Câmeras que leem placas de veículos, reconhecem rostos de foragidos e geram alertas em tempo real fazem parte, atualmente, da rotina de guardas municipais e órgãos de segurança em cerca de 50 municípios gaúchos que utilizam a plataforma da DGT Tecnologia, empresa de Estância Velha. A presença das soluções da empresa é mais concentrada em cidades do Vale dos Sinos, mas inclui regiões como o Vale do Taquari, o Sul e o Nordeste do RS.
Segundo a diretora de Tecnologia da DGT, Rita de Cássia dos Santos, até cerca de quatro anos atrás, as soluções de segurança eletrônica funcionavam de forma desconectada, com fabricantes e softwares distintos para cada finalidade. A empresa passou então a desenvolver aplicações próprias, concebidas para operar de modo integrado e colaborativo. “Um município que adere à plataforma passa a ter acesso a mais de mil dispositivos do ecossistema”, explica. A empresa auxilia, inclusive, na articulação de acordos de cooperação entre as guardas municipais.
A plataforma é conectada a bases como as da Polícia Rodoviária Federal, do Alerta Brasil, do Banco Nacional de Mandados de Prisão e a listas de desaparecidos da Secretaria da Segurança Pública. No reconhecimento facial, a consulta é feita nessas bases públicas, e não em dados armazenados pela DGT. “O alerta pode chegar a mais de uma força de segurança, e não apenas ao município onde a imagem foi captada. No caso de veículos com registro de furto ou roubo, o sistema pode sugerir até uma rota para a abordagem”, pontua.
A diretora afirma que o índice de assertividade do reconhecimento facial está entre 98% e 99% e que cada órgão define a similaridade mínima para que o sistema emita um alerta. Para ela, o sistema orienta, mas "a decisão, ela é policial". O operador valida o alerta em tela e o repassa a uma guarnição treinada para a abordagem, a fim de evitar que se aborde a pessoa errada ou um veículo já recuperado. A DGT oferece uma operação assistida para que os clientes definam seus procedimentos. Rita também diz que a identificação se baseia em medidas da face e que "isso não tem vieses", e acrescenta que a empresa atua em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados.
Em Novo Hamburgo, o Smart NH, operado pela Guarda Municipal, reúne cerca de 1.300 câmeras, 399 delas com reconhecimento facial, além de 165 pontos de leitura de placas. À Câmara de Vereadores, o Executivo informou custos de cerca de R$ 352 mil mensais com manutenção e de cerca de R$ 4 milhões anuais com a operação. No primeiro semestre de 2026, 97 foragidos foram presos com apoio do sistema, ante 68 no mesmo período de 2025, alta de 43%, segundo informações da assessoria de imprensa da DGT. Rita destaca o envolvimento da Guarda Municipal e do batalhão da Brigada Militar da cidade na operação dos sistemas.
Em Lajeado, o Pacto Lajeado pela Paz, desde 2019, tem 132 câmeras em 28 bairros, 42 com leitura de placas, e a central funciona junto ao 22º Batalhão de Polícia Militar. Dados da SSP apontam que furtos e roubos de veículos caíram 85% em cinco anos, e os roubos a pedestres, 89%. Os números refletem o conjunto das ações de segurança de cada município, e não apenas a tecnologia, aponta a diretora.
Municípios menores também aderiram. Em Torres, o projeto Te VI prevê 110 câmeras, 24 de cercamento, com pontos em escolas municipais e postos de saúde; a instalação começou em janeiro de 2026. Em Morro Reuter, estão previstas 30 câmeras, quatro de leitura de placas, com investimento de R$ 495 mil, entre emenda parlamentar e contrapartida da prefeitura.
Os contratos da DGT com prefeituras variam de R$ 3 mil a R$ 20 mil mensais, em municípios menores, a mais de R$ 100 mil, nas maiores. A contratação ocorre por licitação, inclusive via consórcios, ou por inexigibilidade, já que as soluções são patenteadas. Empresas privadas também podem contratar pontos e autorizar o envio de imagens à segurança pública. A Brigada Militar e a Polícia Civil usam a plataforma sem custo, o que, segundo Rita, reflete a "responsabilidade social em fazer com que isso se dissemine".
A DGT Tecnologia, de Estância Velha, que completa 20 anos em novembro, já investiu cerca de R$ 12 milhões para se converter de uma empresa integradora de soluções de terceiros para uma desenvolvedora de tecnologia própria, segundo a diretora de Tecnologia, Rita de Cássia dos Santos. Só em 2026, os aportes somam cerca de R$ 6 milhões.
Até 2022, a diretora conta que a DGT comprava hardware e software de fabricantes e os integrava para vender aos clientes. Rita afirma que a experiência mostrou a necessidade de uma solução "tropicalizada, brasileira" e totalmente integrada, o que levou ao desenvolvimento de software próprio. A empresa, originalmente de Novo Hamburgo, tem sede própria em Estância Velha há cerca de três anos e meio.
Entre os planos, estão a ampliação da base em Santa Catarina e em Mato Grosso, onde a DGT tem filiais e atende Cuiabá e municípios do interior, e um plano comercial de "dominância territorial" no Rio Grande do Sul. Também pretende abrir a plataforma a outras integradoras, o que, segundo Rita, a colocaria como fabricante de aplicações para segurança.
A diretora esteve recentemente na Colômbia, com o diretor executivo da empresa, em um congresso sobre mobilidade urbana. Vários municípios demonstraram interesse em adquirir o cercamento eletrônico em ampla escala. Para atender ao mercado colombiano, a aplicação precisará ser adaptada: "agora temos esse dever de casa", diz Rita.
Em Novo Hamburgo, a DGT apresentou em 31 de julho, no Calçadão Osvaldo Cruz,
um drone autônomo que deve reforçar a Guarda Municipal. Segundo Rita, não há data para o início da operação, que depende do cronograma do município. Uma equipe está em treinamento para operar o equipamento, que, segundo a matéria publicada pelo Jornal Cidades em julho, tem voo autônomo por inteligência artificial, câmera termográfica, transmissão em 4K e raio de até 10 quilômetros. Ele será mais um dispositivo de captura de imagens conectado à plataforma.
Os sistemas em operação nas cidades gaúchas combinam quatro camadas, que trabalham juntas:
• Cercamento eletrônico: câmeras com leitura automática de placas nas entradas, saídas e vias principais cruzam cada veículo com bases de roubo, furto e restrição. Quando um carro procurado entra na cidade, a central recebe o alerta.
• Videomonitoramento com inteligência artificial: câmeras de alta definição com análise de comportamento sinalizam situações de risco, como aglomerações, movimentações atípicas ou veículos parados em locais sensíveis.
• Reconhecimento facial: as imagens são comparadas com bancos de pessoas procuradas pela Justiça.
• Centrais integradas: operadores validam os alertas e acionam a equipe mais próxima. Em cidades como Lajeado, a central funciona junto à Brigada Militar, e guardas e policiais trabalham a partir da mesma informação.