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Publicada em 31 de Outubro de 2025 às 16:13

Estudo liderado pelo Moinhos de Vento pode evitar 20 mil casos de AVC no Brasil

 Pílula combina três medicamentos para pressão arterial para reduzir significativamente a pressão em pacientes, diminuindo o risco de um novo AVC em 39%

Pílula combina três medicamentos para pressão arterial para reduzir significativamente a pressão em pacientes, diminuindo o risco de um novo AVC em 39%

MANOOCHER DEGHATI/AFP/JC
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Jamil Aiquel
Jamil Aiquel
O estudo Trident, idealizado pelo The George Institute for Global Health, da Austrália, e conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento no Brasil, apresentou números revolucionários na diminuição da recorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC) hemorrágicos. A coordenadora do projeto no Brasil é a médica neurologista e chefe do serviço de neurologia e neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, Sheila Martins.
O estudo Trident, idealizado pelo The George Institute for Global Health, da Austrália, e conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento no Brasil, apresentou números revolucionários na diminuição da recorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC) hemorrágicos. A coordenadora do projeto no Brasil é a médica neurologista e chefe do serviço de neurologia e neurocirurgia do Hospital Moinhos de Vento, Sheila Martins.
Ela explica que a pílula combina três medicamentos para pressão arterial para reduzir significativamente a pressão em pacientes que já sofreram um AVC, diminuindo o risco de um novo evento em 39%, o que é crucial para mudar as diretrizes internacionais de tratamento.
O estudo foi idealizado por Craig Anderson, especialista em AVC hemorrágico do George Institute. A iniciativa surgiu da necessidade de enfrentar o AVC hemorrágico, que é a forma mais grave do derrame, correspondendo a cerca de 15% dos casos e que, diferentemente do AVC isquêmico, não possui um tratamento efetivo quando o paciente chega ao hospital. 
O principal fator de risco é o mau controle da pressão alta, e sabendo que a prevenção secundária de um novo evento depende crucialmente de baixar a pressão arterial, Anderson concebeu o estudo com o objetivo de testar se a redução da pressão para níveis mais baixos do que o recomendado atualmente ajudaria a evitar um novo AVC. 
Assim, ele idealizou a pílula tripla, composta por três medicamentos para pressão em baixa dosagem em uma única pílula, o que facilitaria a adesão dos pacientes ao tratamento a longo prazo e diminuiria os efeitos colaterais.
“O estudo mostrou que o que a gente tem seguido, em termos de diretriz internacional para baixar a pressão, não é suficiente. Porque o tratamento padrão tem um nível adequado de 130 de pressão, mas o tratamento com a polipílula, que a gente chamou de intensivo, foi em cima do tratamento padrão e baixou 11 mm a mais. Ou seja, baixar mais ainda a pressão, reduziu 39% a chance de um novo AVC. Isso é muito poderoso. Então acreditamos que vamos mudar a diretriz internacional. A pressão tem que ser mais baixa do que a gente tá recomendando hoje”, afirmou Sheila.
A coordenadora do estudo afirma, então, que uma das principais vantagens do projeto é justamente facilitar o acesso e o tratamento, pois os pacientes podem tomar apenas um remédio. Além de simplificar a administração, a novidade, segundo ela,  por conter doses baixas dos componentes, também diminui os efeitos colaterais individuais, o que é crucial para aumentar a adesão dos pacientes ao tratamento a longo prazo.
“Uma das vantagens de usar a polipílula é usar um remédio só ao invés de três, aumentando a chance de adesão, porque a gente sabe que as pessoas abandonam o tratamento da pressão ao longo dos anos e é bem complicado”, ponderou.
Assim, a médica citou números focados no impacto potencial do estudo no Brasil. Ela informou que o País registra aproximadamente 50 mil novos casos de AVC hemorrágico por ano. Ao projetar a redução de 39% na chance de um novo AVC, Sheila calculou que a implementação dessa prevenção resultaria em quase 20 mil pessoas a menos com AVC por ano.
Sheila fazia parte da Organização Mundial de AVC e, por conta disso, foi convidada por Craig para trazer o estudo ao Brasil e buscar financiamento, iniciando o processo em 2016, com a aprovação final para a participação brasileira sendo obtida em 2019. No Brasil, o estudo foi financiado pelo Ministério da Saúde e pelo Hospital Moinhos de Vento, instituições que, segundo Sheila, foram essenciais para a continuidade do projeto. 
“Foi super importante nosso país ter entrado para apoiar. O instituto não conseguiu renovar o financiamento na Austrália, e o estudo ia ser encerrado com 700 e poucos pacientes. Assim, o Ministério da Saúde do Brasil aprovou de pagar todo o tratamento, toda a polipílula que a gente utilizasse aqui, pago pelo nosso governo, para que o Trident não parasse no mundo. Então foi um papel super importante do Ministério da Saúde para apoiar esse estudo até o final para que a gente tivesse essa resposta. Temos muito orgulho de poder dizer isso”, destacou. 
Na última semana, o estudo foi apresentado no congresso mundial de AVC, e Sheila afirma que a recepção do público foi “maravilhosa”. A especialista conta que o projeto era muito esperado pela comunidade internacional por ser o maior estudo de prevenção secundária de AVC hemorrágico e foi considerado um sucesso.
“Nós, que somos experts, sabemos o quanto é difícil conduzir esses estudos e conseguir concluir para mostrar algum resultado. Então, foi um sucesso a apresentação e muito bem vista por todo mundo. Estamos muito felizes de que finalmente terminou e a gente tem mais uma resposta positiva de algum benefício pro paciente para evitar um AVC”, afirmou Sheila. 
Por fim, a especialista destacou a importância do projeto. Segundo ela, o estudo Trident representa um feito maravilhoso. Sheila afirma que sente um grande orgulho por ter insistido e por ter contado com o apoio do governo brasileiro para que o projeto não parasse. 
O resultado final, que proporciona uma resposta positiva de benefício para o paciente, faz com que o esforço de anos tenha valido a pena, sendo o orgulho de ver tal resultado algo que "não tem preço".
"É muito bom a gente saber que a gente conseguiu insistir para um estudo que acabasse precocemente, provavelmente não ia nos dar resposta... e a gente ter conseguido manter e o nosso governo ter apoiado isso. É muito orgulho", ponderou.

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