No Rio Grande do Sul, a conta de luz deixou de ser vista apenas como uma despesa fixa para se tornar componente estratégico em sustentabilidade, economia e resiliência. O Estado está em transição energética: é o 4º maior produtor de energia solar do Brasil, com 3,68 milhões de kW de potência instalada, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), e o mercado gaúcho consome 43% de sua eletricidade no Mercado Livre de Energia, conforme dados da Associação Brasileira de Comercializadores de Energia (Abraceel).
Com a urgência da descarbonização e a contagem regressiva até novembro de 2027 — quando pequenos comércios e residências poderão negociar tarifas livremente —, o empresariado busca soluções para estancar desperdícios e evitar multas. Para ajudar empresas e pessoas a compreender e reduzir o consumo de energia elétrica, atua a Energia das Coisas (@_energiadascoisas), startup fundada em 2021 pelo empreendedor Rodrigo Lagrecca. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Rodrigo tornou-se entusiasta da eficiência energética. Vinculada ao NAVI, hub de Inteligência Artificial e Ciência de Dados do Tecnopuc e Wisidea, a empresa monitora o consumo elétrico de indústrias, empresas e comércios para evitar gargalos operacionais, reduzindo custos.
Em 2026, a Energia das Coisas lançou uma Inteligência Artificial que cruza dados de energia com momentos de baixa operação, apontando oportunidades para reduzir gastos. “A IA também consegue identificar ineficiências nos sistemas elétricos e nas operações. Além disso, é capaz de avaliar o nível de obsolescência de ativos, como motores e máquinas, indicando o quão defasados eles estão. Com isso, conseguimos calcular o ROI de um retrofit ou, quando o grau de obsolescência é muito elevado, recomendar a substituição desse ativo”, elucida.
Eficiência gera resultados
A precisão tecnológica já gera resultados para a empresa, avalia Rodrigo. “Operações como a nossa permitiram identificar oportunidades de redução de uso de energia que, em alguns casos, chegaram a 50%, principalmente em ambientes multiusuários, onde há mais de uma empresa ocupando a mesma área e o controle é ainda mais difícil”, destaca, em referência a shoppings e hotéis, por exemplo.
Os números atraíram clientes de peso em diversos setores. O portfólio inclui gigantes como a Cutrale, produtora de laranjas e seu maior cliente; a Tegra Incorporadora, uma das maiores imobiliárias do Brasil; a indústria do setor automobilístico de luxo Forvia Hella e polos de eventos como o São Paulo Expo e o Fundaparque, em Bento Gonçalves.
O marco de Hannover
mo à IA foi validada internacionalmente em abril deste ano, na Hannover Messe, maior feira de tecnologia e inovação industrial do mundo, na Alemanha. A participação na feira foi considerada um marco por Rodrigo. A Energia das Coisas viajou para expor o trabalho, conectar-se com novos parceiros e iniciar a expansão global.
“A Feira de Hannover serviu para validar essa estratégia, que faz com que empresas que inclusive seriam concorrentes passem a se tornar clientes e até parceiros de negócio”, resume. Enquanto empresas parceiras vendem os sensores e lidam com as burocracias de homologação fora do Brasil, a Energia das Coisas entra com o cérebro da operação, aliando IA à otimização dos dados.
Dois meses depois, a startup foi ao Energy Summit, no Rio de Janeiro, onde conquistou o 3º lugar na categoria Startups Early e Growth Stage.
Dado esse desempenho, a projeção de faturamento da empresa para 2026-2027 está entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões.
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O desafio da descarbonização pós-2024
O cenário climático impulsionou tecnologias de eficiência energética. Rodrigo entende que a enchente de maio de 2024 serviu como alerta definitivo, aumentando exponencialmente a consciência coletiva sobre a necessidade de descarbonizar as atividades produtivas, embora o mercado viva um paradoxo.
“Indiscutivelmente serviu para aumentar o nível de consciência coletiva sobre a necessidade de investir em tecnologias. No entanto, o que eu percebo é que estamos no caminho, mas não na mesma velocidade. Os investimentos ainda não acompanham a curva de conscientização”, observa.
O futuro é logo ali
A seguir, a Energia das Coisas está de olho nas mudanças regulatórias no Brasil. Atualmente, todos os consumidores do Grupo A — atendidos em alta tensão — já podem contratar energia no Mercado Livre de Energia. A Lei nº 15.269/2025 estabeleceu a ampliação gradual desse direito para os consumidores de baixa tensão, o chamado Grupo B. Até novembro de 2027, a abertura deverá alcançar os consumidores industriais e comerciais, e, até novembro de 2028, os demais consumidores, incluindo as residências. Com isso, milhões de brasileiros passarão a poder escolher de qual empresa comprar energia elétrica.“Esse movimento vai trazer oportunidades de maior concorrência e, portanto, mais necessidade de diferenciação”, avalia.
