Nas vigas de madeira encaixadas das casas no estilo enxaimel, nas plantações, nas flores, nas frutas, nos objetos guardados em um memorial e nas festas que atravessam gerações, convivem histórias de dois povos que chegaram ao Rio Grande do Sul em momentos diferentes, mas cujas trajetórias se cruzam e complementam em diferentes aspectos. Enquanto a imigração alemã começou a se estabelecer na região de Ivoti em 1826, cerca de 140 anos depois, em 1966, famílias japonesas chegaram ao município do Vale do Sinos. Entre um desembarque e outro, uma cidade foi construída com base em duas identidades, duas culturas que se entremeiam.
A aproximação entre alemães e japoneses em Ivoti não nasceu de uma tentativa de apagar diferenças, ao contrário; cada comunidade preservou língua, costumes, arquitetura, gastronomia, celebrações e formas próprias de organização. O que as aproximou foi a experiência de começar de novo, adaptar-se ao território, trabalhar a terra, criar redes de cooperação e encontrar formas de fazer a produção chegar ao mercado. É nessa convivência que a história deixa de ser apenas memória e passa a funcionar também como ativo econômico.
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Para a educadora patrimonial e presidente da Sociedade Ivotiense de Estudos Humanísticos (Siehu), Andréa Schneck, o aspecto mais interessante de Ivoti é que “as duas identidades não estão simplesmente separadas, pois a herança alemã se funde com a herança dos japoneses que vivem nessa cidade, e se transforma em legado a medida que essas heranças são significadas e quando as diferentes identidades conseguem tecer sentidos de pertencimento”.
A história japonesa começa muito depois, mas encontra um território que já tinha sido profundamente transformado pelos descendentes de alemães. Há 60 anos, em 1966, 26 famílias japonesas chegaram ao Vale das Palmeiras, em Ivoti. Eram, em sua maioria, famílias provenientes de colônias de Gravataí e Viamão, que buscavam novas oportunidades para produzir e melhorar suas condições de vida.
A diferença de idioma, religião, hábitos e origem não impediu a aproximação das famílias asiáticas com a comunidade germânica, que já ocupava o município do Vale do Sinos. "O fato de sermos semelhantes na cultura, que preza pelo respeito aos mais velhos, pela disciplina, pelos princípios e valores da origem, pela família e educação, fizeram com que pudéssemos ter uma boa relação respeitosa e amigável contribuindo para unirmos e nos fortalecermos. Respeitando nossas diferenças e valorizando as culturas germânica e japonesa, misturadas à gaúcha", afirma o presidente da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira da Colônia Ivoti (Acenb), Paulo Toshio Tanaka.
Havia, inclusive, uma afinidade econômica: os dois grupos tinham na agricultura familiar uma importante base de sustento. A produção japonesa começou especialmente com hortigranjeiros e frango de corte. Logo, porém, os produtores perceberam que não bastava plantar, mas era preciso organizar a comercialização, buscar escala e criar mecanismos coletivos para enfrentar um mercado que, sozinho e sem articulação, era difícil de alcançar.
Em 1969, surgiu a Cooperativa Hortigranjeira Mista, uma tentativa de organizar os produtores e fortalecer a comercialização em Ivoti. A produção passou por diferentes ciclos e incorporou algumas culturas, como uva e morango. A trajetória repete, em outro tempo e com outras ferramentas, uma lógica que já havia marcado a colonização alemã: a organização coletiva como resposta a dificuldades econômicas.
Para os alemães, a cooperação entre picadas ajudava a garantir serviços, comércio e produção. Para os japoneses, a associação e a cooperativa ajudaram a enfrentar desafios de mercado. Em ambos os casos, o pequeno produtor percebeu que sobreviver não dependia apenas do que acontecia apenas dentro das propriedades, mas da capacidade de construir relações fora dela para alavancar os negócios.
Os japoneses que chegaram a Ivoti mantiveram algumas práticas próprias, como o Undokai, o Engeikai, o bonsai, o origami, o shodô, a culinária e outros costumes passaram a fazer parte da vida de Ivoti e é no Memorial da Colônia Japonesa que os detalhes da cultura nipônica se encontram: são documentos, objetos, roupas e ferramentas que ajudam a contar essa trajetória. A comunidade alemã da cidade, por sua vez, preservou a arquitetura enxaimel, as tradições, a gastronomia e outras manifestações herdadas dos primeiros colonizadores.
Pelo lado germânico, a história em Ivoti iniciou dois anos após a chegada dos primeiros alemães ao Rio Grande do Sul, em 1824, com a criação da Colônia Alemã de São Leopoldo. Nessa época, eles avançaram para a localidade de Bom Jardim, onde havia uma mata fechada, cursos d'água e picadas que precisavam ser abertas. A partida da Europa tinha sido motivada por um cenário de desemprego, pobreza, transformações provocadas pela Revolução Industrial, crescimento populacional, divisão das propriedades rurais e problemas nas safras pressionavam famílias a buscar alternativas fora do continente.
"A viagem até o Brasil não significou encontrar uma vida pronta. Os primeiros grupos enfrentaram doenças, fome e mortes durante a travessia. Em São Leopoldo, precisaram improvisar moradias e aprender a lidar com uma paisagem muito diferente da europeia", diz Andréa. As primeiras moradias eram pequenas choupanas feitas de troncos, taquara, palmeira e barro. A terra era cultivada manualmente, com machados, facões, enxadas e foices.
Com o tempo surgiram os moinhos, engenhos, serrarias e uma série de ofícios. Marcenarias, ferrarias, selarias, sapatarias, curtumes, cervejarias e casas de comércio deram às picadas uma estrutura que ultrapassava a produção para consumo próprio. As comunidades dependiam umas das outras para acessar serviços e comercializar o que produziam. Foi também nesse processo que surgiu uma das maiores marcas da identidade de Ivoti: o enxaimel.
A técnica, conhecida na Europa como Fachwerkbau, utilizava estruturas de madeira encaixadas e preenchidas com taquara, barro, palha e outros materiais disponíveis. Mas a construção precisou ser adaptada à realidade brasileira. As casas europeias, preparadas para o frio e a neve, deram lugar a edificações adequadas ao clima, aos ventos e às chuvas da região.