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Publicada em 17 de Outubro de 2025 às 00:25

Saúde e justiça: Medicina Legal desempenha papel importante na sociedade

As médicas-legistas Laura Mazzeo Echenique (à esquerda) e Caroline Vieira (à direita) atuam no Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS)

As médicas-legistas Laura Mazzeo Echenique (à esquerda) e Caroline Vieira (à direita) atuam no Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS)

DANI BARCELLOS/ESPECIAL/RS
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Luana Pazutti
Luana Pazutti
Um milhão de palavras não ditas. Um abraço, que se transforma em saudade. Um sorriso que se apaga antes do tempo. De uma hora para a outra, tudo muda. Sem hora marcada, nem aviso prévio. No livro A morte é um dia que vale a pena viver, a médica paulista Ana Cláudia Quintana Arantes defende que a morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida. Para as médicas-legistas Laura Mazzeo Echenique e Caroline Vieira, essa é uma consequência da desafiadora rotina no Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS).
Um milhão de palavras não ditas. Um abraço, que se transforma em saudade. Um sorriso que se apaga antes do tempo. De uma hora para a outra, tudo muda. Sem hora marcada, nem aviso prévio. No livro A morte é um dia que vale a pena viver, a médica paulista Ana Cláudia Quintana Arantes defende que a morte é um excelente motivo para buscar um novo olhar para a vida. Para as médicas-legistas Laura Mazzeo Echenique e Caroline Vieira, essa é uma consequência da desafiadora rotina no Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS).
“A maior parte das pessoas associa o nosso trabalho à morte, ao lado ruim da Medicina. Mas eu acredito que é, na verdade, um lado muito necessário para a sociedade, que ajuda a trazer a justiça e a prevenir outras injustiças”, afirma Caroline. 
Escondida às sombras de estigmas e preconceitos, a Medicina Legal investiga a vida e a morte, cuidando do “fim”, mas também evitando a sua chegada. “No caso de óbitos, o papel do médico legista é fundamental para identificar o que não se conseguiu em vida, o que levou ao desfecho dessa pessoa”, explica a médica-legista. 
Quando há suspeita de morte violenta, a função desse profissional é descobrir a causa do óbito, buscando provas ou vestígios que possam servir para a polícia e, mais tarde, para o juiz esclarecer um crimeMas, engana-se quem pensa que a importância da profissão se esgota por aí.
"Nos vivos, a gente faz perícia de violência sexual e de outros tipos de violência física. Nesses casos, a gente coleta evidências para documentar que houve violência", destaca Laura. "O perito está sempre procurando uma prova e tentando fazer a interface entre a Medicina e a Justiça", completa. 
No Brasil, as bases da Medicina Legal foram estabelecidas ao longo do século 19, quando tornou-se uma disciplina obrigatória nos cursos de Direito. No entanto, foi apenas em 2011, que o Conselho Federal de Medicina reconheceu a profissão como especialidade médica.
Em 2023, a pesquisa Demografia Médica no Brasil revelou que havia cerca de 2,2 mil médicos-legistas no País. Embora esteja em crescimento, o campo ainda é vítima de esquecimento. "É uma área que assusta muito as pessoas. E é meio desconhecida, às vezes, até para os próprios médicos. Nós somos muito poucos ainda e precisamos de mais colegas", pondera Laura. 
No Rio Grande do Sul, há 111 médicos ativos com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em  Medicina Legal e Perícia Médica, segundo o Conselho Regional de Medicina (Cremers). Em paralelo, há 115 cargos efetivos e outros 11 cargos temporários para Peritos Médico-Legistas distribuídos pelo Estado, de acordo com o IGP-RS. 

Caminhos cruzados 

sonho de ser médica chegou na vida de Caroline durante a adolescência. A sua primeira graduação, entretanto, foi em Odontologia. “Eu me formei e depois vi que não tinha jeito. Então estudei, fiz o vestibular e cursei Medicina depois de já ter me formado em Odontologia”, conta. Hoje, ela faz parte da equipe de Antropologia, que trabalha diariamente na identificação de ossadas. Para ela, a Medicina Legal já era uma certeza desde a faculdade
Já no caso de Laura, a Medicina Legal entrou em cena há pouco tempo. “Sempre quis ser médica. Estudei desde pequena. Mas eu fiz Pediatria. Trabalho há 25 anos como pediatra, e estou completando cinco anos de concurso agora. Foi uma coisa que veio depois, quando atingi um amadurecimento maior”, explica. 
Nas terças-feiras, a pediatra assume o papel de plantonista no IGP-RS, dividindo-se entre as perícias clínicas e as necropsias. "Atendemos qualquer tipo de violência que necessite investigação, pode ser um acidente de trânsito, uma tentativa de feminicídio, uma violência doméstica, que é a grande maioria dos nossos atendimentos", descreve Laura. 

Os olhos da justiça

Por mais que estejam habituadas ao trabalho, as profissionais destacam que sempre há casos que chocam. “Nós trabalhamos com o que há de pior na sociedade. Com a violência, com a crueldade. Nada que vem para cá foi uma boa ação, sempre foi uma tentativa de ferir alguém, de machucar, de causar algum dano, de prejudicar”, aponta a plantonista.
Para Caroline, entre uma série de desafios, o principal é lidar com um sofrimento que já não é mais evitável. "Ver as pessoas que sofreram essas ações é difícil, por isso que a gente tenta fazer o trabalho da maneira mais séria e mais rápida possível, para que a gente não gere um segundo trauma neles. Afinal, eles já estão machucados, já estão feridos, já chegam aqui sensibilizados", explica a integrante do departamento de Antropologia.
Se há, portanto, um sonho comum entre os médicos-legistas, é trabalhar menos. "É triste que a gente precise de mais profissionais na medicina legal, isso quer dizer que a violência é crescente ainda na nossa sociedade. Mas enquanto houver violência, precisamos achar os culpados e esses culpados precisam ser punidos", afirma Laura.

Um novo olhar para a vida

Trazer respostas para a sociedade. Para a dupla, esse é o maior fruto do trabalho na perícia. "Quando pensamos em médico-legista, ligamos à morte. Mas a gente também evita muita coisa. Quando a gente atende casos de violência doméstica e consegue identificar algo, principalmente com crianças e mulheres, conseguimos evitar um outro fim", acrescenta a plantonista.
Uma mudança de rumo. Uma chance de recomeçar. Um desfecho para o que ficou mal resolvido. Eis aí o papel do médico legista. “É difícil, mas é gratificante quando a gente consegue ajudar uma pessoa, ela estando ou não aqui", finaliza Caroline.

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