Porto Alegre,

Publicada em 27 de Outubro de 2026 às 19:02

Empresários do Vale do Taquari ainda tentam reerguer negócios

Restaurante Moinho 332 havia sido aberto meses antes das primeiras enchentes

Restaurante Moinho 332 havia sido aberto meses antes das primeiras enchentes

LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES
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Luciano Nagel
Na comunidade de Jacaré, em Encantado, a paisagem às margens do arroio que leva o mesmo nome, ainda guarda cicatrizes, mas o restaurante Moinho 332 voltou a abrir suas portas. O proprietário, Geovane Delazari, 50 anos, sentiu na pele e no bolso o peso máximo da catástrofe. Em setembro e novembro de 2023, as águas haviam ameaçado seu restaurante, inaugurado em dezembro de 2022, alcançando o pátio. Em maio de 2024, a inundação veio com tudo e levou freezers, refrigeradores, fogão industrial, móveis, louças e até partes da estrutura de concreto do restaurante, além do telhado. Placas solares, decks e estacionamento desapareceram sob a água barrenta.

Na comunidade de Jacaré, em Encantado, a paisagem às margens do arroio que leva o mesmo nome, ainda guarda cicatrizes, mas o restaurante Moinho 332 voltou a abrir suas portas. O proprietário, Geovane Delazari, 50 anos, sentiu na pele e no bolso o peso máximo da catástrofe. Em setembro e novembro de 2023, as águas haviam ameaçado seu restaurante, inaugurado em dezembro de 2022, alcançando o pátio. Em maio de 2024, a inundação veio com tudo e levou freezers, refrigeradores, fogão industrial, móveis, louças e até partes da estrutura de concreto do restaurante, além do telhado. Placas solares, decks e estacionamento desapareceram sob a água barrenta.


Na época, Geovane exercia o cargo de secretário municipal de Obras. Diante do caos instalado no município, ele priorizou o resgate das famílias atingidas. Foram necessários três dias até que conseguisse ir ao próprio estabelecimento para encarar o cenário de destruição. "Nunca me passou pela cabeça desistir ou não reabrir. Fiquei apenas um tempo assimilando como iria recomeçar. Passei quatro meses sem mexer na estrutura, só pensando na estratégia para me reerguer", recorda o empresário.


A limpeza demandou um esforço coletivo. Com a ajuda de voluntários vindos do município de Erechim e de cinco amigos, Geovane, a esposa e os filhos trabalharam duro por seis meses. Do enorme terreno plano, retirou cerca de 200 caminhões de entulhos de madeira e 400 cargas de barro. Para evitar qualquer conflito de interesse por conta de seu cargo público, na ocasião, ele reforça que não utilizou maquinário da prefeitura. ‘’Desembolsei mais de R$ 200 mil do próprio bolso apenas no aluguel de retroescavadeiras e caminhões particulares’', disse.


O proprietário do restaurante prefere não somar na ponta do lápis o prejuízo financeiro total da tragédia. "Nunca tive vontade de calcular, porque se eu começar a pensar muito, eu desisto. É muito valor acumulado e vai levar muitos anos para recuperar", confessa. A reconstrução foi viabilizada pelo aporte de recursos de outra empresa familiar, a Delazari Alimentos, que não foi atingida pelas cheias, somado a novos financiamentos bancários e linhas de crédito.


Hoje, cerca de 70% dos seus clientes chegam atraídos pelo Cristo Protetor, além de visitantes de municípios vizinhos como Lajeado, Estrela, Arroio do Meio, Roca Sales e Nova Bréscia. O maior desafio, no momento, é contornar o trauma psicológico que a chuva ainda causa no turismo. "Basta a previsão do tempo anunciar pancadas de chuva no Vale que o movimento despenca e as reservas são canceladas. O medo da chuva ainda assusta o turista", lamenta.


Pousada na cidade chegou a ter ocupação de 90% em fins de semana

Pousada de Glória Maria Villa chegou a ter ocupação de 90% aos fins de semana | LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES
Pousada de Glória Maria Villa chegou a ter ocupação de 90% aos fins de semana LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES

A cerca de alguns quilômetros dali, na comunidade de São Roque, o impacto da tragédia ganhou contornos diferentes, mas igualmente dolorosos para a economia do município de Encantado. A empresária Glória Maria Gianesini Villa, de 60 anos, proprietária da pousada Vivenda Altos da Glória, viveu os efeitos indiretos do isolamento provocado pelas enchentes.


