Numa manhã como qualquer outra, enquanto uma turma de adolescentes visita os corredores do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa), em São João do Polêsine, o tempo parece perder escala. Entre vitrines, blocos de rocha e fragmentos ainda em preparação, a história mais antiga do planeta deixa de ser abstrata e ganha forma diante dos olhos.
Ali, em um município de pouco mais de 2,6 mil habitantes, ossos fossilizados retirados de rochas avermelhadas ajudam a explicar como viviam alguns dos primeiros dinossauros do mundo - e por que a Região Central do Rio Grande do Sul se tornou referência internacional em paleontologia. O que durante décadas esteve associado a museus distantes ou a cultura hollywoodiana ganha materialidade no Interior gaúcho.
Ligado à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Cappa nasceu para apoiar a pesquisa e garantir a preservação dos fósseis encontrados na área que hoje integra o Geoparque Quarta Colônia. Mas, com o tempo, deixou de ser apenas um laboratório: tornou-se um espaço de articulação entre ciência, comunidade e memória.
Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, em São João do Polêsine
Gabriel Margonar/Especial/JC
No local, materiais recolhidos em lavouras, açudes, barrancos e propriedades privadas passam por um processo lento de preparação e análise até se transformarem em artigos científicos, novas espécies descritas e peças-chave para compreender a evolução da vida na Terra - e no Estado. Cada bloco de rocha guarda um tempo que não deixou registros escritos, mas vestígios.
A singularidade da região começa pela paisagem. O paleontólogo Rodrigo Temp Müller explica que a Quarta Colônia está situada em uma zona de contato entre o Planalto e a Depressão Central do Rio Grande do Sul. É nesse encontro que afloram as rochas sedimentares onde os fósseis se preservaram ao longo de milhões de anos.
“O primeiro passo é localizar esses pontos onde a rocha aparece. São formações sedimentares, geralmente com coloração alaranjada ou avermelhada”, comenta. Para quem passa, podem parecer apenas cortes de um terreno; para os pesquisadores, são portas de entrada para o passado.
Esses afloramentos nem sempre surgem de forma natural. Muitas vezes, aparecem a partir de intervenções humanas - uma estrada aberta, uma lavoura preparada, uma barragem construída ou até mesmo uma enchente (como em 2024). A descoberta, portanto, não depende apenas da geologia, mas também do cotidiano produtivo da região. Onde há movimentação de solo, há a chance de revelar algo que permaneceu escondido por milhões de anos.
Buscam ocorrem, principalmente, ao longo da extensão da Quarta Colônia
Flávio A. Pretto/Divulgação/Cidades
A busca, relata Müller, começa antes mesmo do campo. Imagens de satélite ajudam a identificar áreas onde a coloração da rocha contrasta com a vegetação. Depois, vem o trabalho direto: caminhar, observar, testar. Nem toda formação guarda fósseis. Quando há material, surge a dúvida central: trata-se de um fragmento isolado ou de algo capaz de ampliar o conhecimento científico?
A resposta exige um trabalho que combina força e precisão. Marretas e talhadeiras convivem com bisturis, agulhas e resinas. O objetivo não é retirar o osso, mas o bloco inteiro que o protege. “Não retiramos o fóssil diretamente. Removemos um bloco de rocha com ele dentro”, explica Müller. Para isso, os pesquisadores abrem uma canaleta ao redor do material, revestem com gesso e formam uma espécie de cápsula protetora - a chamada jaqueta. Só então o bloco pode ser transportado com segurança.
Dependendo do tamanho, a retirada exige uma operação complexa. Bases de madeira, cabos de sustentação e até guindastes podem ser necessários. Escavações mais simples duram poucos dias. Outras se estendem por semanas, com planejamento logístico que envolve acesso, transporte e proteção do material.
O campo, porém, impõe limites. A vegetação encobre sítios, o acesso nem sempre é simples e o transporte exige cuidado para evitar danos. Ainda assim, o momento mais crítico ocorre no início da descoberta. “O fóssil geralmente já está exposto e fragilizado. É preciso estabilizar antes de qualquer manipulação. E isso acontece justamente quando a empolgação é maior”, conta o pesquisador do Cappa.
