Maike Adriel dos Santos ainda olha para a saída. O gesto é quase automático quando entra em uma festa, show ou ambiente com muita gente. Observa a sinalização, procura os extintores, avalia a lotação e identifica por onde poderia deixar o local em uma emergência. Aos 34 anos, o sobrevivente da Boate Kiss voltou a frequentar festas normalmente. O cuidado, porém, permaneceu como uma das marcas daquela madrugada.
Em 2013, Maike cursava Desenho Industrial em Santa Maria. Na noite de 27 de janeiro, foi à Kiss acompanhado de um grupo de amigas. Não estava particularmente animado: roqueiro, não gostava do repertório predominantemente sertanejo e estava com pouco dinheiro. Acabou aceitando o convite já que era aniversário de uma delas. Somente ele e uma das meninas sobreviveram ao incêndio.
Dentro da boate, ouviu alguém gritar "incêndio", mas inicialmente imaginou que a fumaça fosse gelo seco. A dimensão do que ocorria ficou evidente quando a multidão começou a tentar deixar o local. Maike estava de mãos dadas com uma amiga, mas os dois se separaram em meio aos empurrões. Ela morreu. Ele perdeu a consciência e não se recorda de como conseguiu sair. Depois de acordar na calçada, foi levado ao hospital, passou por coma induzido e permaneceu semanas internado.
A experiência acabaria atravessando também sua formação. Maike concluiu Desenho Industrial e transformou a Kiss em objeto do Trabalho de Conclusão de Curso, no qual avaliou as condições de percepção da sinalização de segurança em ambientes edificados. A pesquisa analisou especificamente a boate e ouviu outros 11 sobreviventes. O trabalho apontou uma sequência de falhas e ganhou repercussão nacional.
Hoje, Maike está formado, trabalha e continua morando em Santa Maria, cidade que nunca cogitou abandonar por causa da tragédia. Ele avalia que sobreviver modificou principalmente sua maneira de encarar problemas e decisões.
"As cicatrizes viraram medalhas, histórias. Então isso resume muito em resiliência", afirma. "Me fez refletir muita coisa sobre a vida e ter outras visões, outras perspectivas de direcionamento, de escolhas e decisões", continua.
A recuperação da relação com ambientes fechados, entretanto, levou tempo. Maike conta que demorou cerca de dois anos para voltar a entrar em um local semelhante a uma casa noturna. Nos primeiros meses, até mesmo andar de ônibus era difícil pela sensação provocada pela aglomeração.
Com o passar dos anos, a intensidade diminuiu. Hoje ele consegue sair e se sente confortável em festas, mas reconhece que determinadas situações continuam acionando uma espécie de alerta. Em eventos muito cheios, o desconforto pode reaparecer. "A gente nunca esquece um trauma", resume.
O comportamento se manifesta nos pequenos detalhes. Ao entrar em um ambiente, Maike diz prestar atenção em placas de emergência, extintores, portas e quantidade de pessoas. Não precisa decidir conscientemente fazer isso: depois da Kiss, tornou-se parte da forma como observa os lugares.
É justamente essa atenção que ele gostaria de transmitir a quem cresceu depois de 2013. Para Maike, uma geração que era muito pequena ou sequer havia nascido na época precisa conhecer a tragédia, inclusive para distinguir informações corretas do conteúdo equivocado que circula nas redes sociais.
"Estudar sobre o caso, estudar sobre outros casos parecidos, para se informar, estar bem informado, com informações corretas", defende. Para ele, conhecer previamente o local de uma festa ou de um grande evento e observar suas condições de segurança são cuidados simples que podem fazer diferença.