"Digo que é meu irmão mais novo, o quintal da minha casa", declara Tiago Rheinheimer, empreendedor à frente do Chipp's Bar, tradicional casa noturna de Porto Alegre inaugurada em 1981. Localizado na avenida Getúlio Vargas, no bairro Menino Deus, o negócio, reinaugurado há duas semanas, hoje é administrado por Tiago e sua tia, Neides Rheinheimer, porém, quem esteve à frente por décadas da casa foi Airton Rheinheimer, pai de Tiago, conhecido também como Capa, falecido em 2023.
"Depois de seis anos fechado, estou tentando contar a história do bar em um espaço novo, mas onde tudo começou. O Chipps era só isso aqui, eram shows com voz e violão e, no intervalo, os músicos colocavam em uma rádio", conta Tiago.
Há mais de 40 anos, quando abriram, o Chipp's operava somente no local em que hoje está o espaço dedicado ao pai. "Quando começamos, atendíamos no máximo 100 pessoas. Com o tempo, o bar foi crescendo. Nos anos 1990, foi adquirida mais uma parte do bar, onde é a pista hoje", comenta Tiago, sobre o boom das casas noturnas no fim dos anos 1990. "Foi aí que as casas noturnas grandes tiveram início, a Berlim, o Santa Mônica, o Dado Bier, e ampliamos a casa para ficar no mesmo nível e patamar", explica o empreendedor.
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Entrando na casa noturna, à esquerda da pista de dança, um espaço chama atenção. Batizado como Lounge do Capa, em uma homenagem a Airton, as paredes azuis estampam partes da história do local, que se confundem com a própria história da família. Recortes de jornais, fotos, lembranças e presentes de amigos compõem a galeria que apresenta brevemente o impacto do estabelecimento na cena noturna porto-alegrense. Além de contar a história do Chipp's, o espaço foi pensado para o cliente que quer conforto, sem deixar de experienciar o ambiente de festa. Com bancos estofados em couro caramelo, mesas e cadeiras, com vista para a pista de dança, o espaço é perfeito para relaxar.
Legado de Capa
Antes de assumir o Chipps, Airton comandava uma lanchonete ao lado do Estádio Olímpico Monumental. "Um certo dia, o Silvio, pessoa que abriu o Chipp's, disse que tinha um bar e queria um sócio, e o pai entrou na sociedade. Durante um ano, ele nem sabia o que era o negócio", admite Tiago.
De acordo com o empreendedor, quando o pai assumiu o negócio, a situação era desafiadora, mesmo sendo um estabelecimento relativamente novo. Depois de tomar a frente da administração do Chipp's e comprar a parte do outro sócio, ele começou a transformar o local que viraria um clássico da noite porto-alegrense. "E, desde então, só a pandemia que parou ele", relata.
Lounge no Chipp's Bar homenageia Airton e a história do local
Fernanda Bigio Davoglio/Especial/ JC
Já Tiago entrou na casa pela cabine de DJ. Em 1994, aos 14 anos, o empreendedor passou a ser responsável pelos lineups da casa de festas. Agora, fora das cabines e à frente do negócio, ele se dedica em dar continuidade ao legado do pai. "É um caminho árduo. Bem difícil dar segmento ao que começou com ele. Como sempre fui DJ, tinha outra visão do bar", explica, sobre a mudança de posição.
Apesar dos desafios, o legado permanece nos mínimos e grandes detalhes. Para além das homenagens ao Capa, o local conta com histórias de vida que o pai de Tiago ajudou a transformar. Varrendo o salão e organizando as mesas e cadeiras do local na manhã de uma terça-feira ou lavando os copos nas noites de festa, está Wagner Borges da Silva, ou Dário, como é conhecido por todos. “As pessoas brincam e falam ‘esse aí é o cria do Capa’”, comenta o ajudante geral. Após 16 anos em situação de rua, Dário encontrou no Chipp’s uma forma de mudar o rumo da própria vida. Longe das ruas há cinco anos, o profissional esbanja alegria e apreço pela relação construída com a família à frente do estabelecimento.
“Ajudei a construir a pista e, na enchente, ajudei na faxina. A gente tem uma história legal. Eles me ajudaram e eu continuo ajudando eles. Não tinha mais esperança de voltar ao trabalho, depois de mais 16 anos de rua. Hoje, eu tenho uma vida digna, trabalho, tenho onde morar, tenho um emprego fixo, ando bem arrumado, tenho banho para tomar”, comenta orgulhoso.
“Ajudei a construir a pista e, na enchente, ajudei na faxina. A gente tem uma história legal. Eles me ajudaram e eu continuo ajudando eles. Não tinha mais esperança de voltar ao trabalho, depois de mais 16 anos de rua. Hoje, eu tenho uma vida digna, trabalho, tenho onde morar, tenho um emprego fixo, ando bem arrumado, tenho banho para tomar”, comenta orgulhoso.
Adaptação e público amplo
O Chipp's recebe hoje os mesmos clientes que frequentavam a casa nos anos 1980. "Eles estão com 60, 70 anos, mas ainda vêm aqui. Digo que é um bar de família, porque os filhos vêm, depois os netos e eles continuam a tradição. O Chipp's é um bar atemporal", afirma o empreendedor, explicando que a casa noturna tem um repertório musical amplo, sem focar em um segmento específico.
"O nosso diferencial é a música. Eles se identificam com o que rola aqui. E o atendimento de qualidade e próximo também é um ponto de destaque", salienta. Outro ponto que diferencia o local é a estrutura. "Essa arquitetura é uma característica das baladas dos anos 1980 e 1990. Tinham esse cuidado de decoração e continuamos trabalhando desta forma, apesar de ser uma coisa que se perdeu ao longo do tempo", constata Tiago.
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Após mais de meia década fechado, devido à pandemia de Covid-19 e às enchentes de 2024 que impactaram diretamente o estabelecimento, o retorno há duas semanas marca um novo período para o negócio. O empreendedor explica que a ideia agora é explorar mais eventos temáticos como Halloween e outras datas.
Sobre o cenário local, Tiago enxerga a noite como um camaleão. "Ela vai se transformando com o tempo. Uma época, o point já foi a Getúlio Vargas, a Dom Pedro II, a 24 de Outubro, hoje tem um foco maior no 4º Distrito", reflete. Apesar das transformações e dos desafios, ele acredita no segmento. "Tinha uma coisa que o pai falava e eu acredito muito. 'A boemia não morre, a boemia se transforma. Sempre vai ter gente boêmia'".
Endereço e horário de funcionamento
O Chipp's Bar está localizado na avenida Getúlio Vargas, nº 254, no bairro Menino Deus. O estabelecimento opera as sextas e sábados, das 21h às 4h.

