Gustavo Cadore deixou Santa Maria, mas nem de perto para fugir dela. Viveu na cidade até 2020, mudou-se para Santa Cruz do Sul para cursar medicina e, atualmente, mora em Capão da Canoa, no Litoral Norte gaúcho. Ainda assim, retorna com frequência. Parte da família está em Santa Maria, assim como a namorada, e as lembranças que preserva do município não se resumem à madrugada que quase lhe tirou a vida.
"Não tenho mágoa de Santa Maria. Tenho boas recordações da cidade. Não é porque aconteceu uma coisa muito ruim que isso estragou a minha visão sobre tudo envolvendo ela", afirma o sobrevivente da Boate Kiss, hoje com 35 anos.
Sua trajetória nos últimos 13 anos ajuda a dimensionar a distância entre aquele janeiro de 2013 e a vida atual. Depois do incêndio, Gustavo ficou em coma. Ao acordar, atividades elementares haviam se tornado desafios.
"Eu estava dependente para tudo. Não conseguia nem tomar um copo de água sozinho", recorda. Nos primeiros dias, precisava de três ou quatro pessoas para ajudá-lo a sair da cama. Caminhava poucos passos antes de precisar retornar. "Via as pessoas caminhando e pensava: 'Nossa, como elas conseguem? Parece tão fácil'."
Na época da Kiss, Gustavo estava perto de concluir o doutorado em Medicina Veterinária, na área de Virologia. Faltavam cerca de 45 a 60 dias para a defesa da tese. A recuperação atrasou os planos, mas ele concluiu a formação e seguiu por um período na área. Anos depois, tomou uma decisão que mudaria sua trajetória: voltou à universidade para cursar medicina.
A vontade já existia antes do incêndio, mas Gustavo acredita que sobreviver tornou o desejo mais forte. Depois de ter recebido ajuda durante a própria recuperação, cresceu a vontade de trabalhar diretamente com outras pessoas. "Se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja, já vale a pena. Para mim, já compensa tudo aquilo que vivi e tudo o que modifiquei na minha vida", complementa
A Kiss também mudou a maneira como ele encara escolhas. Gustavo diz ter passado a valorizar mais o presente e a perseguir projetos que poderiam permanecer apenas como vontade. "Acho que uma coisa só se torna impossível quando tu desiste. É algo que carrego comigo desde a época da tragédia", diz.
O tempo amenizou parte das marcas - ainda que ele carregue cicatrizes físicas, mas não apagou comportamentos incorporados depois do incêndio. Sempre que entra em uma festa ou ambiente desconhecido, Gustavo procura identificar possíveis rotas de saída. Não precisa pensar conscientemente no que ocorreu em 2013: a avaliação acontece de forma involuntária.
Outras lembranças aparecem de maneira mais explícita. A proximidade de 27 de janeiro ainda faz com que episódios daquela época retornem. Uma experiência particularmente difícil ocorreu ao assistir à série da Netflix sobre a tragédia. "Quando vi a representação do início do incêndio, senti o coração acelerar e a ansiedade aumentar. Parecia que estava lá de novo", conta.
No cotidiano, porém, Gustavo diz não viver permanentemente preso àquela noite. Até as cicatrizes das queimaduras nos braços foram incorporadas à própria imagem. Para ele, o passar dos anos trouxe conforto e algum alívio.
Quando pensa nos jovens que não viveram 2013, Gustavo não escolhe como principal mensagem o medo de que outra tragédia aconteça. Prefere falar sobre aquilo que aprendeu quando acordou sem conseguir sequer beber um copo de água sozinho. "Talvez o principal seja aproveitar a vida, porque a vida é um sopro", afirma. "Passei a valorizar muito aquilo que tenho agora", conclui.