Estudante da Ufrgs cria solução em energia que reduz custos de empresas no RS
A SmartSpaar trabalha no modelo success fee: o cliente só paga quando há economia na conta de energia
Filho de eletricista, Fernando Libano, graduando em Economia pela Ufrgs, demonstrava interesse por energia e por como ela pode mudar o mundo desde pequeno. Tanto que muitas fotos de sua infância o mostram brincando com componentes elétricos, como isoladores. Hoje, ele se define como um explorador de novas soluções energéticas, especialmente após lançar, em 2025, a SmartSpaar (@smartspaar), empresa que utiliza análise de dados e linguagem natural para otimizar o custo do transporte de energia, ajudando negócios a evitar multas e pagamentos por demandas não utilizadas.
A ideia embrionária, no entanto, surgiu em 2023, a partir de um projeto de extensão do curso. O jovem identificou que as empresas não tratavam a energia como um insumo produtivo estratégico. Pelo contrário, carregavam uma visão equivocada de que a conta de luz é apenas uma despesa mensal.
"A energia elétrica é vista praticamente como um aluguel, uma coisa que é consumida todo mês, só tem que pagar e acabou. Não. Ela é um insumo para a produção e operação dos negócios", defende Fernando.
O universitário entende que sua startup atua justamente na dor do cliente, que, muitas vezes, não consegue sozinho aprender ou tomar a melhor decisão na hora de contratar energia. "Dessa maneira, ele acaba não tomando escolha nenhuma e perdendo com isso", completa.
Resolver a dor das empresas
Para dar vida a essa solução tecnológica, Fernando não está sozinho. Ao seu lado, formam a linha de frente da startup Guilherme Goulart Brenner, sócio e CTO; Nathan Squefi, Tech Lead; e Rafael Veloso, engenheiro parceiro responsável pela modelagem das soluções de eficiência energética.
Incubada no Centro de Empreendimentos em Informática (CEI) da Ufrgs e apoiada pelo Fundo Amanhã, a empresa também ganhou força no Ecossistema Veleiro, hub de inovação em Dois Irmãos, no Vale dos Sinos.
Para explicar o problema que resolve, Fernando usa uma metáfora. "Vamos usar a analogia da água: não é o quanto se consome, mas o tamanho do cano", diz.
Ele explica que o principal gargalo para empresas em média tensão — com transformador próprio — é o custo de transporte da energia, ligado à reserva de capacidade da rede.
O estudante de Economia da Ufrgs espera faturar R$ 100 mil em 2026 com sua startup
SmartSpaar/Divulgação/JC
Como a operação não é estática e varia ao longo do tempo, como o gasto com ar condicionado, que muda conforme a estação do ano, assim como a produção industrial, que oscila em período de férias coletivas, o contrato de energia não deveria ser fixo. Sem esse pensamento de gestão, Fernando afirma que as empresas pagam multas por ultrapassar limites ou por possuir capacidade ociosa, gastos dos quais não precisavam.
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Inteligência sem custos iniciais
A plataforma se estabelece como uma SaaS, ou EaaS, termo que Fernando quer popularizar. A chamada Energy as a Service é um modelo de negócios de assinatura onde empresas como a SmartSpaar gerenciam e otimizam a infraestrutura energética de um cliente. O sistema cruza dados históricos da fatura com informações operacionais do cliente, como projeção de demanda ou emissão de notas fiscais.
Com isso, a plataforma prevê o consumo energético e ajusta o contrato com a concessionária, garantindo que a empresa pague somente pelo que realmente utiliza.
O modelo de negócio é baseado em success fee, ou taxa de sucesso. "O cliente não precisa pagar nada antes. Ele só paga a partir do que conseguimos economizar para ele", afirma.
A startup atende 10 unidades consumidoras em Porto Alegre e no Vale dos Sinos, com expansão para o Noroeste do Estado e Vale do Taquari. A previsão conservadora é de R$ 100 mil de faturamento no primeiro ano.
As otimizações têm gerado reduções entre 10% e 15% na conta de energia, inclusive em empresas que já atuam no Mercado Livre de Energia — ambiente de negociação onde consumidores podem comprar energia elétrica diretamente de geradores ou comercializadores, fugindo das tarifas tabeladas da concessionária local. Um caso que Fernando sente orgulho de divulgar, foi quando sua análise identificou cobranças indevidas que representavam cerca de 20% da fatura, o que gerava créditos equivalentes a duas contas.
Impacto além da conta de luz
Para Fernando, reduzir custos é apenas o primeiro passo de uma transformação de impacto mais ampla, impulsionada pela enchente que assolou o Rio Grande do Sul em 2024.
Com raízes na cultura de cooperação do interior gaúcho, ele vê a tecnologia como ferramenta de reconstrução. "A enchente foi um chamado. O povo gaúcho pode usar a tecnologia para enfrentar a mudança climática sem abrir mão do desenvolvimento", diz.
