Sid ergue um paletó, examina a costura e encontra um desalinhamento quase imperceptível. Qualquer cliente, provavelmente, jamais perceberia. Ele, sim. Desmancha parte da costura e começa de novo. "O pessoal diz 'deixa assim, ninguém vai ver'. Mas eu vou ver. O cliente pode até não perceber, mas eu estou vendo. Então eu desmancho e faço outra vez." Aos 73 anos, Sidnei Lima de Souza transformou o perfeccionismo em marca registrada e segue resistindo em uma profissão que encolheu com o avanço da produção em escala, das franquias de ajustes rápidos e da moda descartável.
Enquanto boa parte do mercado da costura se reorganizou em grandes redes especializadas em pequenos consertos, Sid continua fiel ao modelo de ateliê onde quase tudo pode ser feito: da barra de uma calça a um casaco inteiro, de uma toga de formatura a uma roupa para ensaio de revelação de bebê. "Não escolho trabalho. Se chegar um casaco, eu faço. Se chegar um paletó, eu faço. Se chegar uma roupa complicada, eu faço também. O importante é respeitar o serviço", declara.
A história começou por acaso, muito antes de ele imaginar que viveria da profissão. Autodidata, nunca frequentou um curso de costura. "Acho até que isso me atrapalha um pouco, porque quem faz curso aprende o caminho certo. Acabo dando uma volta maior para chegar ao mesmo resultado. Demoro mais, mas faço", explica o costureiro.
Na década de 1970, quando Sid tinha entre 15 e 16 anos e morava em Santa Maria, decidiu que queria uma calça nova para a tradicional festa de Nossa Senhora Medianeira. Na data, a mãe dele estava viajando e o próprio resolveu comprar o tecido e realizar a peça sozinho. O resultado foi desastroso. "A calça serviu meia bunda", conta, rindo da própria história. A parte de trás ficou baixa demais. Sem conhecer técnicas ou modelagem, improvisou uma pala inspirada no que imaginava ser uma calça jeans. "Nem sabia que aquilo tinha nome. Fiz porque achei que podia dar certo. E deu" conta Sid, comentando que aquele improviso revelou um talento.
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Nascido em 1953, em Minas do Butiá — nome original do atual município de Butiá, na Região Carbonífera do Rio Grande do Sul —, Sid morou também em Restinga Seca, Santa Maria, Passo Fundo e Porto Alegre antes de seguir carreira fora do Rio Grande do Sul. Trabalhou em ferragem, foi engraxate, passou 10 anos em um cartório e só depois reencontrou a costura. A mudança definitiva veio após um episódio que alterou seus planos. "Hoje, era para estar aposentado do cartório. Mas aconteceu o que tinha que acontecer. Acredito muito nisso: tudo o que é para ser, é."
O recomeço aconteceu no Rio de Janeiro. Foi lá que viveu um dos capítulos mais marcantes da carreira. Trabalhou como freelancer para a velha guarda da escola de samba Unidos da Vila Isabel, confeccionando camisas e ternos usados pelos integrantes. Até hoje, guarda fotografias daquele período, especialmente do carnaval em que a escola conquistou o campeonato, em 2013. "Eles diziam 'tu foi o melhor costureiro que a velha guarda já teve', e eu respondia 'então me contratem'. Nunca contrataram, porque lá era tudo por freelance, mas nenhum deles reclamou do meu trabalho", comenta orgulhoso.
O costureiro voltou para Porto Alegre para cuidar da mãe e, há cerca de 10 anos, instalou o ateliê no bairro Santa Cecília, onde trabalha até hoje. Construiu uma clientela fiel, formada por moradores do bairro e também por clientes que atravessam a cidade em busca de um serviço mais especializado. Muitos chegam por indicação, outros porque descobriram que quase ninguém mais aceita determinados trabalhos. "Casaco, trocar forro, ajustar paletó, aqui no bairro quase ninguém quer fazer. Eles mandam tudo para mim. Nunca tive medo de pegar serviço", afirma.
O cotidiano da profissão, porém, mudou. A maior parte das encomendas hoje é de reformas. A explosão das compras pela internet aumentou a procura por barras e ajustes, enquanto as franquias de costura passaram a dominar esse segmento com rapidez e padronização. Sid observa esse movimento sem se intimidar. "Aquilo ali é outro tipo de trabalho. Costura não é pegar a peça e sair passando na máquina. Tem que passar no ferro, acertar, fazer acabamento. Cada tecido pede uma coisa", detalha, afirmando que o capricho é fundamental.
Peças novas aparecem, mas quase sempre para ocasiões especiais. Togas de formatura, vestidos, figurinos ou produções sob medida ocupam dias inteiros de trabalho. Por isso, Sid afirma que não abre mão do preço que considera justo. "As pessoas dizem que tem que valorizar o trabalho manual, mas quando você dá o orçamento elas acham caro. Só que eu sei o tempo que levo. E, se eu estragar uma peça, sou eu quem compra o tecido. Então meu preço é esse."
A segurança com que Sid fala pode soar como teimosia, mas é justamente ela que fideliza clientes. O costureiro conta que atende moradores de diversos bairros e que muitos chegam recomendados por antigos clientes. "O pessoal diz 'pode ir lá que ele resolve'. Acho que voltam porque sabem que não entrego nada mais ou menos."
Longe da imagem do artesão receoso diante de uma profissão em desaparecimento, Sid cultiva uma autoestima única. Fala do próprio trabalho com orgulho, ri das histórias que viveu e afirma que gostaria de ser dois ou três para dar conta da demanda. "Não falta serviço. O que falta é tempo. Eu amo o que faço."

