Quem já esteve na Estação Rodoviária de Porto Alegre provavelmente notou um senhor em frente a um estabelecimento, vestindo uma camisa xadrez laranja e observando, atento, o movimento dos transeuntes. Dervile Luiz Bombassaro, conhecido como Passarinho, comandou por 30 anos o restaurante que leva seu apelido e virou parada obrigatória para viajantes. Personagem e parte da história do terminal, hoje ele se encontra afastado da rotina: quem gere a operação é sua esposa Meri Bombassaro e seu filho Diogo Bombassaro.
A história desse ponto tradicional, contudo, começou um andar acima. Antes da criação do Passarinho em novembro de 1996, o fundador tocava com o irmão a Churrascaria Gauchão, localizada no segundo piso, onde hoje funciona a sala de embarque do terminal.
Dervile Luiz Bombassaro, mais conhecido como Passarinho. Estação Rodoviária de Porto Alegre - Churrascaria
Passarinho/Divulgação/JC
Movido pelo desejo de empreender sozinho, Passarinho vendeu sua parte da sociedade para o irmão e, concomitantemente, negociou a compra do novo espaço no andar de baixo. Foi ali, ao lado da esposa Meri, que deu início ao negócio próprio que viria a se tornar referência pelos viajantes.
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A água levou tudo, menos a história
Essa trajetória de dedicação familiar enfrentou seu teste mais severo nas enchentes de maio de 2024 — quando a água tomou conta das instalações por 30 dias e deixou o restaurante quase quatro meses inoperante. O prejuízo foi total, superando a pandemia.
"Na pandemia a gente ficou parado, mas a empresa estava íntegra. Só que a enchente acabou com tudo, ficamos com 1,80 m de água dentro da loja, foi o momento mais desesperador em 30 anos. Acho que nem no início foi tão difícil para o meu pai começar quanto essa questão", revela Diogo.
Dervile Luiz Bombassaro, mais conhecido como Passarinho. Estação Rodoviária de Porto Alegre - Enchente
Passarinho/Divulgação/JC
A reconstrução do espaço acabou acelerando um desejo antigo de renovação de marca. Logo após a reabertura, a identidade visual passou por uma repaginada radical: saiu o logotipo com a figura de um pássaro e entrou a caricatura do próprio Passarinho.
"Antes era um bicho mesmo, um pássaro, e aquilo sempre me incomodou, porque meu pai é uma pessoa, não um bicho", explica Diogo.
Laranja que virou marca registrada
A origem do carismático apelido, por sinal, não é consenso e se divide entre as lendas de família. A teoria que mais se sustenta é que ele assobiava muito quando criança, tal qual um passarinho, esclarece Diogo.
Nesse rebranding, entrou em ação a famosa fachada laranja, que há cerca de 10 anos colore o corredor de embarque. A escolha da cor começou como evolução de um pioneirismo do fundador: antes mesmo dos anos 2000, quando a informalidade imperava na rodoviária, o empreendedor modernizou o atendimento com garçons vestidos de traje social.
"Hoje, muita gente diz: 'ah, vai lá no laranja'. Às vezes, não lembra nem o nome do restaurante, mas sabe que a gente é o laranja de muito tempo", orgulha-se Diogo.
Mais do que comida, uma parada obrigatória
Além da identidade marcante, o restaurante se consolidou por oferecer uma alta qualidade de atendimento. Segundo Diogo, essa postura não fidelizou apenas o público em um ambiente de fluxo tão intenso como a Estação Rodoviária de Porto Alegre, mas também formou uma equipe de garçons longeva, com colaboradores de até 15 anos de casa.
Dervile Luiz Bombassaro, mais conhecido como Passarinho. Estação Rodoviária de Porto Alegre
Passarinho/Divulgação/JC
"A gente sempre prezou pelo atendimento e pela qualidade dos produtos, até, entre aspas, não se importando muito com o preço. O foco que a gente dá no atendimento e nos produtos premium se justifica", revela.
No cardápio, o foco são os pratos à la carte com ingredientes de primeira linha, deixando os lanches rápidos em segundo plano.
"O nosso forte é a comida, os pratos à la carte. Nós não temos pratos diferentes, temos combinações com os mesmos insumos — como um prato com bife, arroz e salada — e o cliente vai servindo conforme quer. Tem lanches também, mas não é o nosso carro-chefe", explica Diogo.
Como 30 anos de história não são 30 dias, o filho de Passarinho faz questão de enfatizar as lembranças contadas pelos passageiros. "Tem clientes que vinham quando eram mais novos, casais, daí o marido ou a mulher faleceu, a pessoa hoje vem sozinha e conta sua história, compartilha a dor. É uma identificação muito forte", diz.
Próximo destino do Passarinho
Pensando no futuro, o restaurante planeja desembarcar fora do terminal rodoviário. Diogo, que lidera atualmente a estruturação e o mapeamento dos processos internos para garantir um crescimento sólido, projeta a abertura de uma nova unidade em Porto Alegre até 2027. Além desse passo, há a vontade de construir mais filiais até 2030, sem contar o fortalecimento da marca com produtos personalizados, como cafés especiais da casa.
"A gente está criando todos os processos certinhos, fazendo os manuais e documentos necessários para crescer com estrutura, e não simplesmente fazer de qualquer jeito para ver o que vai dar", projeta Diogo, que, fora o restaurante, também gere uma quadra de esportes em Alvorada que leva o nome do pai.

