Otimizar processos, aumentar produtividade, melhorar a qualidade de trabalho. A inovação dentro do agronegócio veio para suprir demandas, solucionar dores e, no fim, gerar ainda mais receita para o setor. No cenário nacional, em 2025, o PIB do agro alcançou R$ 3,2 trilhões, 12% a mais do que no ano anterior. O resultado representa cerca de 25% da economia brasileira, segundo levantamento do Cepea/USP em parceria com a CNA.
Reconhecido pelo alto volume de produção e pela diversidade de cadeias produtivas, o Brasil ocupa posição significativa no agronegócio global. Mas, para além das grandes indústrias e exportadoras, a inovação também chega aos pequenos produtores e à agricultura familiar, muitas vezes como ferramenta para reduzir a precariedade e transformar a rotina no campo.
Para quem nasceu no campo e teve acesso à formação profissional, o retorno ao agro acontece agora acompanhado de pesquisa, ciência e desenvolvimento de soluções capazes de alterar toda uma cadeia produtiva.
No Rio Grande do Sul, esse movimento ganha destaque. O Estado é um dos principais polos do agronegócio brasileiro, com forte atuação nas cadeias leiteira, de grãos e proteína animal, além de concentrar iniciativas voltadas à inovação no campo e ao desenvolvimento de tecnologias para pequenos e médios produtores.
A Orde Vaca é um dos exemplos de negócios que nasceram a partir da experiência familiar no meio rural. Filho de agricultores e sobrinho de produtores de leite, Genilson Faoro encontrou na cadeia leiteira uma oportunidade de inovação.
Uma solução criada a partir da vivência no campo
“Meus pais plantavam tomate, cenoura, entre outros, mas meus tios tinham a produção leiteira. Por isso, sempre tive uma afinidade com esse meio e uma ligação muito forte com o agronegócio”, conta o fundador e CEO da marca.
Formado na área química, Genilson passou a estudar processos de limpeza e higienização utilizados em diferentes segmentos industriais. Foi então que percebeu que os sistemas adotados dentro da pecuária leiteira pouco haviam evoluído ao longo das últimas décadas.
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As primeiras ordenhadeiras mecânicas chegaram ao Brasil no final da década de 1970 e passaram a ser comercializadas em larga escala nos anos 1980. Desde então, segundo ele, os produtos utilizados para higienização dos equipamentos sofreram poucas mudanças.
“O pessoal atualmente utiliza soluções químicas perigosas. São dois produtos especificamente, um alcalino clorado e um à base de ácido. Pensei que teria como fazer algo diferente, mais moderno e que tivesse um resultado melhor”, explica Genilson.
Foi dentro da Aquilla Saneantes, empresa de Genilson e responsável pelo desenvolvimento das soluções químicas, que nasceu o projeto que mais tarde daria origem à Orde Vaca.
Como funciona a tecnologia
A principal inovação desenvolvida pela empresa está em um detergente granulado voltado para a higienização de equipamentos de ordenha. Diferente dos produtos líquidos convencionais, a solução é composta por microgrânulos dissolvidos apenas no momento do uso.
Segundo Genilson, a proposta busca gerar melhorias em diferentes etapas da cadeia leiteira, desde a logística até a rotina do produtor. “O nosso produto reduz em pelo menos 80% o volume de embalagens. Um balde de 3 quilos equivale a uma bombona de 20 litros. Isso significa menos frete, menos plástico residual e menos descarte”, afirma o CEO.
Além da redução de resíduos, o produto também substitui os dois detergentes tradicionalmente utilizados na limpeza dos sistemas de ordenha: o alcalino clorado e o ácido. Na prática, isso reduz etapas do processo de higienização e economiza tempo na rotina dos produtores rurais.
“Quem trabalha na cadeia leiteira atua de domingo a domingo. A vaca precisa ser ordenhada todos os dias do ano. Se o produtor economiza 10 minutos em cada limpeza, no fim do ano o ganho de tempo é muito significativo”, explica.
Outro diferencial está relacionado à segurança. Enquanto os produtos convencionais são classificados como perigosos e corrosivos, a solução desenvolvida pela empresa é registrada como não perigosa pela Anvisa.
