Porto Alegre,

Publicada em 13 de Outubro de 2026 às 18:42

Memorial do Japão preserva história, cultura e patrimônio em Ivoti

Esculturas identificam a presença da cultura nipônica em regiões do município

Esculturas identificam a presença da cultura nipônica em regiões do município

/ANA ESTEVES/ESPECIAL/CIDADES
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Ana Esteves
Dentro de uma casa de arquitetura japonesa, que divide o cenário com edificações enxaimel, típicas alemãs, funciona um dos espaços que melhor traduzem a diversidade cultural construída ao longo do tempo no município. O Memorial da Cultura Japonesa reúne objetos, referências e histórias da imigração japonesa e funciona como um espaço de materialização da memória dos que escolheram Ivoti como nova morada. O local apresenta ao visitante aspectos da história, das tradições e do cotidiano dos imigrantes que ajudaram a construir uma identidade multicultural no município.

Dentro de uma casa de arquitetura japonesa, que divide o cenário com edificações enxaimel, típicas alemãs, funciona um dos espaços que melhor traduzem a diversidade cultural construída ao longo do tempo no município. O Memorial da Cultura Japonesa reúne objetos, referências e histórias da imigração japonesa e funciona como um espaço de materialização da memória dos que escolheram Ivoti como nova morada. O local apresenta ao visitante aspectos da história, das tradições e do cotidiano dos imigrantes que ajudaram a construir uma identidade multicultural no município.


No espaço, fotografias ajudam a reconstruir a trajetória da comunidade e a registrar diferentes momentos da ocupação e da vida dos imigrantes. Objetos tradicionais, por sua vez, aproximam o visitante de costumes que atravessaram gerações. Entre eles estão as bonecas Hina, relacionadas ao Hinamatsuri, celebração japonesa dedicada às meninas, além dos quimonos e de elementos utilizados em festivais e eventos. “Temos muita cultura trazida pelos imigrantes”, explica o chefe do setor de turismo da prefeitura de Ivoti e guia do memorial, Matheus Heydrich . Segundo ele, cada objeto carrega uma simbologia e ajuda a apresentar ao público aspectos de uma cultura que, embora tenha uma presença histórica no Brasil, ainda é pouco conhecida por parte dos gaúchos.


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A preservação também ultrapassa as vitrines. A comunidade mantém atividades esportivas que fazem parte da tradição japonesa, como beisebol e tênis de mesa, além de treinos de kendô. Uma das integrantes da comunidade chegou a conquistar um campeonato nacional de tênis de mesa no ano passado. A conexão cultural se estende ainda ao Japão por meio da relação de Ivoti com a província de Shiga, Estado-irmão do Rio Grande do Sul. Dessa forma, o Memorial funciona como um espaço de lembrança do passado e também como uma porta de entrada para o conhecimento de costumes, práticas e tradições que continuam presentes na comunidade.


A conexão cultural com a Alemanha também é evidente, a começar por Heydrich, um descendente de alemães apaixonado pela cultura japonesa, que fala japonês, pratica kendô e recebe os turistas que visitam o memorial com um quimono típico da cultura nipônica. “As culturas se mesclam, dialogam entre elas e , desde pequenos, convivemos com as duas. Para se ter uma ideia, falo japonês, mas não falo alemão que é a pátria da minha mãe”, diz Heydrich.

O presidente da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira da Colônia Ivoti (Acenb), Paulo Toshio Tanaka, o desafio é preservar as origens diante de uma realidade em que poucos descendentes permaneceram na agricultura. “A redução da atividade rural, no entanto, não significou o desaparecimento da comunidade, muito pelo contrário: com menos pessoas trabalhando diretamente na terra, a preservação cultural ganhou importância como forma de manter viva a identidade construída ao longo de seis décadas”, afirma.


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As tradições japonesas continuam presentes em uma agenda que atravessa diferentes gerações. Entre elas está a cerimônia de início do ano, a celebração da maioridade dos jovens que completam 20 anos, o Undoukai, gincana esportiva com atividades para diferentes idades, e o Engeikai, festival cultural em que a comunidade apresenta músicas, cantos, danças, teatro e artes marciais. Há ainda o Ireisai, cerimônia de homenagem aos antepassados, que reforça a ligação entre as gerações. O esporte também ocupa espaço nessa preservação. A comunidade mantém atividades como softball, tênis de mesa e gateball. Modalidades que já fizeram parte da rotina, como sumô e judô, deixaram de ser praticadas por falta de participantes.


A professora de japonês da comunidade, Iaioi Tao, mantém as aulas como parte de um projeto iniciado décadas atrás pela Associação Cultural Esportiva Nipo-Brasileira de Ivoti (ACENB). Ela é filha de um dos fundadores da colônia e conta que o pai participou diretamente da busca pelo local onde as famílias seriam instaladas, em uma articulação que envolveu outros integrantes da comunidade e representantes da Japan International Cooperation Agency (JICA). “Meu pai é o único sobrevivente entre os fundadores, tinha uma função importante nas negociações iniciais por dominar melhor a língua portuguesa. Era ele quem estabelecia contatos e atuava como tradutor do grupo”, conta a professora.


A preocupação com a memória também resultou em iniciativas como o documentário "Furusato: um lugar para voltar", produzido pela comunidade em 2024, por meio da Lei Paulo Gustavo. Com cerca de 30 minutos, a obra reúne depoimentos de imigrantes e descendentes sobre suas experiências no Japão, no Brasil e, especialmente, em Ivoti. Essa relação entre memória e pertencimento ganha ainda mais importância diante da proximidade dos 60 anos da imigração japonesa em Ivoti, que serão celebrados em dezembro de 2026.

Família Miwa mantém a tradição da agricultura na cidade, mas busca inovação para agregar renda

Priscila Miwa faz parte de uma nova geração que tem como um dos objetivos manter viva a tradição asiática na comunidade

Priscila Miwa faz parte de uma nova geração que tem como um dos objetivos manter viva a tradição asiática na comunidade

/ANA ESTEVES/ESPECIAL/CIDADES
Entre os imigrantes que chegaram à colônia está a família Miwa, cujos antepassados saíram do Japão, rumo ao Amazonas e ao porto de Santos, antes de chegar à Colônia Japonesa de Ivoti. Hoje, a química Flávia Miwa e sua filha Priscila mantém vivas as tradições, especialmente a partir da agricultura.
A família começou no cultivo de uvas e posteriormente passou a produzir ervas medicinais. Na propriedade, as plantas são utilizadas na extração de óleos essenciais, matéria-prima para cosméticos naturais que são produzidos por Flávia. A propriedade onde a família mora também recebe escolas e visitantes interessados em conhecer o cultivo e acompanhar o processo de extração.
Para Flávia, o turismo rural amplia o papel da propriedade e permite aproximar o público da produção e da cultura japonesa. "Temos planos de ampliar as experiências, incluindo novos espaços de cultivo de uvas, piqueniques e outras atividades", diz. A nova geração também participa desse processo: os filhos são estimulados a conhecer as origens familiares, aprender japonês e atuar nas atividades de recepção. Assim, a propriedade transforma a herança de diferentes gerações em produção, conhecimento e experiências para visitantes.

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