Dentro de uma casa de arquitetura japonesa, que divide o cenário com edificações enxaimel, típicas alemãs, funciona um dos espaços que melhor traduzem a diversidade cultural construída ao longo do tempo no município. O Memorial da Cultura Japonesa reúne objetos, referências e histórias da imigração japonesa e funciona como um espaço de materialização da memória dos que escolheram Ivoti como nova morada. O local apresenta ao visitante aspectos da história, das tradições e do cotidiano dos imigrantes que ajudaram a construir uma identidade multicultural no município.
No espaço, fotografias ajudam a reconstruir a trajetória da comunidade e a registrar diferentes momentos da ocupação e da vida dos imigrantes. Objetos tradicionais, por sua vez, aproximam o visitante de costumes que atravessaram gerações. Entre eles estão as bonecas Hina, relacionadas ao Hinamatsuri, celebração japonesa dedicada às meninas, além dos quimonos e de elementos utilizados em festivais e eventos. “Temos muita cultura trazida pelos imigrantes”, explica o chefe do setor de turismo da prefeitura de Ivoti e guia do memorial, Matheus Heydrich . Segundo ele, cada objeto carrega uma simbologia e ajuda a apresentar ao público aspectos de uma cultura que, embora tenha uma presença histórica no Brasil, ainda é pouco conhecida por parte dos gaúchos.
• LEIA TAMBÉM: São Francisco de Paula se transforma na terra dos festivais musicais
A preservação também ultrapassa as vitrines. A comunidade mantém atividades esportivas que fazem parte da tradição japonesa, como beisebol e tênis de mesa, além de treinos de kendô. Uma das integrantes da comunidade chegou a conquistar um campeonato nacional de tênis de mesa no ano passado. A conexão cultural se estende ainda ao Japão por meio da relação de Ivoti com a província de Shiga, Estado-irmão do Rio Grande do Sul. Dessa forma, o Memorial funciona como um espaço de lembrança do passado e também como uma porta de entrada para o conhecimento de costumes, práticas e tradições que continuam presentes na comunidade.
A conexão cultural com a Alemanha também é evidente, a começar por Heydrich, um descendente de alemães apaixonado pela cultura japonesa, que fala japonês, pratica kendô e recebe os turistas que visitam o memorial com um quimono típico da cultura nipônica. “As culturas se mesclam, dialogam entre elas e , desde pequenos, convivemos com as duas. Para se ter uma ideia, falo japonês, mas não falo alemão que é a pátria da minha mãe”, diz Heydrich.
O presidente da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira da Colônia Ivoti (Acenb), Paulo Toshio Tanaka, o desafio é preservar as origens diante de uma realidade em que poucos descendentes permaneceram na agricultura. “A redução da atividade rural, no entanto, não significou o desaparecimento da comunidade, muito pelo contrário: com menos pessoas trabalhando diretamente na terra, a preservação cultural ganhou importância como forma de manter viva a identidade construída ao longo de seis décadas”, afirma.
• LEIA TAMBÉM: Ivoti se divide em costumes da Alemanha e do Japão
As tradições japonesas continuam presentes em uma agenda que atravessa diferentes gerações. Entre elas está a cerimônia de início do ano, a celebração da maioridade dos jovens que completam 20 anos, o Undoukai, gincana esportiva com atividades para diferentes idades, e o Engeikai, festival cultural em que a comunidade apresenta músicas, cantos, danças, teatro e artes marciais. Há ainda o Ireisai, cerimônia de homenagem aos antepassados, que reforça a ligação entre as gerações. O esporte também ocupa espaço nessa preservação. A comunidade mantém atividades como softball, tênis de mesa e gateball. Modalidades que já fizeram parte da rotina, como sumô e judô, deixaram de ser praticadas por falta de participantes.
A professora de japonês da comunidade, Iaioi Tao, mantém as aulas como parte de um projeto iniciado décadas atrás pela Associação Cultural Esportiva Nipo-Brasileira de Ivoti (ACENB). Ela é filha de um dos fundadores da colônia e conta que o pai participou diretamente da busca pelo local onde as famílias seriam instaladas, em uma articulação que envolveu outros integrantes da comunidade e representantes da Japan International Cooperation Agency (JICA). “Meu pai é o único sobrevivente entre os fundadores, tinha uma função importante nas negociações iniciais por dominar melhor a língua portuguesa. Era ele quem estabelecia contatos e atuava como tradutor do grupo”, conta a professora.
A preocupação com a memória também resultou em iniciativas como o documentário "Furusato: um lugar para voltar", produzido pela comunidade em 2024, por meio da Lei Paulo Gustavo. Com cerca de 30 minutos, a obra reúne depoimentos de imigrantes e descendentes sobre suas experiências no Japão, no Brasil e, especialmente, em Ivoti. Essa relação entre memória e pertencimento ganha ainda mais importância diante da proximidade dos 60 anos da imigração japonesa em Ivoti, que serão celebrados em dezembro de 2026.