Júlia Fernandes

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Repórter

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Negócio Raiz

Operando há 57 anos no Menino Deus, sapataria passa por sucessão familiar

De avô para neto, a Sapataria Modelo mantém vivo o ofício frente às mudanças de consumo
Em meio a prateleiras tomadas por botas, tênis e sapatos à espera de conserto, a cena da tradicional Sapataria Modelo, no bairro Menino Deus, contradiz a ideia de que as antigas sapatarias desapareceram. Ali, cerca de 30 pares passam pelas mãos da equipe todos os dias. Mais do que um negócio que resiste ao tempo, a empresa vive um momento raro: a sucessão familiar já está em andamento.
Em meio a prateleiras tomadas por botas, tênis e sapatos à espera de conserto, a cena da tradicional Sapataria Modelo, no bairro Menino Deus, contradiz a ideia de que as antigas sapatarias desapareceram. Ali, cerca de 30 pares passam pelas mãos da equipe todos os dias. Mais do que um negócio que resiste ao tempo, a empresa vive um momento raro: a sucessão familiar já está em andamento.
Fundada em 1969, a sapataria atravessa quase sete décadas de história sob o comando de Vitor Barth, hoje com 87 anos. Aos poucos, ele divide a administração e o trabalho com o neto Hiago Barth, 28 anos, e outros familiares, garantindo que um ofício cada vez mais raro continue vivo.
Para Vitor, a sapataria nunca foi apenas uma fonte de renda. "É um filho”, resume, emocionado. Olhando para uma fotografia da família colada em um dos armários da pequena sala onde uma parte dos consertos acontece, em lágrimas o empreendedor admite que o negócio familiar tem um espaço especial nas lembranças.
A história começou cedo. Desde 1953, Vitor já trabalhava como sapateiro em Novo Hamburgo, principal polo calçadista do País. Alguns anos depois decidiu abrir o próprio negócio em Porto Alegre. Ao longo das décadas, viu o bairro crescer, clientes envelhecerem e gerações inteiras passarem pelo balcão. Muitos já não estão mais vivos. "Não tem um cara aqui nesta zona que seja mais velho que eu. E estou aqui resistindo”, afirma Vitor, garantindo que ainda tem saúde de sobra. “O meu único problema é chorar muito”, brinca. 
A sapataria também ajudou a construir outra história: a da própria família. Dos quatro filhos, dois seguiram na profissão. Entre os nove netos, Hiago assumiu o desafio de manter o negócio funcionando e adaptá-lo aos novos tempos. A tradição vai além da loja do Menino Deus. O pai de Hiago é sapateiro em Garopaba (SC), enquanto um tio mantém uma fábrica em Novo Hamburgo. "É uma família de sapateiros", diz Hiago.
A escolha pela profissão, no entanto, não foi planejada. "Cresci aqui dentro. Estou aqui há 28 anos. Fui tomando gosto, aprendendo, aprimorando coisas pela internet e conhecendo o trabalho de sapateiros”, conta Hiago, que trabalha no local desde os 16 anos. 
Formado em geografia, o neto de Vitor chegou a trabalhar na área, mas percebeu que a sapataria oferecia estabilidade financeira e qualidade de vida superiores às encontradas na profissão."A sapataria sempre foi minha fonte de renda. É um ambiente familiar e hoje acaba sendo uma renda melhor do que a do geógrafo”, garante o sucessor.
Vitor conta com orgulho a trajetória da família no segmento | Dani Barcellos/Especial/JC
Vitor conta com orgulho a trajetória da família no segmento Dani Barcellos/Especial/JC
Enquanto muitos imaginam que o conserto de calçados vive seus últimos dias, a rotina da empresa conta outra história. O principal serviço deixou de ser o tradicional sapato para dar lugar aos tênis. "A maior procura hoje é por reforma de tênis: colagem, costura e troca de solado. Tem muito serviço que outros sapateiros já não fazem mais”, comenta Hiago. 
A mudança acompanha transformações no mercado. Vitor lembra que precisou convencer clientes de que o solado de borracha era melhor do que o de couro e viu o salto alto perder espaço para o conforto dos tênis. Também acompanhou a chegada da internet, das redes sociais, ferramentas que hoje ajudam a atrair um público que sequer sabia que sapatarias ainda existiam.
"O público jovem precisa aprender primeiro que existe sapataria. Muita gente se surpreende quando descobre”, conta Hiago. A capacidade de adaptação sempre fez parte da trajetória da empresa. Vitor chegou a trabalhar como sapateiro nos Estados Unidos durante uma visita à filha, que mora há mais de 30 anos na Califórnia. Conheceu colegas de profissão, viajou ao México e voltou com uma visão diferente sobre o mercado.
Houve ainda uma época em que o empreendedor produzia sandálias sob medida para escolas de samba de Porto Alegre. Janeiro e fevereiro, que hoje costumam ser meses mais tranquilos, já foram períodos de trabalho intenso.
A Sapataria Modelo fica na rua General Caldwell, nº 1227 | Dani Barcellos/Especial/JC
A Sapataria Modelo fica na rua General Caldwell, nº 1227 Dani Barcellos/Especial/JC

O negócio continua 

A sucessão acontece de forma gradual. Hiago e dois tios passaram a organizar a administração e as finanças para preparar a próxima etapa da empresa. "Estamos na fase de organizar as contas para fazer uma transição tranquila”, relata. 
Essa continuidade é justamente o que diferencia a Sapataria Modelo de muitos concorrentes. Vitor observa que, sempre que um sapateiro conhecido se aposenta ou morre, a loja costuma fechar definitivamente por falta de sucessores. "Tive a sorte de os filhos gostarem. A maioria das sapatarias fecha porque não tem quem continue”, explica. 
O futuro da empresa parece encaminhado, mas há um outro tipo de sucessão que ainda não aconteceu e rende risadas entre avô e neto. Pai de quatro filhos e avô de nove netos, Vitor diz que agora aguarda a chegada dos bisnetos. Enquanto eles não aparecem, sobra espaço para os cachorros da nova geração.
"Na minha época, tive quatro filhos. Agora, o pessoal tem dois, três cachorros e não tem filhos. Não me aparecem os bisnetos e vou ter que chamar os cachorros”, brinca.