Júlia Fernandes

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Repórter

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Negócio Raiz

'Vai acabar, mas não vai acabar amanhã', diz engraxate que atua no aeroporto de Porto Alegre há 27 anos

Entre um voo e outro, Cleber Lima hidrata e devolve o brilho aos sapatos dos clientes
Em um aeroporto onde quase tudo mudou nas últimas décadas, um pequeno espaço continua funcionando praticamente da mesma forma. Enquanto passageiros fazem check-in pelo celular, embarcam com bilhetes digitais, duas cadeiras de engraxate seguem ocupando seu lugar no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. É um daqueles negócios que sobreviveram às transformações, tornando-se cada vez mais raros.
Em um aeroporto onde quase tudo mudou nas últimas décadas, um pequeno espaço continua funcionando praticamente da mesma forma. Enquanto passageiros fazem check-in pelo celular, embarcam com bilhetes digitais, duas cadeiras de engraxate seguem ocupando seu lugar no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. É um daqueles negócios que sobreviveram às transformações, tornando-se cada vez mais raros.
Há 27 anos, Cleber Lima dos Santos chega cedo ao aeroporto para abrir a engraxataria. A rotina começa às 7h e só termina às 18h. Entre um voo e outro, ele limpa, hidrata e devolve o brilho aos sapatos dos clientes. Ouvir histórias, reencontrar antigos conhecidos e observar faz parte da rotina de um trabalho que começou em 1999. 

Curiosamente, a profissão quase não fez parte dos planos de Cleber. Na época, ele trabalhava em uma lancheria quando recebeu o convite para assumir uma das cadeiras de engraxate do aeroporto. A ideia, num primeiro momento, não agradou. O preconceito que ainda existia em torno da profissão pesou. "Pensei na época 'engraxate?', mas fiz a conta e vi que a remuneração seria melhor que a do emprego que eu tinha", conta. Cleber voltou atrás, aceitou a proposta e nunca mais deixou o ofício.
Entrevista com Cleber dos Santos, à frente da engraxateria do aeroporto - GE | Dani Barcellos/Especial/JC
Entrevista com Cleber dos Santos, à frente da engraxateria do aeroporto - GE Dani Barcellos/Especial/JC


Naquele fim dos anos 1990, o aeroporto era outro. "Havia telefones públicos espalhados pelos corredores, a passagem era impressa ainda. Muitos executivos viajavam toda semana para reuniões", lembra o engraxate, afirmando que sapato social bem cuidado fazia parte da imagem profissional, e passar na engraxataria antes do embarque era quase um ritual para muitos viajantes.

Impacto da pandemia em 2020

A pandemia de Covid-19 acelerou mudanças que, talvez, levassem anos para acontecer. As reuniões virtuais reduziram boa parte das viagens corporativas, justamente o público que sustentava o movimento da engraxataria. "Eles descobriram que não precisavam viajar tanto", resume Cleber. O aeroporto voltou a receber passageiros, mas o perfil mudou. Há mais turistas, famílias e viagens de lazer, de acordo com o engraxate. O executivo que fazia ponte aérea toda semana aparece com muito menos frequência.

A própria moda também ajudou a transformar o negócio, de acordo com Cleber. O tradicional sapato de couro perdeu espaço para tênis e modelos híbridos, feitos com tecidos sintéticos e materiais que não recebem graxa. Até clientes antigos trocaram o visual pela praticidade. Cleber conta que vê muitos senhores usando calçados mais confortáveis, que já não podem ser engraxados. "Aí eu penso 'perdi mais um cliente'", brinca.

O resultado aparece no movimento. Em uma boa semana, atende cerca de oito ou nove clientes por dia, número bastante inferior ao de anos atrás. Ainda assim, o serviço continua encontrando seu público. Advogados, médicos, professores universitários, empresários e alguns executivos seguem valorizando o cuidado com o calçado e fazem questão de passar na cadeira antes de embarcar. "A gente fala que a profissão vai acabar, mas não vai acabar amanhã. Enquanto tiver serviço, vou estar aqui", destaca. 
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Curiosidade atrai passageiros

Um dos pontos que chamam atenção é a curiosidade que os passageiros têm pelo serviço. Segundo Cleber, muita gente diminui o passo ao perceber que ainda existe um engraxate trabalhando dentro do aeroporto. "Alguns fazem foto, outros param para conversar. Às vezes, aparece alguém contando que trabalhou como engraxate na infância para ganhar dinheiro, ou para lembrar de um familiar que tinha o hábito de engraxar os sapatos."
Ao longo de quase três décadas, a cadeira de engraxate acabou se transformando em um ponto de encontro e de observação da vida. Por ela, passaram políticos de diferentes partidos, empresários, dirigentes de futebol, médicos, professores e profissionais das mais variadas áreas. Cleber lembra de nomes conhecidos, como o ex-presidente e dirigente esportivo do Sport Club Internacional, Fernando Carvalho, e o ex-presidente do Grêmio, Fábio Koff, mas faz questão de destacar que todos são atendidos da mesma forma. "Aqui passa todo mundo. Do PL ao PT, eu atendo todo mundo igual."
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A conversa, porém, nunca é forçada. Tímido, Cleber prefere deixar que o cliente conduza o diálogo. Quando percebe abertura, o atendimento vai muito além dos sapatos. Os minutos na cadeira viram um intervalo entre compromissos, um espaço para falar da família, do trabalho, do futebol ou simplesmente descansar antes do embarque.
Entrevista com Cleber dos Santos, à frente da engraxateria do aeroporto - GE | Dani Barcellos/Especial/JC
Entrevista com Cleber dos Santos, à frente da engraxateria do aeroporto - GE Dani Barcellos/Especial/JC

Adaptações para resistir

A profissão também mudou dentro do próprio aeroporto. Quando começou, eram seis engraxates dividindo o movimento. Depois da pandemia, restaram apenas dois. Recentemente, com a morte de um colega, Cleber passou a ser o único profissional em atividade no terminal. Fora dali, ele conta que quase não vê mais cadeiras funcionando em Porto Alegre. Um ofício bastante comum nas ruas brasileiras durante boa parte do século XX tornou-se uma atividade quase exclusiva de poucos resistentes.

Apesar dos desafios, Cleber não encara seu trabalho como uma profissão em extinção, mas como um serviço especializado que continua encontrando espaço justamente porque se tornou raro. "Como não tem muita gente fazendo, as pessoas me procuram. Ainda tem serviço", declara. Enquanto o mundo acelera e muitos hábitos desaparecem, a cadeira de engraxate segue lembrando que alguns serviços sobrevivem pela experiência que proporcionam.