A Casa Civil do governo federal informou, nesta quarta-feira (17), que o pedido de inclusão da BR-438 no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está sob análise da Secretaria Especial do PAC (Sepac), com previsão de avaliação "em breve, com a maior celeridade possível". A resposta foi dada ao Jornal Cidades em relação à rodovia que, uma vez pavimentada, completará a chamada Rota Caminhos da Neve, ligando Florianópolis a Gramado por dentro dos Campos de Cima da Serra. No Rio Grande do Sul, faltam pavimentar 44 quilômetros do trecho, todos dentro do território de Bom Jesus, entre a BR-285 e a Ponte das Goiabeiras, na divisa com Santa Catarina, ligando o município gaúcho à catarinense São Joaquim.
A mobilização em torno da obra já dura mais de uma década. Segundo Jaziel Aguiar Pereira, conselheiro de turismo de Bom Jesus e coordenador dos grupos de trabalho da BR-438 e da BR-285, o pleito ganhou força após uma audiência pública realizada há um ano, quando lideranças de Rio Grande do Sul e Santa Catarina reuniram 25 assinaturas de deputados e senadores dos dois estados pedindo a inclusão da rodovia no PAC.
O Ministério dos Transportes e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) já se manifestaram favoráveis ao projeto, e o estudo de viabilidade técnica e ambiental, que consumiu R$ 4 milhões em recursos de emendas parlamentares entre 2023 e 2024, apontou alto índice de viabilidade. "Não tem mais papel a ser feito, estudo a ser feito, tudo já foi feito. O único gargalo hoje é a publicação no Diário Oficial incluindo a estrada no PAC", enfatizou Pereira.
A região disputa espaço com outras demandas nacionais: cada estado pode indicar até três rodovias para análise do programa, e a BR-438 foi uma das indicações do Rio Grande do Sul em 2025, após não conseguir entrar na lista em 2024. Para Pereira, a falta de densidade eleitoral da região dificulta a prioridade na disputa por recursos em Brasília. "A gente não tem uma densidade eleitoral, que nem Porto Alegre, por exemplo, vai fazer um pleito, o pedido acaba sendo acatado com mais prioridade", disse.
Projeto original da BR-116 passaria por Bom Jesus
A reivindicação por essa ligação remonta a quase um século. Pereira relata que documentos históricos indicam que o traçado da atual BR-116, em construção pelo governo de Getúlio Vargas na década de 1930, previa originalmente cruzar a região de Bom Jesus, conectando os Campos de Cima da Serra ao restante do estado. A pressão política de lideranças de Caxias do Sul, no entanto, levou à alteração do trajeto para passar pelo município, isolando Bom Jesus e a região da Serra Catarinense por décadas. Uma reportagem de 1966 do jornal Correio Riograndense, cita Pereira, já mencionava a intenção de criar uma nova ligação entre os dois estados pelo Passo da Cadeia - hoje, o local onde foi construída a Ponte das Goiabeiras, concluída nos últimos anos como única obra efetivamente realizada no trecho desde então.
O traçado da rota Caminhos da Neve nasceu da articulação entre duas rodovias federais transversais: a BR-285, que liga a fronteira com a Argentina ao Litoral Norte gaúcho, e a BR-282, que conecta o Oeste catarinense a Florianópolis. A BR-438 funciona como a ligação entre as duas, criando um corredor direto entre as duas regiões turísticas. Atualmente, o fluxo de turistas que viaja da região de Curitiba e Florianópolis até Gramado e Canela faz um trajeto em formato de contorno, vindo pela BR-101 ou pela BR-116, via Lages (SC) e Vacaria, sem passar pelos Campos de Cima da Serra. "A gente ficou nesse meio vazio", resumiu Pereira.
O potencial de tráfego da nova rota é descrito como expressivo. Estudos de big data baseados na emissão de notas fiscais eletrônicas e deslocamento de smartphones, apontam a possibilidade de fluxo de até 24 mil veículos diários na rodovia, volume que aproximaria a BR-438 de rodovias federais de grande porte como a BR-101 e a BR-386. A estimativa de fluxo turístico para a região, hoje em torno de 600 mil pessoas por ano nos Campos de Cima da Serra, poderia alcançar 1,5 milhão com a rota consolidada, segundo documentos elaborados pelo grupo de trabalho da BR-438. A obra também é considerada estratégica para o escoamento da produção primária da região, especialmente a maçã: segundo a Associação Gaúcha de Produtores de Maçã, a pavimentação proporcionaria uma economia de R$ 4,2 milhões por safra.
Apesar do potencial, Bom Jesus enfrenta um cenário de esvaziamento populacional. A localidade de Santo Inácio, no trajeto da rota, teve uma redução de 59% da população entre 1991 e 2010. Para Pereira, a falta de infraestrutura tem relação direta com esse processo. "Se a nossa região tivesse ligada e esse turismo tivesse fluído por aqui, o nível de dinheiro circulando seria muito maior", afirmou. Atualmente, o trecho não pavimentado é transitável, mas em condições precárias, o que gera constrangimento entre operadores turísticos locais. "A gente às vezes passa vergonha. Os turistas que passam dizem: não vou mais por lá", contou o conselheiro.
Em Santa Catarina, restam 10,4 quilômetros para concluir o trecho da rota, que já possui projeto executivo desenvolvido desde os anos 2000 e licenças ambientais emitidas. Apesar de promessas públicas do governo catarinense de retomar as obras, não há, até o momento, indícios de movimentação interna para a publicação de edital de licitação no estado vizinho.
São José dos Ausentes, município vizinho a Bom Jesus nos Campos de Cima da Serra, também aposta na melhoria da infraestrutura viária regional como motor de desenvolvimento turístico. Embora a Rota Caminhos da Neve não passe diretamente pelo município, ela se conecta ao trajeto que liga São Joaquim, em Santa Catarina, a São José dos Ausentes, segundo a secretária de Turismo e Cultura, Milena Velho Amaral. O município também é impactado por obras de pavimentação em andamento na BR-285 e na RS-020, que liga o município a Cambará do Sul.
Para Milena, a pavimentação de acessos é historicamente o maior desafio da região. "Os nossos maiores desafios sempre foram os acessos. É importante sempre termos caminhos pavimentados, que tragam os nossos turistas para as nossas pousadas, para o nosso turismo rural e nossos hotéis", afirmou. Segundo a secretária, a melhoria na infraestrutura beneficia não apenas o turismo, mas também a agricultura e a pecuária, atividades igualmente importantes para a economia municipal.
O município, conhecido por ser o ponto mais alto e frio do Rio Grande do Sul, tem como atrativos cânions, cachoeiras e o desnível de rios entre o Pelotas e o Antas, fenômeno que Milena pontua que é o único catalogado na América Latina. A identidade local também remete à história do tropeirismo e à presença jesuítica no século XVIII, quando o gado franqueiro foi introduzido na região. Atualmente, o município vive crescimento em loteamentos e condomínios de padrão elevado, segundo a secretária, além de um hotel em planejamento na entrada da cidade, somados a empreendimentos como cervejarias e vinícolas locais.
A qualificação da mão de obra para o turismo rural também é prioridade, segundo Milena, que cita cursos promovidos com o Senar para capacitar moradores e estimular a permanência de jovens na região. "Acreditamos que o conhecimento é a força que desenvolve a nossa região, além de capacitar os jovens para que permaneçam aqui, acreditando no turismo e na agricultura", salientou a secretária.