O desafio de atender às demandas da indústria e do comércio em Caxias do Sul motiva ações de qualificação para a empregabilidade. A Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC Caxias) não dispõe de um levantamento próprio que permita quantificar a participação dos imigrantes na economia caxiense mas, de acordo com seu presidente, Ubiratã Rezler, a entidade percebe no dia a dia das empresas e a partir do contato com instituições de acolhimento aos imigrantes que eles vêm contribuindo para suprir parte da demanda por mão de obra em diferentes segmentos, especialmente na indústria, mas também fortemente no comércio varejista.
“Em uma cidade que convive há anos com dificuldades para preencher vagas, toda força de trabalho disposta a construir uma nova trajetória profissional é bem-vinda e tem papel importante para a manutenção da atividade econômica”, diz Rezler. Ele também observa que muitos desses profissionais chegam com formação técnica ou superior e experiência em suas áreas de atuação. No entanto, barreiras como a revalidação de diplomas e o reconhecimento da formação obtida em seu país de origem dificultam que eles ocupem funções compatíveis com sua qualificação e, com isso, acabam ingressando em atividades que exigem menor especialização.
Entre as iniciativas está a abertura, em 2025, do Centro de Capacitação e Comércio, criado no espaço do antigo prédio do Caxias Plaza Shopping, bem no Centro. O município criou o espaço, coordenado pela secretaria do Turismo e Desenvolvimento Econômico, que conta com apoio de 60 parceiros para a manutenção de suas atividades. De acordo com o secretário adjunto de Turismo e Desenvolvimento Econômico, Silvio Tieppo, embora seja aberto à comunidade de forma geral, há uma boa adesão de imigrantes aos programas de capacitação, tanto para o empreendedorismo como para a qualificação destinada à inserção no mercado de trabalho. Em 2025, mais de 2,4 mil vagas de capacitação foram abertas, atendendo a demandas da comunidade.
O Centro de Capacitação e Comércio comemorou mais recentemente, o aporte do governo do Estado para 553 vagas, dentro do programa RS Qualificação Recomeçar. O índice de conclusão dos cursos alcança os 80%, o que é considerado ótimo, segundo Tieppo. A gestão das vagas é feita pelo Centro, que realiza as entrevistas com os interessados. Ao final do curso, alunos com comprovada frequência e aproveitamento têm direito a bolsa. Imigrantes ocupam vagas remanescentes. Em algumas modalidades, cerca de 50% dos matriculados são venezuelanos.
Os ex-ambulantes foram registrados como microempreendedores individuais, com apoio da Sala do Empreendedor, presente no local, programa municipal em parceria com o Sebrae RS dedicado a oferecer orientação, formalização, capacitação e acompanhamento. Contribuições com aluguel e condomínio fazem parte das obrigações desses comerciantes. A medida abrange indiretamente cerca de 100 pessoas, entre elas, um brasileiro.
Os cerca de 3,1 mil estudantes imigrantes que frequentam a educação básica de Caxias do Sul enfrentam dificuldades de integração, enquanto para os professores é dado pouco suporte para o acolhimento e a resolução de possíveis conflitos em sala de aula. Apresentar sugestões de trabalho para que a escola possa se estabelecer como ambiente de trocas e aprendizados potencializados pelas diferenças faz parte dos objetivos de um material interativo disponibilizado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), por meio dos programas de Pós-Graduação em Letras e Cultura (PPGLET) e de Línguas Estrangeiras, em parceria com a Cátedra Sérgio Vieira de Mello.
Mais de 50 nacionalidades estão representadas nas escolas de Caxias, 90% desses estudantes oriundos da Venezuela. Para o docente do PPGLET, Márcio Miranda Alves, com a disponibilização do material "Educação e migração: propostas para o cotidiano escolar" se pretende ajudar no enfrentamento de problemas como o preconceito e o bullying, que levam à exclusão. "A barreira linguística inicial, o jovem consegue superar em alguns meses, mas há outros enfrentamentos. Buscamos propor atividades e reflexões com embasamento teórico a partir de algumas situações de conflito pesquisadas na realidade escolar", explica.
A formatação, como um quiz, com feedback fundamentado e links para aprofundamento, se torna mais atrativa. Entre as propostas, o compartilhamento de experiências positivas, a comunicação que permita afirmar as identidades e a adaptação de algumas atividades enquanto a expressão na língua estrangeira ainda for uma barreira.