Em Ivoti, é possível viajar do Japão para a Alemanha em poucos minutos e não se trata de trem-bala, ou nada parecido: o deslocamento é em estrada de chão batido, pelos recantos mais pitorescos do interior do município. É como um teletransporte que nos leva da força da tradição japonesa, encravada no Memorial nipônico, ao Núcleo de Casas Enxaimel que nos faz sentir em plena Alemanha de anos atrás.
Essas edificações centenárias ajudam a contar um pouco sobre como as primeiras famílias ocuparam o território, organizaram a produção e estruturaram a vida comunitária. Para o arquiteto Daniel Wagner, o principal valor do conjunto está justamente na possibilidade de compreender a história a partir do espaço onde ela aconteceu. “Não estamos falando apenas de fotografias antigas ou de relatos escritos. As casas estão ali, no lugar onde foram construídas”, afirma.
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Segundo ele, o Núcleo permite observar de forma concreta um processo de ocupação que também ocorreu em outros municípios do Vale do Sinos a partir da imigração alemã. A arquitetura é uma das principais fontes para essa leitura. A disposição dos ambientes, os acessos, as ampliações e a relação entre a casa, o pátio e as construções de apoio revelam aspectos da rotina das famílias. Em uma época em que morar e produzir estavam diretamente relacionados, a residência fazia parte de uma estrutura que envolvia trabalho, cultivo, criação de animais e armazenamento.
A educadora patrimonial e presidente da Sociedade Ivotiense de Estudos Humanísticos (Siehu), Andréa Schneck, conta que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, a cidade de Ivoti não surgiu no Núcleo, que num primeiro momento serviu de moraria para pessoas escravizadas, sendo depois ocupadas por famílias alemãs. Além disso, ela reafirma a importância de conscientizar as pessoas quanto à preservação do patrimônio que conta a história de suas vidas. “Essas casas enfrentaram muitas enchentes, e em 2023 foram engolidas pelo arroio Feitoria, porém, seguem de pé. A cada enchente, as casas ficam mais fragilizadas e precisamos nos mobilizar pela manutenção delas”, reforçou.
A própria técnica do enxaimel evidencia a adaptação dos conhecimentos trazidos pelos imigrantes ao novo território. A estrutura de madeira, combinada a outros materiais, demonstra uma tradição construtiva que foi incorporada à paisagem local. Um inventário arquitetônico realizado no município identificou 178 imóveis de valor histórico, sendo 104 construções em enxaimel. O levantamento amplia a dimensão da presença dessa arquitetura em Ivoti e demonstra que a preservação não está restrita ao Núcleo.
Para Wagner, encontrar novos usos para os imóveis históricos pode contribuir para sua conservação. O desafio é permitir que as construções continuem integradas à vida da cidade sem descaracterizar os elementos que justificam sua preservação. “Não precisamos transformar uma cidade histórica em um museu congelado”, afirma. A descaracterização ou demolição, por outro lado, representa uma perda que não pode ser integralmente recuperada.
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Andréa conta que o Núcleo, junto à Ponte do Imperador, foi um importante ponto comercial da região, onde funcionou um entreposto que atendia a colônia alemã e por onde circulavam pessoas em busca de serviços, produtos e materiais vindos de outras regiões. “Além do comércio, o espaço concentrou diferentes atividades ao longo do tempo, como escola, salão de baile, cervejaria, fábrica de gasosa e diversos ofícios. Foi um lugar importante para o desenvolvimento e a organização da comunidade”.
Hoje, recuperado, o Núcleo precisa de manutenção e preservação constantes para ser valorizado como testemunho vivo da história e da identidade de Ivoti. Antes de se tornar um dos principais pontos turísticos de Ivoti, o Núcleo de Casas Enxaimel era uma pequena comunidade rural marcada pelo trabalho, pelas dificuldades e também por tragédias. “Em 1874, uma epidemia de varíola atingiu a região e provocou numerosas mortes. Na área conhecida como Buraco do Diabo, casas tiveram as portas trancadas e a estrada foi bloqueada para impedir a circulação de pessoas”, conta Andréa. .