Antes das cheias de maio de 2024, a pousada estava em pleno momento de expansão. Com duas cabanas de concreto, alcançava quase 90% de ocupação nos fins de semana e consolidava seu espaço no turismo receptivo regional. Embora a água não tenha atingido suas instalações físicas, por estar localizada na subida de um morro, a devastação ao redor paralisou o negócio. O transbordamento do arroio Jacaré e os deslizamentos de terras cortaram as estradas e as pontes de acesso. O resultado foi o cancelamento imediato das reservas.


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"Tivemos desistências em massa, suspensão de eventos e uma interrupção drástica do fluxo de visitantes por um longo período. Foi um momento angustiante, porque os custos fixos, as contas e os compromissos com fornecedores continuavam chegando, mas não tínhamos receita entrando", relata Glória.


Sem revelar os valores exatos das perdas financeiras durante aquele período, a empreendedora prefere destacar o impacto da paralisação das atividades econômicas na região. "Mais do que a perda financeira pontual, o doloroso foi ver a quebra de toda a cadeia produtiva. Estávamos prontos para acolher as pessoas, mas o destino turístico inteiro havia sido paralisado", ressalta.


Três anos depois do início da sequência de cheias, Glória afirma enxergar um horizonte de recomeço e oportunidades no Vale do Taquari. "Estamos investindo em melhorias estruturais, qualificando a gastronomia e investindo em novos projetos. Queremos que a pousada seja mais do que um meio de hospedagem, um espaço de acolhimento, experiência e reconexão", conclui Glória.


Bloqueio de rodovia impede retomada plena de restaurante em Vespasiano Corrêa

LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES | LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES
LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES LUCIANO NAGEL/ESPECIAL/CIDADES

Desde 2016, o empresário Luis Carlos Nunes, de 60 anos, mantém o restaurante Recanto do Nono no interior do município de Vespasiano Corrêa. O negócio nasceu para atender os turistas que visitam o Viaduto 13 (V13), um dos principais atrativos do Vale do Taquari, com 509 metros de comprimento e 143 metros de altura. No cardápio da cantina, comida caseira como arroz, feijão, massa, carne de panela, pratos típicos italianos e salada preparada com produtos orgânicos cultivados na própria horta.


As enchentes de maio de 2024 interromperam sua rotina. Luis e sua família ficaram isolados por mais de um mês, sem acesso por estradas bloqueadas pelos deslizamentos de terra. Luis precisou fechar as portas por mais de três meses, de 1º de maio a 10 de agosto. “Nós ficamos completamente isolados de tudo por 35 dias, e não tínhamos por onde sair. Não havia estradas”, recorda.


A retomada, porém, não significou o retorno ao movimento de antes. Desde o último julho, os bloqueios na ponte da ERS-129, entre Encantado e Muçum, por onde passa o rio Guaporé, voltam a dificultar o deslocamento de turistas pela região. O reflexo aparece nas reservas do restaurante e no baixo movimento dos clientes. “Só de reservas, a partir de 24 de agosto, deixei de atender 423 pessoas, além de centenas de turistas que deixaram de passar por aqui”, afirma. Antes das enchentes, o estabelecimento vendia cerca de 350 almoços nos finais de semana.


A família encontrou uma alternativa para ampliar a renda ainda durante o processo de recuperação. Depois das inundações de 2023, Luis Carlos e os familiares perceberam que muitos visitantes reclamavam da falta de hotéis e pousadas nas proximidades do V13. Resolveram, então, transformar a própria casa, ao lado do restaurante, em uma pousada familiar.


O investimento foi de R$ 50 mil para transformar o imóvel em hospedagem, com quatro quartos de casal. A procura animou o empreendedor a dar mais um passo e construir uma cabana equipada para acomodar até seis pessoas. “Nós temos o projeto de construir mais cinco cabanas em torno do restaurante”, diz Luis Carlos, otimista. Além de almoço e hospedagem, o empreendedor também oferece aos turistas transporte até o V13 e caminhada com guia por trilhas em meio a mata nativa.


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