“O nosso detergente não tem cheiro forte, não agride a pele e reduz o contato do produtor com químicos agressivos”, destaca.
Cinco linhas voltadas à cadeia leiteira
Atualmente, a marca atua em cinco linhas de produtos voltadas à higienização no agronegócio leiteiro.
Entre elas está a Ordenha Canalizada, solução destinada a produtores que utilizam sistemas de ordenha com linhas conectadas a diferentes pontos. A empresa também criou a Orde Balde ao Pé, voltada aos pequenos produtores que trabalham com ordenha em balde ou transferidores de leite.
Segundo Genilson, a empresa foi a primeira do País a desenvolver um produto específico para esse perfil de produtor.
Além disso, o portfólio inclui um detergente para limpeza de tanques resfriadores — onde o leite é armazenado após a ordenha —, um multiuso utilizado na higienização de pisos, paredes, acessórios externos e até roupas de trabalho, e um pré-ordenha que atua como detergente e sanitizante na preparação dos equipamentos.
O desafio de mudar um mercado tradicional
Embora a solução já esteja validada e em comercialização, convencer os produtores a mudar hábitos consolidados há décadas ainda é um dos maiores desafios enfrentados pela empresa.
“O primeiro equipamento de ordenha chegou ao Brasil há mais de 80 anos. Desde lá, os produtores utilizam produtos líquidos e químicos para fazer essa limpeza. Então, criar algo diferente e transformar esse mercado foi um desafio muito grande”, conta Genilson.
Segundo o fundador, a resistência acontece principalmente porque qualquer alteração na rotina pode representar riscos financeiros ao produtor. “O produtor fica receoso, porque qualquer mudança pode gerar prejuízo. Então, existe uma dificuldade em convencer que há uma solução diferente que funciona.”
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As redes sociais, no entanto, passaram a ocupar um papel importante na expansão da marca. “Graças à internet, hoje está mais fácil apresentar nossa solução. Estamos conseguindo crescer através das redes sociais”, ressalta o CEO.
Expansão e novos mercados
Depois de anos de validação e desenvolvimento, a Orde Vaca vive atualmente um momento de expansão comercial. A empresa trabalha tanto no modelo B2B quanto B2C, realizando vendas para distribuidores, agropecuárias, assistências técnicas e diretamente para produtores rurais.
Segundo Genilson, mais de mil produtores já utilizam as soluções da marca em diferentes regiões além do Rio Grande do Sul, como Maranhão Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, entre outros.
Além do agronegócio leiteiro, a tecnologia começa agora a alcançar outros segmentos. A empresa já atua em processos de limpeza para microcervejarias e desenvolve soluções voltadas para restaurantes, lancherias e cozinhas industriais. “A ideia agora é multiplicar esse projeto para outras linhas, como indústria de bebidas e frigoríficos. Serão marcas diferentes, mas todas nascidas da mesma solução”, finaliza.
Startup pretende conectar produtores de lã a artesãos e indústria local
Concentrando atualmente quase 100% da produção nacional de lã, o Rio Grande do Sul mantém a liderança absoluta no setor ovino brasileiro. As regiões Sul, da Fronteira Oeste e da Campanha reúnem a maior parte dessa produção, que movimenta uma cadeia produtiva reconhecida internacionalmente pela qualidade da matéria-prima. Apesar do potencial econômico, o segmento ainda enfrenta desafios relacionados à escassez de mão de obra especializada e às limitações da industrialização nacional.
Conforme apontou uma reportagem do Jornal do Comércio, apenas 25% da lã produzida em território gaúcho é processada pela indústria brasileira. O restante segue, principalmente, para o mercado externo. O Uruguai é um dos principais destinos da produção, funcionando como elo intermediário antes da exportação para países como a China.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que Santana do Livramento lidera a produção de lã de maior valor agregado no Rio Grande do Sul. Em 2024, o município gerou R$ 6,1 milhões com a atividade, quase o dobro dos R$ 3,5 milhões registrados por Alegrete, segundo maior produtor do Estado.
