Porto Alegre,

Publicada em 19 de Maio de 2026 às 18:13

Faria Lemos, o distrito que conta a história de Bento Gonçalves

Com 101 anos, região mantém viva a memória do município da Serra

Com 101 anos, região mantém viva a memória do município da Serra

Cristofoli/Divulgação/CIDADES
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Carol Zatt
Carol Zatt Repórter freelancer
A dedicação pela manutenção da memória dos seus antepassados, como ocorre no distrito de Faria Lemos, interior de Bento Gonçalves, é um fato que jamais poderá ser questionado na trajetória da cidade e de tantos outros municípios que compõem a Serra gaúcha, especialmente aqueles que têm sua fundação intimamente ligada à colonização por imigrantes europeus no século XIX. A afirmação vale para o poder público, para a iniciativa privada e também para a grande maioria de cada um dos descendentes de ítalo-vênetos que herdaram os saberes e os fazeres vitivinícolas.
A dedicação pela manutenção da memória dos seus antepassados, como ocorre no distrito de Faria Lemos, interior de Bento Gonçalves, é um fato que jamais poderá ser questionado na trajetória da cidade e de tantos outros municípios que compõem a Serra gaúcha, especialmente aqueles que têm sua fundação intimamente ligada à colonização por imigrantes europeus no século XIX. A afirmação vale para o poder público, para a iniciativa privada e também para a grande maioria de cada um dos descendentes de ítalo-vênetos que herdaram os saberes e os fazeres vitivinícolas.
Essa preocupação com a preservação da trilha dos pioneiros está posta como justificativa para um projeto iniciado em 1999 que resultou na publicação de "Bento Gonçalves, História e Memória: Distrito de Faria Lemos", assinado pelas professoras Bernardete Caprara e Terciane Luchese. Este título é, ainda hoje, a obra mais completa sobre o local, considerada como fonte oficial pelo Museu do Imigrante e pelo Arquivo Municipal.
Com grande extensão territorial - cerca de 86 quilômetros quadrados - abrangendo diversas "linhas", como são chamadas suas subdivisões, Faria Lemos é o distrito mais antigo que segue pertencendo à cidade serrana (lembrando que Monte Belo do Sul, Santa Tereza e Pinto Bandeira, outras áreas que faziam parte de Bento se emanciparam a partir dos anos 1990). A criação oficial ocorreu pelo Ato Municipal n. 15, de 31 de janeiro de 1925, denominado em homenagem ao desembargador pernambucano Francisco de Faria Lemos, que governou a província do Rio Grande do Sul entre 1877 e 1878. 
"Era o sobrenome de um dos grandes amigos do Império. Sabe-se, pelas suas razões, que todas as linhas tinham sempre um nome que pertencia a alguém muito ligado à família imperial. E aqui está um dado bastante relevante: a Colônia Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves, é uma homenagem à filha do imperador; e a Colônia Conde d'Eu, hoje Garibaldi, ao seu consorte (em outras palavras, o marido da princesa)", explica a pesquisadora Assunta De Paris.
Em torno de 45% das propriedades na região são utilizadas para habitação e cultivo | Cristofoli/Divulgação/CIDADES
Em torno de 45% das propriedades na região são utilizadas para habitação e cultivo Cristofoli/Divulgação/CIDADES
Ela contextualiza que, por volta de 1870, em período anterior à colonização europeia em solo gaúcho, a popularidade do Império começava a ser abalada no Rio de Janeiro, pois já havia movimentos republicanos. Foi assim que os agrimensores foram enviados à região da Encosta da Serra para, independentemente dos acidentes geográficos, fazer traçados de pequenos lotes, que tinham apenas 24 hectares de terra, formando as linhas e travessões, que, depois, receberiam a imigração, a partir de 1875.
Hoje em dia são aproximadamente 1 mil famílias que residem em Faria Lemos, mantendo a tradição agrícola e a conservação das propriedades rurais, que integram o roteiro turístico Cantinas Históricas. A principal atividade econômica no distrito é a produção de uvas, para sucos, vinhos finos e de mesa. Cerca de 45% das propriedades em Faria Lemos são efetivamente utilizadas ou ocupadas para habitação e cultivo, preservando uma área significativa de mata nativa e relevo natural.
Trata-se de uma paisagem singular ao olhar dos visitantes, na opinião do jornalista Fabiano Mazzotti, que já tem sete livros publicados sobre a história da região. "Bento Gonçalves tem a vocação de um território vinícola em exploração, mas antes do vinho vem a uva, e uma imensidão de agricultores que tradicionalmente são conhecidos como colonos. O trabalho dessas pessoas, cuidando dos parreirais para o cultivo, é uma beleza sem igual durante o ano todo. Esse ciclo merece ser prestigiado, e Faria Lemos, com sua posição de altitude elevada, permite isso ao turista", avalia. 
Localizado ao Noroeste do município, a 13 quilômetros do Centro, o acesso se dá pela ERS-431, na rodovia em direção a Veranópolis. O distrito é composto por 16 localidades principais, o que demonstra uma alta capilaridade social e produtiva - Faria Lemos (sede), Paulina Alta, Paulina Baixa, Alcântara, Vale Aurora, Eulália Alta, Eulália Baixa, Santo Antônio, São Martinho, Santa Lúcia, Imaculada, São Valentim 96, Linha Ferri, São Luiz, Natividade e Navegantes. 
Conforme Mazzotti, as enchentes de maio de 2024 frearam a evolução do lugar, uma vez que a logística ficou prejudicada pelos estragos nas ligações a cidades como Cotiporã, Dois Lajeados e Guaporé. Segundo a prefeitura de Bento de Bento Gonçalves, o entorno de 440 quilômetros de estradas não pavimentadas exige um trabalho contínuo da subprefeitura em patrolamento, cascalhamento e limpeza de valetas, para garantir o escoamento da produção e o trânsito turístico pela extensa rede de vias necessárias. A gestão pública também prioriza a sinalização do Vale, já que o distrito sedia mirantes estratégicos que conectam o interior do município ao rio das Antas. 

Faria Lemos em números

Criação do distrito: 31/01/1925
Área: 86,05 quilômetros quadrados
População: 2.111 habitantes (Censo IBGE 2022) 
Densidade Demográfica: 24,53 hab/Km² 
Famílias residentes: cerca de 1.000
Subdivisões/comunidades: 16 
Malha viária: 470 quilômetros
Ocupação do Solo: 45% 
Principal atividade econômica: produção de uvas
FONTE: prefeitura de Bento Gonçalves

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