Porto Alegre,

Publicada em 08 de Setembro de 2026 às 18:44

Sobrevivente da Boate Kiss transformou trauma em estudo

Maike Adriel dos Santos, em 2021, durante os julgamentos do Caso Kiss

Maike Adriel dos Santos, em 2021, durante os julgamentos do Caso Kiss

TJRS/Divulgação/JC
Compartilhe:
Maike Adriel dos Santos ainda olha para a saída. O gesto é quase automático quando entra em uma festa, show ou ambiente com muita gente. Observa a sinalização, procura os extintores, avalia a lotação e identifica por onde poderia deixar o local em uma emergência. Aos 34 anos, o sobrevivente da Boate Kiss voltou a frequentar festas normalmente. O cuidado, porém, permaneceu como uma das marcas daquela madrugada.
Maike Adriel dos Santos ainda olha para a saída. O gesto é quase automático quando entra em uma festa, show ou ambiente com muita gente. Observa a sinalização, procura os extintores, avalia a lotação e identifica por onde poderia deixar o local em uma emergência. Aos 34 anos, o sobrevivente da Boate Kiss voltou a frequentar festas normalmente. O cuidado, porém, permaneceu como uma das marcas daquela madrugada.
Em 2013, Maike cursava Desenho Industrial em Santa Maria. Na noite de 27 de janeiro, foi à Kiss acompanhado de um grupo de amigas. Não estava particularmente animado: roqueiro, não gostava do repertório predominantemente sertanejo e estava com pouco dinheiro. Acabou aceitando o convite já que era aniversário de uma delas. Somente ele e uma das meninas sobreviveram ao incêndio.
Dentro da boate, ouviu alguém gritar "incêndio", mas inicialmente imaginou que a fumaça fosse gelo seco. A dimensão do que ocorria ficou evidente quando a multidão começou a tentar deixar o local. Maike estava de mãos dadas com uma amiga, mas os dois se separaram em meio aos empurrões. Ela morreu. Ele perdeu a consciência e não se recorda de como conseguiu sair. Depois de acordar na calçada, foi levado ao hospital, passou por coma induzido e permaneceu semanas internado.
A experiência acabaria atravessando também sua formação. Maike concluiu Desenho Industrial e transformou a Kiss em objeto do Trabalho de Conclusão de Curso, no qual avaliou as condições de percepção da sinalização de segurança em ambientes edificados. A pesquisa analisou especificamente a boate e ouviu outros 11 sobreviventes. O trabalho apontou uma sequência de falhas e ganhou repercussão nacional.
Hoje, Maike está formado, trabalha e continua morando em Santa Maria, cidade que nunca cogitou abandonar por causa da tragédia. Ele avalia que sobreviver modificou principalmente sua maneira de encarar problemas e decisões.
"As cicatrizes viraram medalhas, histórias. Então isso resume muito em resiliência", afirma. "Me fez refletir muita coisa sobre a vida e ter outras visões, outras perspectivas de direcionamento, de escolhas e decisões", continua.
A recuperação da relação com ambientes fechados, entretanto, levou tempo. Maike conta que demorou cerca de dois anos para voltar a entrar em um local semelhante a uma casa noturna. Nos primeiros meses, até mesmo andar de ônibus era difícil pela sensação provocada pela aglomeração.
Com o passar dos anos, a intensidade diminuiu. Hoje ele consegue sair e se sente confortável em festas, mas reconhece que determinadas situações continuam acionando uma espécie de alerta. Em eventos muito cheios, o desconforto pode reaparecer. "A gente nunca esquece um trauma", resume.
O comportamento se manifesta nos pequenos detalhes. Ao entrar em um ambiente, Maike diz prestar atenção em placas de emergência, extintores, portas e quantidade de pessoas. Não precisa decidir conscientemente fazer isso: depois da Kiss, tornou-se parte da forma como observa os lugares.
É justamente essa atenção que ele gostaria de transmitir a quem cresceu depois de 2013. Para Maike, uma geração que era muito pequena ou sequer havia nascido na época precisa conhecer a tragédia, inclusive para distinguir informações corretas do conteúdo equivocado que circula nas redes sociais.
"Estudar sobre o caso, estudar sobre outros casos parecidos, para se informar, estar bem informado, com informações corretas", defende. Para ele, conhecer previamente o local de uma festa ou de um grande evento e observar suas condições de segurança são cuidados simples que podem fazer diferença.

Notícias relacionadas