O
Texas,
segundo estado mais populoso dos Estados Unidos e um dos principais
símbolos do conservadorismo norte-americano, protagonizou uma
virada histórica nas eleições de meio de mandato de 2026. Tradicionalmente alinhado ao
Partido Republicano, o Estado elegeu a democrata
Gina Hinojosa para o governo estadual e
James Talarico para o Senado, interrompendo décadas de domínio republicano em disputas estaduais. O resultado ocorreu em meio à
insatisfação de eleitores com o custo de vida e com as políticas do
presidente Donald Trump, especialmente na área migratória.
A vitória de Hinojosa encerra mais de 30 anos de governos republicanos no Texas. A democrata será a primeira integrante do partido a assumir o cargo desde Ann Richards, que deixou o governo em 1995. Já Talarico se tornou o primeiro democrata eleito para representar o Estado no Senado desde 1988, quando Lloyd Bentsen conquistou a reeleição. As duas conquistas têm peso simbólico por ocorrerem em um dos territórios mais associados à identidade política conservadora dos Estados Unidos.
Entre os fatores que marcaram a campanha estava a preocupação com o custo de vida. Os preços dos alimentos e dos combustíveis estiveram entre as principais fontes de insatisfação das famílias, em um cenário de pressão econômica associado às tarifas comerciais adotadas pelo governo Trump e à guerra com o Irã. A alta dos custos também afetou o apoio ao presidente entre eleitores que haviam votado nos republicanos em 2024.
Outro elemento importante foi o comportamento dos eleitores latinos, que representam uma parcela expressiva da população texana. Em 2024, Trump ampliou o apoio entre esse grupo, conquistando eleitores que tradicionalmente votavam nos democratas. Dois anos depois, parte desse eleitorado passou a demonstrar insatisfação com o governo federal, tanto pela situação econômica quanto pelas medidas de fiscalização migratória.
Por fazer fronteira com o México e concentrar uma ampla comunidade hispânica, o Texas foi diretamente atravessado pelo debate sobre imigração. A atuação do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), responsável pela fiscalização migratória no interior do País, e as operações de detenção de imigrantes estiveram entre os pontos de desgaste da administração republicana. As medidas atingiram comunidades latinas e provocaram críticas de eleitores que haviam apoiado Trump na eleição anterior.
Embora atualmente seja identificado com o Partido Republicano, o Texas nem sempre teve essa configuração política. Durante grande parte de sua história, o estado foi dominado pelos democratas, que também concentravam a maior parte da força política local. A mudança começou a ganhar força na segunda metade do século XX, em meio à transformação dos partidos norte-americanos e ao realinhamento de eleitores conservadores, especialmente no Sul do país.
Um marco dessa transição ocorreu em 1979, quando William P. Clements se tornou o primeiro governador republicano do Texas desde o período da Reconstrução, após a Guerra Civil. Nos anos seguintes, o partido ampliou sua presença nas eleições estaduais e consolidou a hegemonia durante a década de 1990. Em 1995, os republicanos conquistaram o governo estadual e os dois assentos texanos no Senado. Desde 1980, o Texas também votava no candidato republicano em todas as eleições presidenciais.
A associação do estado com o conservadorismo está relacionada a características políticas, econômicas e culturais. A força da indústria de petróleo e gás, a defesa de uma menor intervenção federal na economia, a valorização do direito ao porte de armas e a influência de grupos religiosos estão entre os elementos que ajudaram a consolidar essa identidade. Nos últimos anos, governos republicanos também adotaram posições mais rígidas em temas como imigração, aborto e políticas educacionais.
A imagem do Texas como um dos principais redutos da direita americana também ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos. O estado se tornou destino de figuras conservadoras de outros países, como o ex-deputado federal brasileiro Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele vive no Texas desde 2025, de onde passou a atuar na articulação política com conservadores norte-americanos e integrantes do governo Trump. Em julho de 2026, afirmou que havia obtido residência permanente no país, conhecida como green card.
O peso político do Texas ajuda a dimensionar o alcance da derrota republicana. Com 40 votos no Colégio Eleitoral, o estado é o segundo mais importante na disputa pela presidência dos Estados Unidos, atrás apenas da Califórnia. Por isso, a possibilidade de os democratas voltarem a competir em um território que há décadas favorece os republicanos pode alterar as estratégias dos dois partidos para as próximas eleições presidenciais.
Para os republicanos, a eleição representa um revés em um estado considerado fundamental para a manutenção da força eleitoral do partido. Para os democratas, abre a possibilidade de transformar uma vitória histórica em uma presença política duradoura. Ainda assim, será necessário observar se o resultado reflete uma mudança mais profunda no eleitorado ou uma reação pontual à conjuntura econômica e ao governo Trump.