A Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves aprovou, na tarde de segunda-feira (27), a denominação da nova sede do Legislativo como “Palácio Presidente Ernesto Geisel”, em sessão realizada no plenário da Casa. A proposta foi aprovada com apenas um voto contrário, do vereador Alcindo Gabrielli (MDB), e estabelece homenagem ao ex-presidente Ernesto Geisel, natural do município.
O projeto, apresentado pela Mesa Diretora, teve como justificativa reconhecer a trajetória do "único presidente da República nascido em Bento Gonçalves" e sua contribuição para o desenvolvimento local. Segundo o presidente da Câmara, Anderson Zanella, a iniciativa busca destacar ações atribuídas ao período em que Geisel esteve à frente do governo federal, como investimentos que impactaram a cidade. “Nós estamos reconhecendo um filho da terra que foi importantíssimo naquele momento enquanto presidente para tornar Bento Gonçalves o que ela é hoje”, afirmou.
De acordo com Zanella, a decisão foi precedida por consulta jurídica, que não identificou impedimentos legais à tramitação do projeto. Ele ressaltou que a proposta não teve como objetivo discutir o regime político vigente à época. “O objetivo nunca foi entrar em polêmica ou julgar o regime. O foco é a homenagem pelos feitos ao município”, disse. O presidente também citou iniciativas como a consolidação da vitivinicultura local e a instalação de estruturas que contribuíram para o desenvolvimento econômico da cidade.
A aprovação ocorre em meio a um histórico recente de controvérsias envolvendo homenagens ao ex-presidente no município. Em novembro de 2025, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a retirada de um memorial dedicado a Geisel instalado no campus de Bento da Universidade de Caxias do Sul (UCS), apontando que a iniciativa contrariava entendimentos consolidados sobre a vedação de exaltação a agentes ligados à ditadura militar. O órgão baseou-se em conclusões da Comissão Nacional da Verdade, que atribuiu ao período do governo Geisel a continuidade de violações de direitos humanos. Somente em 1974, primeiro ano de sua presidência, foram registrados 54 desaparecimentos políticos.
Na ocasião, a UCS defendeu o caráter acadêmico e documental do memorial, mas posteriormente devolveu o acervo à prefeitura após ação judicial movida pelo MPF. O episódio intensificou o debate local sobre memória, história e os limites de homenagens públicas. Em entrevista ao Cidades, Zanella disse que respeitará qualquer eventual manifestação do MPF sobre o tema.
Durante a tramitação do projeto na Câmara, o vereador Alcindo Gabrielli manifestou voto contrário, argumentando que o município possui outras personalidades que poderiam ser homenageadas sem gerar controvérsias. A posição também dialoga com recomendações do MPF em âmbito nacional, que orientam a não atribuição de nomes de agentes públicos associados a períodos de exceção a espaços públicos.
Zanella reconheceu a existência de diferentes interpretações, mas reiterou que a escolha não exclui outras homenagens. “Tem vários nomes que ainda precisam ser reconhecidos, e isso deve ocorrer ao longo do tempo”, afirmou, citando a recente denominação de um espaço esportivo em homenagem ao ex-prefeito Darcy Posa. A sessão ordinária da segunda-feira também deliberou a denominação ao Plenário da Casa de Jauri da Silveira Peixoto, que foi professor, vice-prefeito e vereador no município; e deu o nome de José Élvio Atzler de Lima, ex-vereador e presidente do Sindicato Metalúrgico, ao Plenarinho da Câmara.
A nova sede da Câmara ainda não tem data oficial de inauguração divulgada. A reportagem do Jornal Cidades também contatou o vereador Alcindo Gabrielli e a assessoria de comunicação do Ministério Público Federal para manifestações, mas ainda não havia recebido retorno até o fechameno desta matéria. O espaço está aberto a manifestações.