O impacto, conforme o universitário, alcança o sistema elétrico como um todo. Com uma maior precisão em relação às demandas de cliente, a EaaS ajuda, de tabela, geradoras, transmissoras e distribuidoras a se planejarem melhor, evitando desperdícios e até a necessidade de acionar termelétricas em momentos críticos.
"O compromisso com as pessoas e o setor produtivo é coletivo", afirma. "Nosso propósito é impactar positivamente negócios e a vida das pessoas no Rio Grande do Sul, com tecnologia na vanguarda da transição energética", conclui.
Empresa gaúcha mira na demanda de veículos elétricos
Com mais de 400 projetos de energia solar entregues, a Sevenia blindou sua operação garantindo atendimento ágil em um raio de até 150 km de Porto Alegre
Em 2015, quando pouco se falava em energia solar nas residências, a Sevenia (@sevenia.solar) já dava seus primeiros passos num mercado que começou tímido, e hoje está presente em muitos telhados. Com 11 anos de estrada, a empresa acompanhou e se adaptou às mudanças drásticas de cenário de energia fotovoltaica. A potência dos painéis solares mais que dobrou, tornando as instalações mais baratas e descentralizadas, como afirma o diretor comercial Humberto Macedo, que nota um tempo de retorno financeiro menor em comparação aos primórdios.
“Vamos comparar as placas com o carro. Antigamente, tinha os carros 1.0. Em 2015, existiam as placas de 270W. Hoje, os painéis são motores ‘4.0 turbo’, com 600W de potência. A energia solar se paga em no máximo 3 anos para uma casa que gasta R$ 600,00 de luz. Lá em 2015, eram 9 anos para ter o retorno. O investimento baixou no mínimo quatro vezes do que era”, aponta o sócio, que elenca a experiência como aliada fundamental para enfrentar turbulências do setor.
Com um portfólio robusto, a empresa já implementou mais de 400 projetos no Estado. São cerca de 6 mil painéis solares em operação que, juntos, ultrapassam a marca de 2,4 milhões de quilowatts-hora (kWh) de energia limpa gerada, volume impulsionado por uma clientela bem definida. “A gente tem bastante instalações em escolas da rede particular e pequenos comércios, além de residências”, detalha Humberto.
Estar perto faz sentido
Para dar conta dessa demanda, a empresa atua em um raio estratégico de até 150 km de Porto Alegre, reunindo cidades da Região Metropolitana, Litoral e Região Sul. Conforme Humberto, a limitação geográfica não é por acaso. “Caso precise de um pós-venda, a gente consegue facilitar o atendimento e agir mais rápido. Além disso, se a distância for muito alta, não conseguimos manter um preço competitivo devido ao frete e ao deslocamento da equipe, o que nos deixaria fora da concorrência”, justifica o diretor.
Essa proximidade com o cliente virou um trunfo, especialmente depois do baque da pandemia. Humberto conta que o mercado de energia solar inflou e, com a mesma velocidade, viu muitas empresas fecharem as portas.
Para fugir disso, a operação, que hoje trabalha num modelo mais enxuto com estrutura home office e foco em mão de obra terceirizada, aposta as fichas no acompanhamento de longo prazo.
“A gente monitora tudo via aplicativo da geração. Tem muita gente no mercado que vende e abandona”, diz o diretor.
Oportunidade no setor automotivo
Hoje, a maior parte dos novos clientes, chega por indicação. Além dos telhados, outro nicho que começa a ganhar espaço na rotina da Sevenia é o de carregadores para veículos elétricos. Embora essas instalações representem uma fatia menor, apenas 5% dos atendimentos, a tendência é de crescimento dessa demanda. No entanto, o novo mercado tem obstáculos, entende Humberto.
“Na garagem de casa é simples, já em condomínios é bem mais burocrático. Tem que passar por regras, questão de PPCI. Existem muitos prédios antigos, então, para mexer na elétrica, pode acabar sobrecarregando.”
Além do mais, as próprias concessionárias já costumam entregar os carregadores junto aos veículos, o que torna esse segmento mais apertado e com margens de lucro menores.
Novas formas de vender
De olho nos próximos passos, a ideia é investir na equipe técnica para dar conta dos carregadores e, paralelamente, fechar parcerias com grandes usinas solares. O alvo da vez é a energia por assinatura. O modelo, segundo Humberto, é a salvação para negócios que não podem instalar placas próprias — como um restaurante em um imóvel alugado —, mas querem fugir da conta alta.
Em vez de colocar painéis no telhado, o cliente aluga uma cota de energia que é gerada por uma grande usina em outro lugar. A energia vai para a rede elétrica e o cliente recebe o benefício. "Tu consegue ter um desconto na conta de 10% a 15%", projeta o sócio, mapeando o que deve ser a próxima fase da Sevenia.

