Uma das áreas mais dinâmicas do Rio Grande do Sul, a Macrorregião da Serra, tem se desenvolvido intensamente. Concentrando 17,20% do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, essa área do Estado também tem atraído população. E a combinação desses fatores, aliada a uma alta produtividade, transforma essa porção do RS na área com o maior PIB per capita do Estado.
Composta pelas Regiões da Serra, Hortênsias, Campos de Cima da Serra, Paranhana e Encosta da Serra e Vale do Caí, a macrorregião se fortalece com base no forte polo metalmecânico e em atividades de alto valor agregado. É com base nisso que se constrói o indicador.
"A Serra engloba aquela região de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Farroupilha e Carlos Barbosa, municípios que têm indústrias muito fortes, como a metalmecânica e a moveleira. São empregos que geram uma produtividade maior e, consequentemente, uma produção e renda maiores. É uma área que tem atraído população exatamente pela oferta de trabalho", explica o economista e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE-RS), Martinho Lazzari.
Ao analisar os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), classificação utilizada pelo governo estadual gaúcho e que divide o território gaúcho em 28 microrregiões, é perceptível a pujança justamente na região onde está a conurbação entre as cidades citadas pelo pesquisador. Afinal, a Serra é a segunda no ranking do PIB per capita seguindo essa divisão, atrás apenas do Alto Jacuí, na Região Norte do Estado.
Mas não é apenas a Serra que tem apresentado bom desempenho ao dividir o seu PIB pela sua população. "Ao olhar as regiões, é possível traçar uma linha e dividir o Estado, saindo da região de Santa Rosa e chegando na Metropolitana. E essa parte de cima do território é a área mais desenvolvida em termos econômicos e, de certa maneira, sociais também. Por outro lado, as porções Sul, Central e Noroeste do Rio Grande do Sul têm indicadores menores", analisa Lazzari.
Diversos fatores explicam as diferenças entre as macrorregiões gaúchas em termos de PIB per capita, conforme o economista: "Se pegar a agropecuária, a região de Passo Fundo, Cruz Alta e Erechim planta soja, milho e trigo, que são altamente produtivos. Os melhores indicadores também estão em áreas mais industriais do Estado, como Região Metropolitana, Serra, Vale do Taquari, e a porção Norte. E alguns municípios contam com serviços especializados, de maior valor agregado", exemplifica.
Economista do Departamento de Economia e Estatística (DEE-RS), Martinho Lazzari analisa diferenças regionais
TÂNIA MEINERZ/JC
Na equação, é fácil compreender. Crescem as áreas com alta produtividade agrícola e industrial — no caso do Rio Grande do Sul, muitas vezes, como parte de uma mesma cadeia, onde as indústrias estão associadas ao setor primário —, assim como as que se consolidam como polos de oferta de serviços especializados.
Na prática, é difícil vislumbrar um redesenho dessa configuração dos maiores e menores PIBs per capita do Estado, conforme o pesquisador. "Olhando como era a distribuição em 2002, que é o primeiro ano da série histórica, praticamente não mudou. Um ou outro Corede teve mudança de posição. Nesses mais de 20 anos, tivemos a entrada da soja para outras regiões, secas, inundações. A economia não cresceu muito, e fica difícil alguma região crescer acima da média. Se olhar no longo prazo, as diferenças estão meio cristalizadas. Dificilmente você vê algum Corede avançar. Eles evoluem de maneiras diferentes, mas a disparidade tende a se manter", conjectura Lazzari.
Regiões Norte e Metropolitana também possuem bons indicadores
A Macrorregião Metropolitana é a que concentra as maiores fatias populacionais e econômicas do Estado. Enquanto 37,3% dos gaúchos residem lá, conforme os dados do último Censo do IBGE, de 2022, 39,61% do PIB de 2023 estava nessa faixa que engloba a Região Metropolitana de Porto Alegre, o Vale do Sinos e o Litoral Norte. Mesmo assim, no ranking do PIB per capita, ela não lidera.
"São regiões muito populosas. E as que têm o PIB per capita maior são menos povoadas e, muitas vezes, têm uma alta concentração industrial numa região menor. E é uma parte do Estado que tem municípios muito ricos, como Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo. Mas outros, como Alvorada e Viamão, têm uma condição bem inferior. Na média, acaba ficando para trás", explica Lazzari.
A Macrorregião Norte ocupa a terceira posição, fruto de sua agropecuária com alto valor agregado, de indústrias ligadas ao setor primário — como a de máquinas e equipamentos — e a consolidação de algumas de suas cidades como polos de serviços especializados. Entretanto, áreas mais próximas à Fronteira Noroeste apresentam indicadores menores.
Regiões Sul e Centro ainda patinam com baixa industrialização
Quem também varia internamente quanto aos indicadores do PIB per capita embora apresente médias inferiores é a Macrorregião Central. "Teve crescimento nos últimos anos da produção de soja, que desceu das Missões para locais como Santiago e Cachoeira do Sul. Mas é uma região, como um todo, que tem pouca indústria. E, muitas vezes, os serviços qualificados, de maior valor agregado, têm relação com a atividade industrial", acrescenta Lazzari.
Mas os piores indicadores estão na Macrorregião Sul, composta pelas Regiões Sul, Fronteira Oeste, Campanha e Centro-Sul. "Se pegar a região de Uruguaiana, por exemplo, tem indústria. Mas é muito ligada ao beneficiamento de arroz ou de bovinos. São setores industriais que não têm alta produtividade. Se pegar a indústria de alimentos, ela vai ter uma produtividade bem menor que a metalmecânica. E isso se traduz em um menor valor agregado", pontua Lazzari.
Rio Grande e Pelotas, entre as cidades ao Sul, possuem indicadores melhores, por concentrarem indústrias, especialmente as atreladas ao porto localizado na região. Entretanto, Lazzari destaca que há intensas variações na produtividade desses municípios, atreladas às demandas flutuantes do polo naval.