Porto Alegre,

Publicada em 13 de Outubro de 2026 às 18:43

Núcleo Enxaimel preserva as marcas da imigração alemã em Ivoti

Estrutura de madeira, combinada a outros materiais, demonstra uma tradição construtiva que foi incorporada à paisagem local

Estrutura de madeira, combinada a outros materiais, demonstra uma tradição construtiva que foi incorporada à paisagem local

ANA ESTEVES/ESPECIAL/CIDADES
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Ana Esteves
Em Ivoti, é possível viajar do Japão para a Alemanha em poucos minutos e não se trata de trem-bala, ou nada parecido: o deslocamento é em estrada de chão batido, pelos recantos mais pitorescos do interior do município. É como um teletransporte que nos leva da força da tradição japonesa, encravada no Memorial nipônico, ao Núcleo de Casas Enxaimel que nos faz sentir em plena Alemanha de anos atrás.

Em Ivoti, é possível viajar do Japão para a Alemanha em poucos minutos e não se trata de trem-bala, ou nada parecido: o deslocamento é em estrada de chão batido, pelos recantos mais pitorescos do interior do município. É como um teletransporte que nos leva da força da tradição japonesa, encravada no Memorial nipônico, ao Núcleo de Casas Enxaimel que nos faz sentir em plena Alemanha de anos atrás.


Essas edificações centenárias ajudam a contar um pouco sobre como as primeiras famílias ocuparam o território, organizaram a produção e estruturaram a vida comunitária. Para o arquiteto Daniel Wagner, o principal valor do conjunto está justamente na possibilidade de compreender a história a partir do espaço onde ela aconteceu. “Não estamos falando apenas de fotografias antigas ou de relatos escritos. As casas estão ali, no lugar onde foram construídas”, afirma.


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Segundo ele, o Núcleo permite observar de forma concreta um processo de ocupação que também ocorreu em outros municípios do Vale do Sinos a partir da imigração alemã. A arquitetura é uma das principais fontes para essa leitura. A disposição dos ambientes, os acessos, as ampliações e a relação entre a casa, o pátio e as construções de apoio revelam aspectos da rotina das famílias. Em uma época em que morar e produzir estavam diretamente relacionados, a residência fazia parte de uma estrutura que envolvia trabalho, cultivo, criação de animais e armazenamento.


A educadora patrimonial e presidente da Sociedade Ivotiense de Estudos Humanísticos (Siehu), Andréa Schneck, conta que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, a cidade de Ivoti não surgiu no Núcleo, que num primeiro momento serviu de moraria para pessoas escravizadas, sendo depois ocupadas por famílias alemãs. Além disso, ela reafirma a importância de conscientizar as pessoas quanto à preservação do patrimônio que conta a história de suas vidas. “Essas casas enfrentaram muitas enchentes, e em 2023 foram engolidas pelo arroio Feitoria, porém, seguem de pé. A cada enchente, as casas ficam mais fragilizadas e precisamos nos mobilizar pela manutenção delas”, reforçou. 


A própria técnica do enxaimel evidencia a adaptação dos conhecimentos trazidos pelos imigrantes ao novo território. A estrutura de madeira, combinada a outros materiais, demonstra uma tradição construtiva que foi incorporada à paisagem local. Um inventário arquitetônico realizado no município identificou 178 imóveis de valor histórico, sendo 104 construções em enxaimel. O levantamento amplia a dimensão da presença dessa arquitetura em Ivoti e demonstra que a preservação não está restrita ao Núcleo.


Para Wagner, encontrar novos usos para os imóveis históricos pode contribuir para sua conservação. O desafio é permitir que as construções continuem integradas à vida da cidade sem descaracterizar os elementos que justificam sua preservação. “Não precisamos transformar uma cidade histórica em um museu congelado”, afirma. A descaracterização ou demolição, por outro lado, representa uma perda que não pode ser integralmente recuperada.


