanto é que em 1941 foi realizada a primeira Festa Nacional do Arroz (Fenarroz), que acontece até a atualidade. Naquele ano, assim que os festejos foram encerrados, ocorreu uma grande enchente em todo o Estado — que apenas foi superada pelas trágicas cheias de maio de 2024.
“Se falava, na época, que as pessoas esbanjaram demais na primeira Fenarroz e que, por isso, teria acontecido a enchente. Por isso, um dos jornais diz na manchete que a edição teve alegria e tragédia”, conta a diretora do museu. A história está registrada em uma exposição temporária por meio de recortes de jornais, fotos e artefatos relacionados às primeiras edições do tradicional evento.
Um polo logístico do passado
Situada às margens do rio Jacuí e no Centro do Estado, Cachoeira do Sul já representou um importante polo logístico do Rio Grande do Sul. Embora, na atualidade, a dependência de um sistema rodoviário problemático seja um dos principais entraves ao desenvolvimento econômico regional conforme as lideranças regionais que participaram do evento do Mapa Econômico do RS na cidade, realizado no dia 15 de abril.
A navegabilidade do rio Jacuí tem um importante registro histórico: foi sobre as suas águas que um navio levou Dom Pedro II a cruzar o Estado na sua segunda visita ao Rio Grande do Sul, durante a Guerra do Paraguai. Na primeira vinda ao território gaúcho, logo após a província pegar em armas na Revolução Farroupilha, o imperador também passou pela cidade — e uma lenda também está relacionada à travessia de um rio, mas não o Jacuí.
“Foi criado um mito aqui na cidade de que a Ponte de Pedra, construída em 1848, sobre o rio Botucaraí, teria sido feita para a passagem do imperador. Mas ele veio em 1846, quando ainda não existia essa estrutura”, conta Aimara.
A navegação constitui um módulo expositivo no museu, com fotos de diferentes épocas e uma garateia — pequena âncora usada em embarcações de pesca. Mas o fato é que tradicionalmente o Porto de Cachoeira do Sul, último local navegável do Jacuí, serviu como importante entreposto comercial, conectando o centro do Estado ao seu delta, na Região Metropolitana de Porto Alegre e, daí, rumando ao Porto do Rio Grande — o único de acesso marítimo no Rio Grande do Sul. É possível, pela hidrovia, acessar, ainda, os rios Taquari e dos Sinos.
Inédita à época e de engenharia francesa, Ponte do Fandango, que passa por reforma, é ainda hoje um dos principais acessos à cidade
TÂNIA MEINERZ/JC
O início da navegação no Jacuí é marcado pela ponte e barragem do Fandango, de engenharia francesa, e a segunda maior em extensão nesse modelo em todo o mundo, a primeira a ser construída agrupando ambas as funções na América do Sul. A estrutura é hoje uma das principais vias de acesso ao município, tendo passado por revitalizações em 1976, 2018 e 2023. Atualmente, passa por uma reforma para sua elevação após ser atingida pela cheia do Jacuí em 2024 e passar por interdição em 2025. Durante as obras, a população depende de uma balsa cuja espera para travessia pode durar até quatro horas.
Em 7 de março de 1883, os cachoeirenses ouviram pela primeira vez o apito do trem que marcou a história do município. “Uma estação de saudades”, destaca o módulo expositivo do museu dedicado ao tema. A malha ferroviária ligava Uruguaiana a Porto Alegre e transformou a cidade ao facilitar o escoamento da produção e transportar passageiros a outras regiões do Estado.
Estação ferroviária foi inaugurada em 1883 e transformou a cidade
Museu Municipal Edyr Lima/Divulgação/JC
“No coração do Rio Grande, a trezentos quilômetros do litoral, a paisagem se movimenta de súbito, e uma voz clara, que parece vir do céu, acorda os passageiros, como se lhe pedisse, alvíssaras: Cachoeira!. O trem para e uma grande surpresa nos entra, festivamente, pela alma. Cachoeira é uma cidade em flor. Nasceu ontem e já toda a gente a acha bonita! É alegre como um salão de baile e acolhedora como um jardim”, escreveu o jornalista e escritor Berilo Neves ao realizar a viagem férrea em 1932 durante visita ao Estado.
Em 1975, entretanto, a estação foi desativada, com uma nova sendo construída distante da cidade, mudando os traçados da ferrovia. E os sonhos de vapor se dissiparam na sequência. Em 1996, foi extinto o transporte de passageiros. Já o de cargas seguiu, mas, com o tempo, os trilhos começaram a ser abandonados e, hoje, estão inoperantes.
Atualmente, os trilhos, que passam próximos ao novo distrito industrial de Cachoeira do Sul, se encontram abandonados
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Nos ares, um aeroclube foi fundado em 1941 e começou a se dedicar à formação de pilotos, criando sua primeira turma já em 1943. Posteriormente, tornou-se um aeroporto, nomeado em homenagem ao Ministro da Aeronáutica do governo Getúlio Vargas e patrono da aviação de caça do Brasil, Nero Moura, que era cachoeirense.
Imagem do hangar do aeroclube em 1985
Fototeca Museu Municipal Edyr Lima/Divulgação/JC
Aeroporto conta com cerca de mil metros de pista asfaltada atualmente, podendo receber aeronaves de pequeno e médio porte
TÂNIA MEINERZ/JC
O local ainda hoje é utilizado, com uma escola para formação de pilotos agrícolas, um aeródromo e empresas agrícolas voltadas à aplicação de defensivos nas lavouras da região. Com cerca de mil metros de pista asfaltada, a estrutura está habilitada para receber aviões de pequeno e médio porte.