O encanto com a beleza natural e o acolhimento do povo gaúcho contrasta com a dificuldade de logística que ainda desafia quem tenta explorar o Vale do Taquari. A agente de viagens, Rosa Maria, de Belo Horizonte-MG, sentiu na pele o contraponto entre o potencial turístico e os gargalos da infraestrutura regional. "Fiquei impressionada com a beleza do Vale e com a hospitalidade, mas é impossível não se preocupar com o estado das estradas e os acessos. Vender um pacote turístico nessas condições para o cliente é delicado. Enfrentar o transtorno de desembarcar e fazer a pé a travessia de uma ponte bloqueada para ônibus causa apreensão em qualquer operador", desabafa Rosa.
Apesar dos improvisos e do ritmo lento das obras viárias, a estratégia dos agenciadores para atrair turistas de outros estados é mostrar que a recuperação avança, ainda que em passos lentos, e que o Rio Grande do Sul oferece outros atrativos. "O nosso papel agora é convencer o turista de que o Vale do Taquari realmente vale a pena ser conhecido. Precisamos mostrar que o turismo no Rio Grande do Sul não se resume a Gramado, Canela e Bento Gonçalves", relata a agente.
A agente de viagens Ioná Mattje, da Exodus Viagens e Turismo, de Porto Alegre, lembra que o interesse dos clientes por pacotes turísticos no Vale do Taquari era baixo antes das cheias de 2023 e maio de 2024. "A procura não era tão expressiva, até porque o Cristo Protetor estava sendo construído e não tinha muita divulgação", relata.
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Com os desastres climáticos, a agência passou um ano inteiro sem comercializar viagens para a região. Naquela época, a busca por turismo na localidade zerou e a demanda se limitou ao segmento corporativo, atendendo exclusivamente clientes empresariais que viajavam a trabalho. Diante do fechamento do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, esses passageiros precisavam se deslocar até Florianópolis (SC) para embarcar. Naquele período, a onda de cancelamentos foi massiva.
Hoje, no entanto, Ioná afirma que o cenário mudou. "A procura dos clientes para conhecer o Vale do Taquari aumentou. Tivemos um crescimento exponencial, pois a região oferece um destino religioso focado no Cristo Protetor, uma das maiores estátuas de Jesus do mundo. O Cristo já é um destino consolidado, assim como o Viaduto 13 (V13), em Vespasiano Corrêa", destaca a agente, citando os atrativos mais procurados pela empresa atualmente.
Apesar da alta na procura, problemas logísticos voltaram a travar as operações da agência. Ioná conta que precisou suspender temporariamente a venda de novos pacotes para o Vale do Taquari devido a problemas nas estradas. "Cancelei por causa do bloqueio na ponte da ERS-129, entre Muçum e Encantado, que impede a passagem de ônibus. Estive em um evento de turismo em Guaporé recentemente e vi que não há condições de levar turistas no momento. Em um trajeto em que levávamos cerca de 2h30min, agora levamos até 4h para chegar ao destino, enfrentando estradas de chão em péssimo estado", desabafa.
Para a profissional, o Vale do Taquari reúne um potencial único ao integrar turismo religioso, de aventura, gastronômico e cultural. Contudo, ela reforça que a consolidação definitiva da região depende de uma divulgação mais ampla e, principalmente, de investimentos na infraestrutura das rodovias e estradas de acesso.
Para quem organiza viagens pelo interior gaúcho, o caminho até a retomada total do turismo no Vale tem sido longo e marcado por superações. A agente de turismo Virginia Maria Ramos, da agência Vikkatur, de Porto Alegre, lembra que, após a sequência de enchentes que afetou a região nos últimos três anos, o interesse por viagens rumo às cidades do Vale caiu bastante. O principal obstáculo eram as estradas interditadas e os acessos bloqueados nas vias vicinais impediam a chegada aos principais pontos turísticos.
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"Nessa época, foi muito difícil fechar os pacotes devido ao fato de muitos clientes acharem que as propriedades não teriam capacidade de recebê-los como anteriormente. A procura por viagens caiu 80%, e apenas no final de 2025 e início de 2026 é que começou, aos poucos, a normalizar", recorda Virginia, destacando que foi difícil trazer os turistas de volta à região.
Em relação às excursões com destino ao Cristo Protetor, em Encantado, a empreendedora observa que a procura registrou uma queda recente. Segundo ela, o fator está ligado à repetição do roteiro, já que muitos clientes visitaram o local duas ou três vezes.
Outro ponto recorrente de insatisfação entre os visitantes diz respeito ao acesso de elevador ao coração da estátua. "Além do alto preço, o tempo que as pessoas ficam lá em cima é de apenas cinco minutos. Sobem oito visitantes e todos querem tirar uma foto no coração, não havendo tempo para contemplar a paisagem do Vale do Taquari. Isso os clientes reclamam muito", relata.
A Associação de Amigos de Cristo de Encantado afirma que o acesso ao elevador para o coração do Cristo Protetor é controlado para garantir a segurança dos visitantes e a qualidade da experiência. A entidade diz que o número de pessoas por vez é limitado e que, apesar de eventuais reclamações sobre horários e tempo de permanência, a maioria das avaliações é positiva. A associação afirma ainda que está aberta a críticas e sugestões para aprimorar o atendimento.
Na malha viária, contudo, os gargalos persistem. Virginia aponta que ainda há extrema necessidade de melhorias na qualidade do asfalto, sobretudo nas estradas vicinais, além da falta de sinalização adequada para orientar os motoristas e operadores.