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Publicada em 31 de Julho de 2025 às 19:31

Saúde mental dos policiais desafia corporações no Rio Grande do Sul

Estado tem a maior taxa de suicídio de agentes de segurança do País

Estado tem a maior taxa de suicídio de agentes de segurança do País

TÂNIA MEINERZ/JC
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
A rotina policial é permeada por tensão permanente, exposição à violência e uma carga elevada de responsabilidade. Nesse contexto, a saúde mental dos profissionais de segurança pública tem ganhado cada vez mais atenção. No Rio Grande do Sul, os números evidenciam a gravidade do cenário: em 2024, 16 policiais da ativa morreram por suicídio, conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Especialistas alertam que, além das perdas de vidas, o adoecimento psicológico também pode refletir em excessos no trato com a população civil.
A rotina policial é permeada por tensão permanente, exposição à violência e uma carga elevada de responsabilidade. Nesse contexto, a saúde mental dos profissionais de segurança pública tem ganhado cada vez mais atenção. No Rio Grande do Sul, os números evidenciam a gravidade do cenário: em 2024, 16 policiais da ativa morreram por suicídio, conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Especialistas alertam que, além das perdas de vidas, o adoecimento psicológico também pode refletir em excessos no trato com a população civil.
A Brigada Militar (BM), no entanto, contesta parte desses números. "O anuário de 2025 traz dados que não correspondem aos nossos registros oficiais", afirma a tenente coronel Denise Gomes, chefe da Seção Biopsicossocial do órgão. De acordo com ela, tanto em 2023 quanto em 2024 foram registrados sete suicídios por ano entre integrantes da corporação, enquanto a publicação aponta, respectivamente, 11 e 15 casos.
O levantamento, apesar da divergência, aponta uma estatística preocupante: o RS tem a maior taxa proporcional de suicídios entre policiais da ativa no País - 0,7 por mil, mais que o dobro da média nacional (0,3 por mil). A psicóloga Fernanda Bassani, da Polícia Civil, alerta para os riscos do sofrimento invisível, reprimido por estigmas: "A violência vivenciada no trabalho, o medo de pedir ajuda e o preconceito ainda associado à saúde mental podem levar a quadros graves. Muitos enxergam o adoecimento psíquico como sinal de fraqueza. Mas não é".
Nos últimos anos, a BM tem ampliado sua rede de suporte. Atualmente, são 16 núcleos de atendimento psicológico distribuídos pelo Estado, além de unidades com psiquiatras em Porto Alegre e Santa Maria, e uma ala de internação na Capital. "Em 2018, eram apenas quatro núcleos. Aumentamos nossa capilaridade para garantir acesso", diz a major Denise.
O atendimento inclui psicoterapia, avaliação diagnóstica e grupos terapêuticos nos batalhões, especialmente após ocorrências traumáticas. Ainda assim, a resistência em procurar apoio persiste. "É uma reação humana, mas no caso do policial, ela é acentuada. Ele se vê como quem resolve os problemas, e muitas vezes não percebe que também precisa de ajuda", afirma Denise.
Para enfrentar essa barreira, a Brigada criou o Programa Anjos, que capacita agentes como facilitadores em saúde mental. Hoje, são cerca de 500 policiais treinados, além de uma escuta ativa por telefone, inspirada no Centro de Valorização à Vida (CVV). 
Na Polícia Civil, onde dois agentes se suicidaram entre 2023 e 2024, nove psicólogos atuam em atendimentos presenciais, online e por plantão 24 horas. "Também realizamos rodas de conversa nas delegacias. Isso aproxima os colegas, cria confiança e reduz a resistência", relata Fernanda.
Segundo a especialista em segurança pública, que ainda chama atenção ao fácil acesso que os agentes têm a armas letais, muitos quadros graves poderiam ser evitados com intervenções precoces. "Uma coisa é estar deprimido e não ter uma arma por perto. Outra é estar deprimido e ter uma arma na cintura", reflete.
Tanto na BM quanto na Polícia Civil, há consenso sobre o impacto direto da saúde mental na qualidade do trabalho. "O bem-estar emocional está ligado à capacidade de atuação no território. O policial precisa ser resiliente, mas também empático. Isso só é possível com equilíbrio psicológico", afirma Denise.
Fernanda acrescenta: "Casos de uso excessivo da força muitas vezes envolvem policiais adoecidos. Eles não estão apenas 'agindo errado', estão doentes, frequentemente sem saber. Isso preciso ser olhado de forma mais ampla", destaca.
As especialistas apontam ainda fatores que agravam o sofrimento: perda de colegas, medo constante de errar, sensação de pouco reconhecimento institucional e sobrecarga emocional. "Mesmo de folga, o policial segue sendo policial. Essa vigília permanente cobra um preço alto da psique", resume Denise.
Apesar dos avanços na assistência, ambas reconhecem que os desafios permanecem. “O sofrimento mental não é individual. Ele afeta o ambiente de trabalho, as famílias e a relação do policial com a comunidade. Cuidar disso é essencial”, diz Fernanda. Para Denise, o enfrentamento do problema precisa ser contínuo: “A saúde mental está no centro da qualidade do serviço público. E precisa deixar de ser tabu para ser tratada como prioridade”, finaliza.

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