O endereço da rua dos Andradas, que por mais de uma década permaneceu associado à maior tragédia de Santa Maria, está assumindo uma nova função. No terreno onde funcionava a Boate Kiss, está em construção o Memorial às Vítimas da tragédia, espaço pensado não apenas para preservar a memória das 242 pessoas que morreram no incêndio de 27 de janeiro de 2013, mas também para transformar o que aconteceu naquela madrugada em instrumento de educação e prevenção.
A proposta ganha importância à medida que surge uma geração que era criança ou sequer havia nascido quando ocorreu a tragédia. Presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), Flávio Silva diz que impedir que a Kiss seja esquecida se tornou uma das preocupações dos familiares.
"A gente pensa muito nisso. E o memorial é uma das coisas que acreditamos que irá manter essa chama acesa para que a tragédia não caia no esquecimento", afirma. Além de apresentar as histórias das vítimas, o espaço deverá explicar o que ocorreu dentro da boate e os fatores que contribuíram para o incêndio.
"Não teremos nossos filhos de volta fisicamente, mas fazemos essas ações porque queremos impedir que novas famílias e novos jovens passem pelo que eles passaram e pelo que nós continuamos passando até hoje", completa.
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A transformação do terreno também tem um significado particular para as famílias. Silva relata que há mães que até hoje evitam passar pela quadra onde funcionava a Kiss. Ele próprio entrou diversas vezes no antigo prédio depois da tragédia para tentar compreender se as vítimas tiveram alguma possibilidade de escapar. Recorda obstáculos no caminho até a saída e problemas relacionados aos equipamentos de prevenção. "Aquilo mostra que não havia a preocupação mínima que deveria existir com a segurança contra incêndio", diz.
É justamente a segurança que acabou interferindo também na construção do Memorial. A previsão de um auditório para cerca de 130 pessoas alterou a classificação de risco do projeto e tornou necessária uma segunda saída de emergência.
Como o terreno é cercado por outras edificações, a solução encontrada foi construir um corredor enclausurado, que partirá dos fundos, passará pela parte inferior do prédio e chegará à calçada da rua dos Andradas. A mudança acrescentou mais de R$ 1 milhão ao projeto.
Para Silva, a adequação carrega um significado que vai além da própria obra. "Se fizéssemos isso, estaríamos reproduzindo exatamente a lógica que criticamos: deixar a segurança para depois. Não podemos construir um memorial dedicado à prevenção cometendo erros na própria segurança da edificação", afirmou
O Memorial também deverá funcionar como espaço educativo. A AVTSM trabalha com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) na elaboração do projeto "Educar para Prevenir", que pretende levar a temática da prevenção às escolas desde os primeiros anos do Ensino Fundamental.
A intenção é desenvolver materiais para crianças, atividades em conjunto com os Bombeiros e, futuramente, utilizar o próprio Memorial para receber estudantes. A associação também projeta a realização de seminários sobre segurança no local.
A inauguração, porém, ainda levará tempo. O prazo contratual vigente previa a entrega em 29 de setembro, mas a prefeitura de Santa Maria confirma que a data não será cumprida e ainda não estabelece uma nova previsão. A reportagem questionou a prefeitura sobre o investimento total previsto no Memorial, mas não obteve retorno.
Segundo Jéferson Nunes, superintendente de Desenvolvimento Econômico do município e gestor do contrato, os trabalhos estão atualmente concentrados na conclusão da estrutura de concreto. Depois disso, ainda serão executadas paredes, pisos, acessos, cobertura e acabamentos. Nos últimos meses, o canteiro recebeu serviços de demolição de estruturas que precisaram ser adequadas, escavações, fundações e montagem de armaduras.
Flávio Silva, por sua vez, estima que a conclusão possa ocorrer entre março e maio de 2027, ou até mais tarde. Para os familiares, entretanto, a prioridade é que a obra não avance atropelando justamente os princípios que pretende preservar.
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