Pamella dos Santos tem 27 anos e carrega um sonho em duas rodas. Na bicicleta em que transporta uma caixa de madeira, ela percorre Esteio e arredores com a Cravo Cafeteria Móvel (@cravocafeteriamovel), marcando presença em feiras e eventos pela cidade para oferecer o que sabe fazer de melhor: café.
A empreendedora solo está nessa correria desde março, tendo o seu pequeno negócio como consequência de um episódio doloroso. A iniciativa nasceu quando Pamella perdeu a mãe. "Nos primeiros dias, óbvio, fiquei bem mal do luto, porque tu perdes uma pessoa que tu amas muito e, de repente, teus dias vão ficando sem sentido. Mas, depois de um tempo, comecei a pensar no que poderia fazer para continuar existindo, algo que eu idealizasse e colocasse a minha energia para voltar a dar sentido aos meus dias”, confidencia.
Foi nessa busca por um novo propósito que a empreendedora decidiu aliar sua força de vontade com a paixão por cafés de alta qualidade. Sem muito capital para um grande investimento, Pamella comprou no marketplace do Facebook uma food bike usada que antes vendia açaí.
"Sabia que aqui em Esteio não tinha nada parecido. Na verdade, nem sabia que existia esse termo (food bike). Para mim, era carrinho de ambulante, tipo trailerzinho. Pensei: por que não começar com uma bike?”, lembra.
Da filosofia de vida ao negócio
Por ser vegana, ela estruturou um cardápio 100% livre de ingredientes de origem animal. O foco está na excelência dos insumos, como o café espresso, feito com grão especial moído na hora, e os leites vegetais utilizados são edição barista.
O campeão de vendas é o cappuccino, uma combinação de café espresso, leite vegetal e canela. Para complementar, a cafeteria oferece sodas italianas, chás, chocolate quente e cookies veganos produzidos pelo seu marido Guilherme. Os clientes também podem levar a experiência para casa, adquirindo o café especial da marca Cravo, vendido em grãos ou moído — o pacote de 250g sai por R$ 49,00.
Desafios da food bike
Apesar da Cravo ter pouco tempo de estrada, a empreendedora já participou de diferentes eventos, com destaque para o Rock na Praça, festival independente realizado há 24 anos na Praça Coração de Maria, em Esteio. Assim como em outras feiras, Pamella pedalou até o local. Contudo, como ela própria descreve, nem sempre é fácil carregar um negócio, ainda mais em duas rodas. O trabalho apresenta desafios, principalmente em relação ao esforço corporal envolvido.
"Na caixa, consigo levar todos os meus insumos e equipamentos, mas é pesado: só a máquina de café tem 11 kg. Ainda tem os coolers, porque faço algumas bebidas geladas, então preciso levar gelo. É pesado, mas acaba sendo uma aventura também, é bem engraçado fazer esses trajetos”, conta.
O maior desafio atual da Cravo é a dependência de energia elétrica. Por precisar ligar a máquina de café espresso na tomada, Pamella não consegue trabalhar todos os dias na rua como ambulante, ficando restrita a feiras e eventos autorizados que forneçam essa estrutura.
Essa imprevisibilidade na agenda gera um risco financeiro: se ela abre uma caixa de leite vegetal, por exemplo, e não tem eventos nos dias seguintes, acaba perdendo os insumos. Segundo Pamella, o grande obstáculo hoje é, justamente, dar conta de pensar em novas oportunidades para o negócio continuar existindo.
Para contornar adversidades como essas e atrair mais público, ela aposta na comunicação. O percurso e os bastidores são gravados e expostos nas redes sociais da empreendedora, o que vem ajudando a fortalecer a marca e a cartela de clientes, que a encontram com a ajuda do algoritmo.
"Consigo ter facilidade em criar conteúdo, o marketing é uma área pela qual sou genuinamente atraída, então isso ajuda bastante”, aponta Pamella.
A Cravo tem um campeão de vendas: o cappuccino feito com leite vegetal
Cravo Cafeteria Móvel/Divulgação/JC
Resultados do pedal
Mas a luz, em breve, não será mais um impeditivo. A empreendedora planeja abrir a Casa Cravo, uma microcafeteria física de 28 m². O local terá poucas mesas, luz indireta, muitas plantas e atividades culturais — como oficinas de escrita criativa, que é um dos hobbies de Pamella.
"Não quero que ela seja só uma microcafeteria. Quero que, de fato, lembre essa essência de casa, que é uma coisa que já tenho na bike, de relações, de troca", projeta.
"Não quero que ela seja só uma microcafeteria. Quero que, de fato, lembre essa essência de casa, que é uma coisa que já tenho na bike, de relações, de troca", projeta.
O objetivo não é ser um estabelecimento grande, mas sim um espaço aconchegante que lembre um chalé, inspirado na sua própria residência, imóvel que construiu do zero ao lado do marido.

