Casas arrastadas, morros que desabaram e vidas que se perderam no percurso enfurecido das águas do rio Taquari e seus adjacentes. Entre o segundo semestre de 2023 e maio de 2024, o Vale do Taquari viveu uma das maiores tragédias climáticas da história recente do Rio Grande do Sul. Três anos após o primeiro episódio, a região, marcada pela colonização italiana e alemã, ergue a cabeça. Impulsionados pela fé, pelo turismo regional e por linhas de crédito, empreendedores locais transformam o luto em reconstrução econômica, provando que a resiliência no interior gaúcho não é apenas clichê, mas uma ferramenta diária de sobrevivência.
O impacto das enchentes sobre a economia de Encantado provocou uma grande transformação na Junta Comercial do município, que tem pouco mais de 23 mil habitantes. Antes das inundações de 2023, a cidade contava com 2.847 empresas ativas. Contudo, o rastro de destruição deixado pelas inundações, somados à catástrofe climática de maio de 2024, atingiu diretamente 1.406 estabelecimentos. Diante de prejuízos e do isolamento econômico, cerca de 750 empreendimentos acabaram encerrando suas atividades de forma definitiva. As informações são da Secretaria da Fazenda da administração municipal.
O prefeito de Encantado, Jonas Calvi, explicou que os impactos financeiros mais detalhados da questão climática no turismo ainda não puderam ser computados de forma isolada, devido a danos logísticos regionais e ao rateio de custos com outras secretarias, como a de Obras e Agricultura. Porém, com a recente criação da secretaria de Turismo, do Fundo Municipal e do programa Turim, somados a obras de acesso ao Cristo Protetor, Belvedere e Rua Coberta, a cidade passará a ter métricas mais precisas e comparativos anuais a partir de 2025 e 2026.
Apesar do encerramento de grande parte de comércios e prestações de serviços, a reação da economia local tem dado sinais de força na reconstrução. A prefeitura contabiliza a abertura de 1.062 novas empresas no período pós-enchente de 2024, impulsionadas pela reorganização do mercado e pelas oportunidades surgidas em torno de novo.
Muçum estima perda de R$ 2 milhões no turismo
PREFEITURA DE MUÇUM/DIVULGAÇÃO/CIDADES
PREFEITURA DE MUÇUM/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Outra cidade bastante impactada pela força das águas - e que também depende do turismo - Muçum reflete o desafio da reconstrução no Vale do Taquari. Antes da primeira grande cheia, em setembro de 2023, o município contava com 446 empresas ativas. Nos meses seguintes, as empresas sofreram uma sequência de interrupções severas. Cerca de 140 foram atingidas na cheia de setembro, 80 no evento de novembro do mesmo ano e outras 130 na catástrofe de maio de 2024. O rastro de estragos resultou no encerramento definitivo de 25 estabelecimentos na cidade. As informações foram fornecidas pela prefeitura.
Apesar das perdas, a força do setor produtivo local tem impulsionado a recuperação. Segundo levantamento da secretaria municipal de Administração, a pedido da reportagem do Jornal Cidades, cerca de 100 empresas conseguiram reabrir as portas, algumas após mais de um ano de paralisação, enquanto aproximadamente 20 empreendimentos optaram por mudar de endereço para áreas geograficamente mais seguras.
O movimento de reorganização da economia da cidade também abriu espaço para novos negócios. Desde as inundações, foram registrados 139 novos CNPJs em Muçum. Os dados, obtidos junto ao Sistema Multi24h abrangem empresas de todos os portes e ramos de atividade, evidenciando o ritmo de retomada e adaptação do município.
Antes das inundações de setembro de 2023, o município registrava um aumento no fluxo de visitantes, impulsionado pelo passeio do Trem dos Vales e pela proximidade do Cristo Protetor, em Encantado, e o Viaduto 13, em Vespasiano Corrêa. A tragédia, no entanto, interrompeu drasticamente as visitas, frustrando inclusive novos investimentos privados que estavam em negociação para a cidade.
O impacto direto e indireto da paralisação gerou prejuízos expressivos para o comércio e serviços que dependiam da circulação de turistas. A estimativa da prefeitura é de que o município tenha deixado de movimentar mais de R$ 2 milhões em atividades ligadas ao setor, somando a perda de visitação, a queda no consumo de serviços e o cancelamento de grandes feiras e festividades locais, como a Semana Farroupilha de 2023 e a ExpoMuçum de 2024.
Segundo o prefeito de Muçum, Amarildo Baldasso, a sequência de cheias criou um cenário de incerteza que afastou empreendedores e visitantes. "Alguns setores não reabriram por receio de novas enchentes. Os investimentos que estavam em discussão também não se concretizaram, infelizmente", destaca Baldasso, ao considerar que o valor de R$ 2 milhões representa uma estimativa municipal diante da ausência de um levantamento econômico consolidado.
De acordo com o prefeito Amarildo Baldasso, o município já está preparado para acolher novamente os turistas. "Muçum recuperou espaços e serviços atingidos pelas enchentes e vem trabalhando para receber novamente um fluxo maior de visitantes, incluindo os empreendimentos em funcionamento nos setores de gastronomia e hospedagem", destacou o chefe do executivo.