Garantir que os estudantes da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) "saibam que não estão sozinhos" é o propósito principal da instalação do Comitê de Gestão em Saúde Mental na instituição, anunciada há 15 dias pela reitoria após um período de uma semana de suspensão das atividades acadêmicas nos quatro campi da universidade.
A medida, que seria implementada somente no ano que vem, foi antecipada após duas mortes de estudantes de ciências econômicas da instituição, residentes na Casa do Estudante, ocorridas em setembro. No período de suspensão das aulas, cerca de 150 pessoas da comunidade acadêmica participaram de uma capacitação em primeiros cuidados psicológicos, voltada a situações de crise, relatou a psicóloga Ana Furlong Antochevis, coordenadora da Secretaria de Ações Afirmativas, Inclusão e Diversidades (Secaid) da Furg.
De acordo com a gestora, houve a agregação de "todas as forças que trabalham com saúde mental mais diretamente", explicou. "Equipes de psicólogos e professores de áreas afins, para organizar uma frente de atendimento. O objetivo era responder de forma imediata à comunidade e mostrar que existe onde buscar ajuda”, disse. Além disso, três psicólogos foram contratados emergencialmente, somando-se aos três que já atuavam em todos os campi da universidade. Antes da contratação, os profissionais eram responsáveis por atender a um universo de 9 mil estudantes e 600 moradores das casas do estudante.
A política em construção a partir do comitê se baseia em três eixos principais: diagnóstico e informação, com pesquisas contínuas sobre a realidade dos estudantes; prevenção e promoção, por meio de rodas de conversa e atividades educativas; e atendimento, com protocolos de escuta e acolhimento.
Ana destacou que, embora a universidade já tivesse protocolos de comunicação e acompanhamento, o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. “Não existe um único motivo. Há uma soma de fatores pessoais, sociais e ambientais. O nosso trabalho é tentar reduzir o sentimento de desamparo. Queremos que cada estudante saiba que há sempre alguém disposto a escutar”, afirmou.
A condição das casas do estudante, apontada por alunos como uma preocupação, também está sendo tratada. A gestão da Furg anunciou um planejamento de recuperação, que inclui reparos pontuais e reformas mais amplas, de acordo com a disponibilidade de recursos. Outro ponto é a solidão nos fins de semana, agravada pela baixa oferta de transporte público. Para enfrentar essa situação, a universidade acionou a prefeitura de Rio Grande, convidada a integrar o comitê, já que parte das soluções depende de políticas municipais.
A distância da família também pesa na rotina acadêmica. De acordo com Ana, a saudade de casa é um fenômeno recorrente em universidades do Brasil e de outros países. A Furg mantém protocolos que permitem, por exemplo, a estadia temporária de familiares nas casas do estudante, além de ações de acolhimento em momentos de vulnerabilidade.
O cuidado com a saúde mental foi estendido aos professores. A universidade busca incluir o tema em formações continuadas, como forma de apoiar docentes diante de sobrecarga e mudanças geracionais no perfil dos estudantes. “É preciso olhar para as novas formas de se relacionar e criar estratégias de diálogo. Isso também é parte do acolhimento”, explicou a coordenadora.
A mobilização alcançou a comunidade externa. Comerciantes, lideranças religiosas e moradores de Rio Grande e das demais cidades onde a Furg mantém campi manifestaram apoio, oferecendo espaços de convivência e atividades culturais. “Recebemos muitas mensagens de solidariedade. Esse engajamento mostra que a universidade não está isolada nesse processo”, disse Ana.
Mais do que uma resposta imediata, a criação do Comitê de Gestão em Saúde Mental busca deixar uma estrutura duradoura. Para a coordenadora, a mensagem central não pode se perder em meio às dificuldades. “Queremos que os estudantes tenham segurança de que a universidade é um espaço de vida, de alegrias, de construção de projetos. E, acima de tudo, que saibam que não estão sozinhos.”