Eram 21h30min de uma quarta-feira com clima ameno em pleno inverno em Caxias do Sul. Na sede da prefeitura, apenas o piso superior ainda estava iluminado para mais uma aula do curso de Português para Imigrantes. Vindos do Haiti, do Peru, de Cuba e da Venezuela, os alunos da professora Fabiana Perotoni, diversos também na faixa etária, dos 15 aos 72 anos, exerciam a esperança descobrindo, com as particularidades do idioma, um universo de novas possibilidades.
Um painel com a imagem de uma locomotiva e de um extenso parreiral no espaço de leitura e descanso dos servidores da prefeitura de Caxias do Sul, retratando marcos do desenvolvimento econômico a partir da chegada dos colonos europeus, foi a imagem de fundo para o retrato do casal de venezuelanos Angelimar Banilla, 50 anos, e Javier Diaz, 42, na companhia da filha, Zaid Diaz, 18, e da neta Sabella Bonilla, de cinco anos, quando participavam de mais uma aula. A família está no Brasil há cinco anos, e escolheu Caxias do Sul pela segurança, pela educação de seu povo e pelas oportunidades de trabalho.
Na Venezuela, ambos tiveram carreiras de bombeiros e em setores de educação, mas pela dificuldade de validação do diploma eles estão refazendo seus percursos formativos. Os pais retornaram ao ensino médio com a filha, por entender que esse é o caminho para uma melhor colocação no futuro. “É maravilhoso residir em Caxias”, afirma Javier.
Embora desempregados recentemente da indústria metalmecânica, ambos se sentem agradecidos pelo que já construíram por aqui. “Chegamos somente com as malas nas mãos e hoje já conseguimos muitas coisas, especialmente a tranquilidade de um bom lugar para viver, e a saúde mental. Esperamos em breve encontrar uma outra colocação”, disse.
Colega do curso e há quatro anos no Brasil, Jesús Perales, de 49 anos, veio a Caxias para reencontrar a mulher, Armireny Calderon Perez, 35, que já estava na cidade três anos antes, vinda com apoio da igreja. A vida do casal se organizou rapidamente e, em menos de um mês, ele já tinha carteira assinada em metalúrgica. Desempregado desde fevereiro, ainda se sente muito feliz em viver na cidade. “Gosto do clima, das pessoas daqui, que são muito gentis. A comunidade de venezuelanos está crescendo, o que nos faz sentir mais em casa”, afirma.
Com a esposa empregada e os filhos, Isaias Miguel, de 20 anos, Jaer Xavier, de 14, e Rubitsay Samira, de 8, estudando, Jesús afirma encontrar em Caxias a paz, a estabilidade e a esperança que não puderam ter na Venezuela. “Há oportunidades de crescimento pessoal que não se tem, infelizmente, no nosso país, que atravessa um momento social, econômico e político muito complicado”, compara.
O primogênito permaneceu quatro anos na Venezuela, enquanto o casal se organizava, e chegou recentemente, mas já está trabalhando, de acordo com Jesús, que no momento da entrevista recordava que era data do aniversário de sua mãe, que permanece na Venezuela, assim como seus irmãos e sobrinhos. Profissionalmente, a intenção do imigrante é obter um diploma em Economia. Já sua mulher é engenheira em Informática, mas até agora ela não conseguiu fazer a revalidação e deverá seguir outro rumo.
Também venezuelana, Zurisaday Bressan, 23 anos, veio para Caxias com a família desde Boa Vista, Roraima, onde o pai teve seu primeiro trabalho no Brasil, há quatro anos. A família gosta muito da cidade, considerando a oferta de empregos. Embora já tenha trabalhado em uma indústria plástica, hoje está desempregada. Mãe de um menino de quatro anos, Liam Manuel, busca um futuro melhor para ambos, enquanto aperfeiçoa-se no idioma com vistas a obter um emprego noturno em empresa área metalúrgica.
Os amigos cubanos Rafael Sollet, 54 anos, e Arelis Mendoza Delis, 57, demonstram satisfação com a escolha por Caxias do Sul e as opções de aperfeiçoamento encontradas. Ambos vieram motivados por laços familiares. No caso dela, que está há dois anos no país, ajudar a filha, médica, que teve um bebê no Brasil, terminou por lhe revelar uma cidade "tranquila".
Sollet, que veio com a esposa Yaneya há cerca de dois anos e meio, seguia o movimento do filho mais novo, que chegou primeiro ao Brasil há quatro anos. A escolha de Caxias foi motivada pela vinda de um amigo do jovem à cidade, que a indicou como uma terra de boas oportunidades. A mudança teve seu custo. "Foi uma decisão muito complicada: seguir nossos filhos, a necessidade de estar com eles, e ao mesmo tempo termos que deixar toda nossa vida: família, amigos, costumes. Mas tem sido muito bom. A família expandiu com as duas noras e, agora, um neto, que tem sete meses e é brasileiro-cubano-venezuelano", orgulha-se.
Sollet diz que seus filhos são professores de inglês e de ensino fundamental, seguindo os passos dos pais. "Em Cuba, fui professor universitário, lecionando Arte e Teologia, após uma extensa formação. Aqui é diferente, e na dificuldade de revalidar os títulos, vamos buscando outros empregos, sem perder a esperança. O mundo todo está em uma transição complicada e muito perigosa hoje em dia", reflete.
Para o senegalês Mamadou Abib Diallo, 41 anos, deixar o país de origem em busca de oportunidades faz parte de sua cultura. Ele destaca que a motivação para a mudança não decorre de guerras ou grandes crises, mas de uma busca por melhores condições de vida que já se tornou natural entre as novas gerações de senegaleses.
Abib deixou a cidade natal, Kaolack, que fica a cerca de 200 quilômetros da capital, em 2014, motivado pela vinda de um amigo. A partir da chegada em São Paulo, optou por Caxias do Sul por entender que encontraria condições de trabalho. Começou atuando em um restaurante. Foi nesse ambiente que aprendeu as primeiras palavras em português, com um colega brasileiro que se preparava para se mudar para o Canadá. Tendo no francês um segundo idioma, Abib estabeleceu com ele essa ponte linguística que favoreceria seu entrosamento.
Posteriormente, o senegalês trabalhou em metalúrgica e na construção civil. Ele afirma que o começo foi difícil. Seu ofício no Senegal, de costureiro, foi ficando para trás. Hoje, ele lida com peças de vestuário como varejista, alocado no Centro de Capacitação e Comércio, depois de ter passado alguns anos como ambulante. Nas ruas, enfrentava os rigores da fiscalização que, muitas vezes resultaram na perda de sua mercadoria, além dos desconfortos do frio, da chuva e do calor ao longo das estações.
Ainda em processo de naturalização, o imigrante conta que sente falta do clima tropical de seu país e do afeto de amigos e familiares que ficaram por lá. A comunidade muçulmana no Brasil é um ponto de apoio. Embora viva só, conheceu na companhia desse grupo alguns destinos turísticos do Rio Grande do Sul, como São Francisco de Paula e Torres.
Nesses anos, conseguiu retornar à África em férias, para onde sonha regressar definitivamente um dia. Nos supermercados locais, encontra quase tudo o que necessita para se alimentar de acordo com o seu costume e, assim, diminuir a saudade de casa, com exceção dos peixes, mais abundantes no Senegal.