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Publicada em 03 de Setembro de 2025 às 19:22

Envelhecimento no RS: proporção cresce e demanda políticas inclusivas

Atualmente, o RS tem a maior proporção de idosos no País, com 14,1% da população com 60 anos ou mais

Atualmente, o RS tem a maior proporção de idosos no País, com 14,1% da população com 60 anos ou mais

EVANDRO OLIVEIRA/JC
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Nico Costamilan
Nico Costamilan
De 2000 a 2023, a proporção de idosos na população brasileira quase dobrou: de 8,7% para 15,6%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2070, cerca de 37,85% da população estará acima dos 60 anos. No Estado, esse número será ainda maior. Atualmente, os gaúchos têm a maior proporção de idosos no Brasil, com 14,1% da população com 65 anos ou mais. Neste 1º de outubro, Dia do Idoso, o Jornal do Comércio inicia uma série de reportagens sobre como melhorar o envelhecimento da população gaúcha.
De 2000 a 2023, a proporção de idosos na população brasileira quase dobrou: de 8,7% para 15,6%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2070, cerca de 37,85% da população estará acima dos 60 anos. No Estado, esse número será ainda maior. Atualmente, os gaúchos têm a maior proporção de idosos no Brasil, com 14,1% da população com 65 anos ou mais. Neste 1º de outubro, Dia do Idoso, o Jornal do Comércio inicia uma série de reportagens sobre como melhorar o envelhecimento da população gaúcha.
De acordo com o Censo de 2022, quase 40% da população do Rio Grande do Sul será de idosos em 2070, segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento indica que o estado terá 3,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (39,1%). A população total prevista para o período é de 9,1 milhões de habitantes.
Para Jussara Ruth, mestre em inclusão social e acessibilidade e fundadora do Conselho Estadual da Pessoa Idosa, uma efetiva inclusão social de idosos precisa passar por políticas de assistência integral, que olhem para a saúde, acolhimento institucional, acesso à cultura, ao esporte e à educação
Segundo ela, esse é um processo que corresponde a uma necessária, mas ainda não existente, estrutura de cuidado do governo com toda a população. “Em primeiro lugar, preciso falar não sobre política do idoso, como os governantes chamam, mas sobre políticas para o envelhecimento. Porque é dentro deste processo de envelhecimento que nós vamos atender a criança, o adolescente, o adulto, a idade madura, nós vamos fazer um processo de preparação das políticas públicas e de compreensão diferente do envelhecimento”, explica. 
Para Jussara, o processo de envelhecimento da população está passando rápido, mas o desenvolvimento de ações governamentais não está acompanhando. “Se nós tivéssemos uma política voltada ao processo de envelhecimento, já teríamos avanços mais significativos”, analisa. Em contrapartida, a especialista considera que as universidades estão avançando em iniciativas voltadas ao público idoso. “As nossas universidades estão trabalhando com envelhecimento, formando profissionais com disciplinas optativas, com cursos de aperfeiçoamento, procurando oferecer às pessoas capacitação e fazer pesquisa”, expõe.
A especialista cita projetos da sociedade civil como o Maturidade Ativa, do Sesc/RS e da Emater/RS, específico para a população rural. 
Jussara frisa que a “identidade da velhice” está mudando lentamente. De uma figura dependente e no esgotamento de suas capacidades, se passa a enxergar uma pessoa com muito ainda a vivenciar.

Estruturas de cuidado

Ao identificar a mudança populacional, surge a questão de como o Estado está se preparando para assegurar um envelhecimento digno e saudável para os gaúchos. Para o especialista em gerontologia, professor e membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento da Ufrgs, Johannes Doll, se deve olhar para essa parcela da população de forma integral, reconhecendo as faixas etárias dentro dos 60+. “A ‘pessoa idosa’ não existe. No fundo, é um grupo extremamente heterogêneo. [Pode ser] alguém com 60 anos que está no auge da sua profissão, ou uma pessoa com 100 anos totalmente dependente. Há pessoas que correm maratona e pessoas que não saem mais de casa”, explica.
Para Doll, é preciso pensar em políticas de acompanhamento, cuidado e moradia. “Será necessário pensar em estruturas de cuidado. Antigamente, as pessoas tinham bastante filhos, então tinha sempre alguém da família – em geral, mulheres – que ficavam com a tarefa de cuidar dos pais. É um trabalho pesado e que não deveria ficar só para as mulheres”, afirma. 
O gerontologista diz que políticas para a terceira idade ainda têm muito o que avançar. “Atualmente no Rio Grande do Sul temos a maior porcentagem de pessoas idosas que moram em instituições de longa permanência e, mesmo assim, são somente 0,2% dos idosos. E aumentará a necessidade de atender pessoas que não conseguem mais viver junto com suas famílias”, reforça. Espaços como Centros Dia do Idoso, Centros de Convivência e Instituições de Longa Permanência são exemplos.
UNIDI - UFRGS | Ufrgs/Divulgação/JC
UNIDI - UFRGS Ufrgs/Divulgação/JC

Inclusão e tecnologia para o 60+ 

Para Letícia Sophia Machado, coordenadora e professora da Unidade de Inclusão Digital de Idosos (UNIDI) da Ufrgs, a inclusão social de pessoas idosas atualmente passa pelo letramento digital. Segundo ela, o acesso a aplicativos de bancos, às redes sociais, e a aplicativos de saúde e transporte beneficia a autonomia na terceira idade. 
“Hoje em dia, tudo é feito por tecnologia, até uma transferência bancária que as gerações 60+ estão acostumadas a fazer presencialmente. Cada vez mais, prezamos pelas pessoas terem essa autonomia na vida, de escolherem o que querem comprar, o que não querem. Isso é qualidade de vida”, explica Letícia.
Desde 2009, a UNIDI oferece programas e materiais educativos no uso de tecnologias para o público mais velho. “Vemos um aumento no número de idosos, e agora com a expectativa de vida de 76 anos, estamos compreendendo que envelhecer não é ruim e que tem sim potenciais. Existem limitações fisiológicas normais no corpo, mas que isso não limita a forma criativa, não limita a forma de como essas pessoas podem contribuir na sociedade”, afirma a professora. 
Dione de Fátima é professora aposentada e aluna assídua da UNIDI. Aos 61 anos, se reúne semanalmente de forma online com o grupo, onde já teve aulas sobre inteligência artificial, aplicativos bancários, redes sociais, design no Canva e até de língua espanhola. “As aulas reavivam a nossa memória, nos mantém ligados e interessados. É um presente para nós, para o nosso dia a dia”, conta. 
Letícia diz que quanto mais diversidade de atividades no cotidiano, especialmente com interação social, mais são os benefícios para proteger a saúde cognitiva, física, e mental dos 60+. E avisa para que não subestimem a qualidade de vida possível na terceira idade.  “Envelhecer assusta, né? Ainda temos aquela ideia antiga que a gente vai ficar lá com as mulheres com coque de vovó, fazendo crochê. E nada contra. Mas é um estereótipo. E hoje as mulheres e homens estão na rua, e ainda continuam empreendendo, abrindo novas oportunidades. Temos que começar a quebrar esses paradigmas ultrapassados”, explica.

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