O uso de celular ao volante continua entre as principais causas de infrações de trânsito no Rio Grande do Sul e no Brasil. Dados do Departamento Estadual de Trânsito do RS (Detran/RS) mostram que, no último ano, foram registradas 89.513 autuações por essa conduta, um aumento de 2,09% em relação a 2023. Só em janeiro de 2025, já houve 3.814 registros no Estado.
Em todo o País, a prática só fica atrás do excesso de velocidade e da embriaguez entre as principais causas de sinistros. Atender chamadas, enviar mensagens ou navegar em redes sociais são comportamentos que aumentam significativamente os riscos de acidentes.
Para a diretora institucional do Detran/RS, Diza Gonzaga, o impacto do celular no trânsito se assemelha ao do álcool, sendo um dos principais fatores de risco para acidentes. "O problema é que a grande maioria das pessoas que usa o celular ao volante não é flagrada. Ele está ameaçando vidas da mesma forma que a bebida estava há alguns anos, quando era normalizada. Ambos comprometem a atenção e os reflexos do condutor", afirmou.
Ela explica que, mesmo quando utilizado no modo viva-voz, o aparelho compromete a atenção do motorista. "A gente usa as mesmas conexões neurais para responder no celular e para manter a atenção ao dirigir. A distração é inevitável", detalha. Outro agravante citado são os aplicativos de GPS e transporte, que levam os condutores a manterem o celular constantemente no painel, desviando o olhar da pista.
A fiscalização desse tipo de infração, segundo Diza, é complexa. "Quando um agente para o veículo, o condutor pode rapidamente esconder o aparelho, dificultando a autuação." Por isso, o Detran/RS aposta na conscientização como estratégia principal para reduzir o problema. A Escola Pública de Trânsito é citada como exemplo de tentativa de sensibilizar os motoristas sobre os riscos da prática: "precisamos fazer com que o uso do celular ao volante seja socialmente reprovado, assim como aconteceu com a embriaguez", defende.
Além do conhecimento empírico, estudos reforçam os perigos do uso do telefone ao volante. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 2022, avaliou a atenção de motoristas jovens ao utilizarem o WhatsApp enquanto dirigiam. Em um simulador, os participantes passaram por três cenários: sem o uso do celular, respondendo a áudios e enviando mensagens de texto.
Os resultados mostraram que o uso de mensagens de texto prejudica significativamente a condução: os motoristas reduziram a velocidade, desviaram mais lateralmente e tiveram reflexos mais lentos para frear em situações inesperadas. Já os que apenas enviavam áudios também tiveram sua dirigibilidade afetada, mas em menor escala.
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê penalidades altas para essa conduta. Quem for flagrado dirigindo sem atenção aos cuidados indispensáveis à segurança recebe multa e três pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O uso de fones conectados ao celular ou a aparelhos sonoros configura infração média, resultando em quatro pontos na carteira e multa. Já manusear o telefone ao volante é considerado infração gravíssima, acarretando sete pontos na CNH e multa.
A diretora do Detran/RS enfatiza, porém, que a solução para o problema passa pela mudança de cultura. "Já há punições severas. O que precisamos é mudar o comportamento dos motoristas, investir em educação e reforçar a fiscalização para que a percepção de risco aumente", finaliza.