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Andréa conta que o Núcleo, junto à Ponte do Imperador, foi um importante ponto comercial da região, onde funcionou um entreposto que atendia a colônia alemã e por onde circulavam pessoas em busca de serviços, produtos e materiais vindos de outras regiões. “Além do comércio, o espaço concentrou diferentes atividades ao longo do tempo, como escola, salão de baile, cervejaria, fábrica de gasosa e diversos ofícios. Foi um lugar importante para o desenvolvimento e a organização da comunidade”.


Hoje, recuperado, o Núcleo precisa de manutenção e preservação constantes para ser  valorizado como testemunho vivo da história e da identidade de Ivoti. Antes de se tornar um dos principais pontos turísticos de Ivoti, o Núcleo de Casas Enxaimel era uma pequena comunidade rural marcada pelo trabalho, pelas dificuldades e também por tragédias. “Em 1874, uma epidemia de varíola atingiu a região e provocou numerosas mortes. Na área conhecida como Buraco do Diabo, casas tiveram as portas trancadas e a estrada foi bloqueada para impedir a circulação de pessoas”, conta Andréa. .

Da troca de técnicas ao cooperativismo, alemães e japoneses constroem uma agricultura local integrada

Segundo o agricultor, Blásio Alberto Bervian, lavouras crescem com duplo conhecimento

Segundo o agricultor, Blásio Alberto Bervian, lavouras crescem com duplo conhecimento

Andréa Schneck/DIVULGAÇÃO/CIDADES
A aproximação entre descendentes de alemães e japoneses em Ivoti nasceu da necessidade de produzir e, ao longo das décadas, também ajudou a transformar a agricultura do município. No início da colonização japonesa, agricultores de origem alemã, já estabelecidos na região, prestavam serviços de lavração de terras e outros trabalhos. A barreira do idioma, porém, limitava o contato entre as famílias. A integração ganhou força quando os filhos dos imigrantes japoneses passaram a frequentar as escolas de Ivoti e, posteriormente, quando as duas comunidades começaram a compartilhar experiências de produção e comercialização.
Segundo o agricultor, Blásio Alberto Bervian, as primeiras trocas de conhecimento ocorreram principalmente nas lavouras. Um dos exemplos envolve o produtor de origem alemã Leoni Petry, pioneiro no cultivo de cenouras e tomates, que mantinha contato com um agricultor japonês de sobrenome Miwa. Os dois trocavam informações sobre doenças que atingiam os tomateiros e as formas de controle.
A experiência se ampliou com a adoção de novas técnicas. Os produtores japoneses passaram a investir no cultivo protegido, com a construção de estufas, modelo que posteriormente também foi acompanhado por agricultores de origem alemã. Ao mesmo tempo, a agricultura japonesa, baseada na produção intensiva em pequenas áreas, influenciou parte dos produtores alemães, que passaram de atividades como leite, milho, aipim, feijão e cana-de-açúcar para segmentos como hortaliças e avicultura.
A troca também ocorreu no sentido inverso. Bervian aponta o cooperativismo como uma das principais contribuições da comunidade de origem alemã incorporadas pelos japoneses. Ainda na década de 1970, produtores japoneses começaram a se organizar para comercializar conjuntamente frutas, como uvas, e hortigranjeiros. O movimento ganhou uma nova dimensão a partir de 2010, com a criação da Cooperativa de Produtores e Agroindústrias de Ivoti (Proagrii), reunindo agricultores de origem alemã e japonesa.
A organização surgiu especialmente para atender vendas institucionais, como a merenda escolar, e se tornou também responsável pela criação, em 2012, da Feira na Colônia Japonesa. Para o engenheiro agrônomo Fábio Sato, de descendência japonesa e um dos incentivadores da formação da cooperativa, a convivência entre as comunidades se consolidou a partir de atividades econômicas e comunitárias. "Somos uma comunidade integrada", resume.
A aproximação não ficou restrita às lavouras. Em períodos de colheita da uva, agricultores de origem alemã ajudavam nas propriedades japonesas durante as férias. Festas comunitárias também passaram a reunir as duas culturas. Na alimentação, a influência aparece principalmente em feiras e eventos: os alemães conheceram sushi, yakisoba e guioza, enquanto os japoneses passaram a ter contato com cuca, linguiça, chucrute e chope.

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