“Eu era peregrino e me acolheste” (Mateus 25:35). A citação bíblica é um lema para as irmãs scalabrinianas que têm como carisma o cuidado com o migrante. A congregação criou há 42 anos em Caxias do Sul o Centro de Assistência ao Migrante (CAM), referência na recepção e integração dessas pessoas que, por seu pioneirismo, oferece suporte a outras entidades em 57 municípios.
O CAM atua em mais de 27 países, focando na humanização e defesa dos direitos dos migrantes. Na entidade, o termo migrante é usado de forma abrangente, incluindo imigrantes, refugiados e apátridas, conforme a lei de migração brasileira. O foco do atendimento é para migrantes internacionais e refugiados, embora não recusem atendimento aos internos.
Quando o serviço se estabeleceu, os fluxos eram predominantemente dentro do Brasil. A migração de estados do Nordeste para o Sudeste já arrefecia, mas vivia-se um forte êxodo rural, levando as pessoas a buscarem oportunidades nas cidades mais industrializadas, como Caxias. A configuração foi mudando por volta de 2010, quando um catastrófico terremoto no Haiti levou à morte de mais de 200 mil pessoas e afetou cerca de 3 milhões. Estima-se que cerca de 200 mil haitianos vivam atualmente no país.
O coordenador do CAM, Adriano Pistorelo, relata que a entidade oferece uma gama de serviços essenciais, organizados em diversos pilares, como proteção, do qual constam a regularização migratória e a conexão com políticas de assistência social; meios de vida e empregabilidade, auxiliando na inclusão em vagas de emprego; oferta de aulas de português e formação profissional em parceria com o Sistema S; Saúde mental, com atendimento a questões relacionadas ao deslocamento, traumas e separação familiar, entre outros.
Especialistas em legislação migratória e política acompanham a manutenção dos direitos e a contestação de negativas ilegais. “O CAM trabalha para que o migrante seja visto como parte da sociedade, promovendo a cultura de paz, a coexistência pacífica e a valorização da diversidade cultural”, resume. Nesse contexto, mesmo em uma cidade que tem a imigração como marco, o coordenador observa ainda resistências, em geral baseadas em preconceitos.
Ele lembra que, embora haja grande procura, o CAM não funciona como agência de empregos. “Busca, sim, humanizar a relação empregador-migrante, combatendo a visão de que eles são apenas mão de obra barata e disponível para qualquer vaga”, diz. Ainda segundo o Pistorelo, um dos empecilhos para a plena integração está na revalidação dos diplomas. “A ideia de que o imigrante está vindo para tirar as vagas de brasileiros é um mito. Migrantes qualificados (advogados, professores…) frequentemente não conseguem revalidar seus diplomas, acabando em cargos de menor qualificação, como produção ou colheita”, afirma.