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Publicada em 01 de Maio de 2025 às 18:28

Freira gaúcha que era pessoa mais velha do mundo levava vida com bom humor

Freira cultivava hobbies como pinturas em toalhas e panos ainda aos 116 anos

Freira cultivava hobbies como pinturas em toalhas e panos ainda aos 116 anos

TÂNIA MEINERZ/JC
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Ana Carolina Stobbe
Ana Carolina Stobbe Repórter
Familiares e amigos da freira gaúcha que era considerada a pessoa mais velha do mundo, que morreu nessa quarta-feira (30 de abril) aos 116 anos, despediram-se da madre Inah Canabarro em velório nesta quinta-feira (1 de maio) em Porto Alegre.
Familiares e amigos da freira gaúcha que era considerada a pessoa mais velha do mundo, que morreu nessa quarta-feira (30 de abril) aos 116 anos, despediram-se da madre Inah Canabarro em velório nesta quinta-feira (1 de maio) em Porto Alegre.
No começo deste ano, a religiosa havia se tornado a pessoa viva mais velha do mundo, após a morte da francesa Lucile Randon no mês de janeiro. A partida de Inah, considerada uma pessoa obstinada e apaixonada pela vida, foi serena e ocorreu em consequência da idade avançada.
Ela não tinha nenhuma doença. Os órgãos foram parando”, esclarece o sobrinho da religiosa Cleber Vieira Canabarro Lucas, de 85 anos.
Lucas descreve a tia como uma pessoa obstinada — o que talvez atribuiria à genética -, por Inah ser sobrinha trineta do general David Canabarro, conhecido pela atuação na Revolução Farroupilha, que ocorreu entre 1835 e 1845.
Essa característica se mostrou na sua ânsia por continuar vivendo: muito mais magra que os irmãos, ao nascer, preocupou a família, que acreditava que ela não sobreviveria por muito tempo. “Não me leve a mal, mas essa guriazinha deve ser doente e se prepare, pois infelizmente acho que não vai durar muito”, teria dito o padrinho da freira.
Aos 16 anos, Inah ingressou no noviciado em Montevideo, no Uruguai, na Companhia Santa Teresa de Jesus, na qual seguiu até o fim de sua longa vida. Ordenada freira, se dedicou à docência, tendo lecionado disciplinas como português, matemática, ciências, história, arte e religião. Para dar aulas, residiu em diferentes cidades: Rio de Janeiro, Itaqui e Santana do Livramento. Diante aos alunos, era disciplinadora e rígida, mas os conquistava com seu lado carinhoso.
Se ela viu a história de perto, também participou dela. Afinal, foi professora do general João Figueiredo, que se tornou posteriormente Presidente da República durante o Regime Militar. “Mas tu eras um guri levado, hein?", teria dito a freira a ele durante uma visita do general a Itaqui, conforme relembra Cleber. Na ocasião, Figueiredo a procurou para cumprimentá-la com um abraço.
Ao longo dos 116 anos, ela também recebeu presentes que ainda hoje seriam o sonho de muitas pessoas. Um deles, veio no aniversário de 110 anos: uma bênção papal enviada pelo próprio Papa Francisco, falecido no último dia 21. Cleber relembra da honraria ter vindo “com foto, num belo e colorido pergaminho”.
Outro deles veio do Sport Club Internacional — time pelo qual Inah era torcedora fanática e que era apenas um ano mais novo que ela. “Tem uma bela maquete do novo Estádio Beira-Rio, presenteada pela direção do time enquanto ainda estavam fazendo a sua reforma. Essa maquete toca o hino do Inter ao mesmo tempo em que faz um lindo jogo de luzes vermelhas. É uma belíssima recordação”, conta Cleber.
A paixão pelo time era visível no seu quarto. Além de uma coleção de camisetas do clube com seu nome e números que simbolizavam sua idade, ela tinha “colchas, toalhas, chinelos, mantas e na parede um relógio e um quadro, que fazem o seu quarto de dormir ficar num colorido vermelho digno de uma colorada fiel”, acrescenta o sobrinho.
Nos últimos anos de vida, a freira já estava com dificuldade de locomoção e de fala, assim como problemas de visão e audição. Mas, conforme o sobrinho, encarava a vida com otimismo e bom humor. Mas, mesmo assim, mantinha as orações e cultivava hobbies: fazendo pinturas em toalhas e plano de pratos. Na companhia de outras freiras amigas, jogava baralho, com preferência para partidas de paciência e canastra. 
Desde seus 110 anos, ela tinha também um "jargão" na manga para quando lhe perguntassem como estava: ”Eu? Cada vez mais jovem e mais bonita!”, compartilha seu sobrinho. E, dessa maneira bem humorada, levou a vida até o fim. 

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