Pelo segundo ano seguido, o Rio Grande do Sul registrou o maior número de crimes contra a população LGBTQIAPN+ em todo o Brasil. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, foram 1.179 ocorrências em 2024, número que supera com folga os demais estados: Pernambuco aparece em segundo lugar, com 571 registros - menos da metade. Minas Gerais teve 503 casos e São Paulo, unidade federativa mais populosa do País, apenas 289.
O dado gaúcho chama atenção não apenas pela liderança isolada, mas também pela composição: 1.004 dos casos foram classificados como lesão corporal dolosa, praticamente a totalidade. O Estado também registrou 46 homicídios dolosos, uma queda de 37% em relação ao ano anterior, e 129 estupros (incluindo vulneráveis), recuo de 9,8% em comparação com 2023.
Para especialistas, o número elevado não deve ser interpretado de forma isolada. “O Rio Grande do Sul é, historicamente, um estado violento com expressões dissidentes de gênero e com as mulheres”, avalia o professor Guilherme Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). “Essa cultura de forte 'masculinidade' está muito presente. É algo enraizado na cultura gaúcha, o que explica esses dados”, continua.
A leitura é compartilhada pelo psicólogo Cristiano Hamann, professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs). Para ele, no entanto, os dados alarmantes podem, paradoxalmente, indicar um maior compromisso do Estado em enfrentar o problema:
“O RS é uma vanguarda em estratégias de proteção. Há mecanismos que permitem mapear com mais clareza essa violência. Em outros estados, a subnotificação é imensa. Talvez estejamos enxergando mais, e só assim podemos agir", afirma.
Mesmo assim, os impactos da violência são profundos. “Afeta a autoimagem, o direito de viver a sexualidade em espaços públicos, o sentimento de pertencimento”, relata Ferreira, que também atua como ativista na ONG Somos. “Entre 2021 e 2025, fizemos mais de 900 atendimentos, muitos deles focados em saúde mental. A principal demanda é por psicoterapia para tratar ansiedade, depressão e sofrimento psíquico”, relata.
Hamann reforça: “Esse estado de alerta constante tem nome: estresse de minoria. É um tipo de estresse crônico vivido por pessoas LGBTQIA+ em situações que, para outras, seriam triviais, como andar de mãos dadas. Isso corrói a saúde mental e afeta o desenvolvimento emocional desde a infância até a vida adulta”.
Ambos os especialistas apontam a educação como chave para o enfrentamento. “É pela educação em direitos humanos que se mudam mentalidades e se combate o ódio. Mas as escolas estão sucateadas e o debate de gênero foi retirado de muitos planos educacionais nos últimos anos”, alerta Ferreira. “É urgente retomar esse debate com seriedade”, afirma.
Hamann defende um duplo eixo de ação: prevenção e cuidado. “Atuamos muito na lógica do ‘crime já consumado’, com delegacias e punição. Isso é necessário, mas insuficiente. Precisamos de políticas educacionais que ensinem respeito à diversidade desde a infância, com equipes multidisciplinares nas escolas e formação continuada de profissionais”.
A interseccionalidade também é essencial para compreender a violência, lembra o psicólogo. “Não dá para pensar essa questão sem considerar classe, raça e território. Uma mulher trans, negra e periférica está exposta a muito mais riscos. Os dados mostram que essas populações têm menos acesso a políticas públicas e mais dificuldade de buscar ajuda”, amplia.
Além das violências físicas, os especialistas alertam para outros tipos de agressão frequentes. “A transfobia institucional é muito comum. Também temos muitos relatos de violência familiar, comunitária e patrimonial”, conta Ferreira. “Por isso, é fundamental fortalecer políticas públicas estruturadas e locais de acolhimento”, completa.
A ONG Somos, por exemplo, oferece atendimentos gratuitos com psicólogos, assistentes sociais e advogados, de terça a quinta-feira, para vítimas LGBTQIAPN+ em situação de violência. “Quem precisar, pode nos procurar. Apoiar essas pessoas é também enfrentar a cultura da violência”, finaliza o professor.