A visita do presidente e seu gabinete a Donald Trump na Casa Branca parece não ter beneficiado tanto o governo argentino, assim como previa Javier Milei. A ideia era fortalecer o Partido Aliaça Liberal na campanha pelas eleições legislativas na Argentina, no próximo dia 26, especialmente após um escândalo envolvendo um de seus principais candidatos.
O saldo do encontro realizado nesta terça-feira (14), porém, parece ser semelhante ao mal-estar gerado pelo show de rock para a apresentação de um livro estrelado pelo argentino uma semana antes.
A reunião não se deu no Salão Oval, como esperava a comitiva argentina, mas em uma sala de refeições onde Milei foi surpreendido pela presença de jornalistas. Trump, familiarizado com a política e com a mídia, respondeu a perguntas, deixando Milei de costas para imprensa e sem falar por quase uma hora.
Foi quando uma correspondente argentina perguntou o que aconteceria com a ajuda financeira dos EUA se Milei perdesse as eleições legislativas, e ele respondeu que, se a oposição saísse vitoriosa, o apoio americano seria retirado.
Antes que o encontro terminasse, o mercado financeiro reagiu negativamente, refletindo a incerteza e a preocupação gerada pelas declarações de Trump. Em vez de festejar a visita, a comitiva argentina tentou controlar as repercussões.
Milei afirmou que a ajuda dos EUA vai continuar, mesmo depois das eleições legislativas e que, pelo menos até o fim do seu mandato, em 2027, o apoio está garantido. "Está claro que o apoio está em andamento. Pelo menos estarei no cargo até 2027 e, se formos reeleitos, por mais tempo também", disse, em uma entrevista ainda em solo norte-americano.
O ministro da Economia, Luis Caputo, pediu que o mercado se acalmasse, após queda da Bolsa argentina. Ele ainda sugeriu que as declarações de Trump poderiam ter sido interpretadas erroneamente e que isso não refletia a posição real do presidente. Funcionários do governo também passaram a dizer que novos anúncios de cooperação entre os países devem ser divulgados em breve.
A ministra de Segurança Pública, Patricia Bullrich, disse do lado de fora da Casa Branca que Trump se referia a um apoio à "filosofia" proposta por Milei e falava das eleições presidenciais de 2027 na Argentina, não sobre as legislativas deste ano.
O retorno da comitiva a Buenos Aires não foi festivo. Opositores enfatizaram que a fala do presidente americano foi uma espécie de "extorsão" aos argentinos, vinculando a ajuda econômica aos resultados eleitorais.
Uma das primeiras críticas veio da ex-presidente Cristina Kirchner. "Trump para Milei nos Estados Unidos: 'Nossos acordos estão sujeitos a quem ganhar as eleições'. Argentino, você já sabe o que deve ser feito", escreveu no X.
O principal candidato peronista a uma vaga de deputado na província de Buenos Aires, Jorge Taiana, publicou: "Se a decisão for parar Milei ou aceitar que o presidente dos Estados Unidos nos diga em quem devemos votar, nós, argentinos, em 26 de outubro, sabemos o que devemos fazer. Nunca foi tão claro! Pátria ou Colônia."
Inflação sobe 2,1% na taxa mensal, maior alta desde abril
O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) da Argentina teve alta de 2,1% em setembro ante agosto, informou o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec). O índice havia apresentado alta de 1,9% em agosto no comparativo mensal.
Na variação anual, a inflação no país foi de 31,8% em setembro, o que representa uma desaceleração ante os 33,6% registrados em agosto. Por outro lado, os dois setores que registraram as menores variações em setembro foram Recreação e cultura (1,3%) e Restaurantes e hotéis (1,1%).
Na variação acumulada do ano até setembro, a inflação da Argentina ficou em 22%. O setor que mais subiu no mês foi habitação, água, eletricidade e outros combustíveis (3,1%), impulsionado pelo aumento em aluguel de moradia, seguido pelo setor de educação (3,1%). Os dois setores com as menores variações no mês foram recreação e cultura (1,3%) e restaurantes e hotéis (1,1%)
Folhapress