Grande parte desses achados ocorre em áreas privadas ou públicas sem destinação específica para pesquisa. Por isso, o vínculo com moradores e proprietários é decisivo, explica Rodrigo. “Conversamos, explicamos o trabalho e garantimos que não haverá prejuízo. A preservação precisa acontecer junto com a comunidade”, afirma. Essa relação tem permitido que a pesquisa avance sem romper com a dinâmica local.
No Sítio Buriol, também em São João do Polêsine, esse encontro entre ciência e vida rural ganhou contornos concretos. A propriedade da família, voltada ao cultivo de soja e arroz, tornou-se área de pesquisa a partir da década passada. Ali foram encontrados fósseis como o Buriolestes schultzi e o Venetoraptor gassenae, descrito em artigo publicado na revista Nature.
Para a arquiteta e urbanista Júlia Stochero Buriol, filha do proprietário, a descoberta mudou a forma de olhar para o próprio território. “Foi um momento de surpresa, felicidade e honra. Saber que a propriedade contribui para a ciência é muito especial”, lembra.
Propriedade voltada ao cultivo de soja e arroz, tornou-se também área de pesquisa paleontológica
Júlia Buriol/Divulgação/JC
Quando necessário, conta, a família acompanha o trabalho dos pesquisadores e auxilia no acesso - houve situações em que um trator foi usado para retirar blocos de rocha. “É curioso pensar que estamos em uma área de produção e, ao mesmo tempo, sobre um território onde viveram dinossauros milhões de anos atrás”. Para ela, ver o nome da família associado a uma espécie (Buriolestes schultzi) ultrapassa a homenagem, é uma forma de pertencimento.
Depois da retirada, o material chega ao Cappa ainda envolto em rocha e gesso. A prioridade é a preservação. “Um fóssil exposto ao tempo se degrada rapidamente. O primeiro passo é garantir sua estabilidade”, explica o coordenador do Centro, Flávio Pretto.
Na reserva técnica, alguns blocos permanecem décadas à espera de estudo. Protegidos pela jaqueta de gesso, podem durar mais de um século. Quando selecionados, muitas vezes por estudantes em formação, inicia-se a etapa de preparação - o sedimento é removido aos poucos, grão por grão, com ferramentas delicadas. É um trabalho minucioso, em que qualquer erro pode comprometer informações irreversíveis.
Blocos ficam protegidos por uma jaqueta de gesso e podem durar mais de um século
Gabriel Margonar/Especial/JC
Só depois disso o fóssil recebe um número de tombo e passa a integrar oficialmente a coleção científica. A partir daí, começa uma investigação que pode levar anos para identificar a qual espécie pertence aquele animal e há quantos anos esteve no território.
Isso exige comparação com fósseis de diferentes regiões e períodos. O trabalho envolve leitura de literatura especializada, análise anatômica detalhada e intercâmbio com pesquisadores de outros países. Muitas vezes, o parente mais próximo de um fóssil encontrado na Quarta Colônia está na África ou na Índia - vestígio de uma época em que os continentes ainda estavam unidos, sem o Oceano Atlântico.
“Um dinossauro que vivia aqui poderia ir caminhando até a África do Sul”, resume Pretto. Os fósseis da região gaúcha, com cerca de 230 milhões de anos, estão entre os registros mais antigos da história dos dinossauros no mundo. Ocorrências semelhantes aparecem no noroeste da Argentina, no sul da África e na Índia, mas a densidade e a qualidade dos achados gaúchos colocam a Quarta Colônia em posição singular.
Microscopia, paleohistologia, tomografia e modelagem tridimensional fazem parte da rotina dos pesquisadores
Janaína Brand Dillmann/Divulgação/Cidades
No laboratório, novas tecnologias ampliam as possibilidades de análise. Microscopia, paleohistologia, tomografia e modelagem tridimensional permitem acessar estruturas invisíveis a olho nu. Ainda assim, o avanço da ciência segue um ritmo gradual. “Cada resposta abre novas perguntas”, afirma Pretto.
Entre os fósseis mais conhecidos encontrados no Estado estão o Gnathovorax cabreirai, um carnívoro ágil de cerca de três metros, e o Prestosuchus chiniquensis, um predador que antecede os dinossauros e podia ultrapassar sete metros. Também aparecem espécies relacionadas à origem dos mamíferos, como o Brasilodon quadrangularis, e parentes próximos dos famosos pterossauros, como o Venetoraptor gassenae.