Porto Alegre,

Publicada em 11 de Agosto de 2026 às 18:08

Caxias do Sul volta a ser ponto de partida para a vida de imigrantes

Cidade da Serra Gaúcha, que há 151 anos foi local de chegada para italianos vindos da Europa, agora se acostuma a abrigar venezuelanos, senegaleses e haitianos, dentre outros, que buscam uma segunda chance

Cidade da Serra Gaúcha, que há 151 anos foi local de chegada para italianos vindos da Europa, agora se acostuma a abrigar venezuelanos, senegaleses e haitianos, dentre outros, que buscam uma segunda chance

Gabriel Gravas/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Compartilhe:
Da vila que remonta aos primeiros anos de história da cidade, no Parque de Eventos da Festa da Uva, à réplica da funilaria que encanta crianças e adultos no terraço do antigo complexo tombado da Metalúrgica Eberle, bem no Centro, Caxias do Sul reconhece a imigração italiana como alicerce de seu desenvolvimento. Passados 151 anos da chegada das primeiras famílias, o maior município do interior do Estado em Produto Interno Bruto (PIB) e em população (463.501 habitantes pelo Censo de 2022) a cidade volta a receber um fluxo migratório, mas de países cuja situação humanitária é crítica. A cidade é morada para cerca de 30 mil imigrantes, em sua maioria venezuelanos e haitianos em busca de um futuro melhor. 
Da vila que remonta aos primeiros anos de história da cidade, no Parque de Eventos da Festa da Uva, à réplica da funilaria que encanta crianças e adultos no terraço do antigo complexo tombado da Metalúrgica Eberle, bem no Centro, Caxias do Sul reconhece a imigração italiana como alicerce de seu desenvolvimento. Passados 151 anos da chegada das primeiras famílias, o maior município do interior do Estado em Produto Interno Bruto (PIB) e em população (463.501 habitantes pelo Censo de 2022) a cidade volta a receber um fluxo migratório, mas de países cuja situação humanitária é crítica. A cidade é morada para cerca de 30 mil imigrantes, em sua maioria venezuelanos e haitianos em busca de um futuro melhor. 
“Simplesmente eles vêm e começam suas vidas aqui”, afirma Caroline Bertelli, gerente do Centro de Informações ao Imigrante da prefeitura de Caxias do Sul (Ciai). Um parâmetro são as cerca de 8 mil carteiras de trabalho assinadas para imigrantes em 2026, uma vez que o movimento costuma envolver as famílias desses trabalhadores, muitos deles informais. O serviço atende, principalmente, as demandas de regularização migratória, pedidos de refúgio e autorização de residência. Realiza, ainda, encaminhamentos para outros setores públicos. A cidade não dispõe de um observatório para informações mais precisas. “No último Censo, não constam informações sobre essas pessoas, então se trabalha com estimativas, que somam dados de ações complementares, como as realizadas pelo Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), Organização da Sociedade Civil”, explica.
O Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra) da Polícia Federal dá conta de que, somente em 2024, 406 pessoas apontaram Caxias do Sul como destino, o maior número desde 2017. No ano anterior, em 2023, foram 288 solicitações. Essas famílias vinham de países como Cuba, com 260 solicitações, Venezuela, com 54 naquele ano, e Paraguai, com 15. Como a mobilidade é alta, os dados não servem para atestar a permanência no município.
Boa parte dos imigrantes costuma chegar ao Brasil por Pacaraima, no estado de Roraima, que faz fronteira com a Venezuela, onde existe uma operação de acolhida do governo. “Lá eles são documentados e recebem apoio para a interiorização. Se chegam a Caxias nessa condição, não passam, necessariamente, pelos serviços locais. Talvez adiante, na renovação dos documentos”, detalha Caroline. 
O que se percebe nos atendimentos é uma pequena redução do fluxo ao longo deste ano, o que pode ser atribuído a mudanças políticas no país vizinho. Já o duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho, com mais de 6,1 mil vítimas fatais, não parece estar motivando novos deslocamentos. “Atualmente, há uma dificuldade de agenda com a Polícia Federal. Também fica difícil supor uma chegada motivada pelo terremoto porque os venezuelanos atravessam a fronteira e se dispersam para diversas cidades do Brasil. Talvez lá na fronteira, sim, eles possam ter observado aumento de entradas”, avalia a gerente.
Monumento ao Imigrante é uma das edificações que lembra a chegada de italianos à cidade | Gabriel Gravas/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Monumento ao Imigrante é uma das edificações que lembra a chegada de italianos à cidade Gabriel Gravas/DIVULGAÇÃO/CIDADES
Para o coordenador do Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), Adriano Pistorelo, a imigração venezuelana é um fluxo contínuo, não está diretamente ligada a eventos como terremotos, mas à busca por oportunidades. O município está preparando, com a Organização Mundial para Imigrações (OIM) a Trilha de Governança Migratória, que irá culminar no alinhamento de um plano. A expectativa é de que, a partir desse trabalho, que envolve entrevistas com as famílias, se obtenha mais dados locais e se promova um acompanhamento dos imigrantes desde a chegada para o atendimento de necessidades básicas, de formação e de trabalho. 
No mês de agosto, foi realizada assinatura do Memorando de Entendimento com a Agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para as Migrações e a Assinatura da Adesão ao Programa Indústria Acolhedora com a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). A cidade foi escolhida, com outras seis, para a fase piloto da iniciativa por ser a segunda que mais recebe imigrantes no Estado, atrás somente de Porto Alegre. O projeto já está em andamento em Passo Fundo e Erechim.
“Para imigrantes que fazem parte do Cadastro Único (CadÚnico), inseridos em benefícios como o Bolsa Família, a intenção é auxiliar na profissionalização, para que possam trabalhar e desenvolver novos projetos de vida”, diz Caroline Bertelli. Desempregados que chegarem ao Ciai ou ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras) serão direcionados para o projeto, contando com o viés profissionalizante e de empregabilidade. O diferencial está na resposta a demandas específicas do mercado de trabalho, desde a formatação do curso até a contratação. “Por exemplo, a indústria precisa de operadores de empilhadeira. Se não houver esse curso, ele será criado para que o aluno já saia praticamente empregado. E eles também têm uma atuação com os que já trabalham nas empresas, para que possam seguir aprendendo e evoluindo nos cargos”, explica.

Atendimentos a imigrantes na cidade

• De 2020 a 2026, o Centro de Informações ao Imigrante de Caxias do Sul atendeu cerca de 9 mil imigrantes de 58 nacionalidades
• São 8 mil imigrantes inscritos no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged)
• Na rede municipal estão matriculados 2 mil alunos imigrantes 
• Mais de 1.100 alunos imigrantes frequentam a rede estadual
• Cerca de 7 mil imigrantes estão inscritos no Cadastro Único
Fonte: Caroline Bertelli, gerente do Centro de Informações ao Imigrante (CIAI)

Notícias relacionadas