Anualmente, o rebanho ovino gaúcho produz cerca de 8 milhões de quilos de lã. Grande parte desse volume passa por cooperativas responsáveis por parte do processo do produto antes da comercialização. Ainda assim, a falta de processamento interno limita o desenvolvimento de uma cadeia mais robusta e diversificada.
Foi nesse cenário que surgiu a Inova Lã, startup criada pelo empreendedor Thiago Cezimbra. Há pouco mais de seis meses no mercado, a empresa nasceu a partir de uma tradição familiar de mais de seis décadas ligada à esquila — nome dado à tosquia de ovelhas na região da Fronteira Oeste. O negócio foi selecionado para o programa Inova Pampa, do Sebrae Startups, e figurou entre os finalistas do Demoday. Recentemente, participou pela primeira vez da Gramado Summit.
O empreendedor representa a terceira geração de uma família ligada à atividade. A história começou com o avô, que há mais de 60 anos adquiriu uma máquina de esquila importada da Inglaterra. O pai do empreendedor segue atuando no setor, liderando uma equipe especializada, conhecida regionalmente como “comparsa”.
“Nasci dentro de um galpão de esquila e cresci acompanhando meu pai e meu avô. Sempre vi a necessidade dos produtores e a dificuldade em encontrar equipes para realizar o serviço”, relata Thiago.
A escassez de profissionais especializados é um dos principais gargalos identificados pela startup. Embora o Rio Grande do Sul possua um dos maiores rebanhos ovinos do País, muitos produtores precisam contratar trabalhadores uruguaios para realizar a esquila durante a safra.
Para enfrentar essa realidade, a Inova Lã pretende implantar a primeira escola de esquiladores do Brasil. O objetivo é formar novos profissionais e contribuir para a preservação de uma atividade que vem perdendo mão de obra ao longo dos anos.
Além da prestação de serviços de esquila profissional, a startup trabalha para conectar diferentes elos da cadeia produtiva. A proposta inclui a comercialização da lã diretamente para artesãos e pequenas indústrias, segmento que frequentemente encontra dificuldades para adquirir matéria-prima.
Segundo Cezimbra, atualmente a maior parte da lã produzida no Estado é adquirida por grandes empresas e cooperativas, que direcionam o produto para exportação. Com isso, artesãos que utilizam volumes menores enfrentam obstáculos para acessar a matéria-prima.
“Foi pensando também nos artesãos. Muitas vezes, eles não conseguem comprar lã diretamente do produtor, porque a maior parte da produção já está comprometida com a indústria”, explica o empreendedor.
Neste primeiro momento, a Inova Lã está concentrada exclusivamente nos serviços de esquila. Desde a participação na Gramado Summit, a empresa já realizou o atendimento de aproximadamente 3 mil ovelhas. A próxima etapa do projeto prevê a aquisição da lã diretamente dos produtores, permitindo o armazenamento, classificação e distribuição para diferentes mercados.
A ideia é priorizar inicialmente o atendimento aos artesãos, ampliando o acesso à matéria-prima e fortalecendo o mercado regional. O excedente continuará sendo destinado à indústria.
Outro diferencial planejado pela startup é a criação de um selo próprio de qualidade. Durante a esquila, profissionais especializados farão a classificação da lã ainda na propriedade rural, identificando características como raça, qualidade e valor comercial. O produto será acondicionado em embalagens específicas da marca, garantindo rastreabilidade e padronização.
A iniciativa também busca ampliar as oportunidades de trabalho para os esquiladores ao longo do ano. Atualmente, a atividade se concentra principalmente entre setembro e dezembro. Fora dessa janela, muitos profissionais ficam sem ocupação, conforme aponta Thiago.
A proposta da Inova Lã é integrar processos como lavagem, preparação, separação e comercialização da fibra, criando novas funções dentro da cadeia produtiva e permitindo que os trabalhadores permaneçam vinculados à atividade durante todo o ano.
Startup que criou creme que protege produtores de tabaco projeta expansão internacional
Proteger os fumicultores é o escopo da Protege Química. A marca de Santa Cruz do Sul (RS) desenvolveu um creme de prevenção para a doença da folha verde do tabaco, muito comum em produtores da fumicultura. A empresa, que venceu a batalha de startups da Gramado Summit 2026, atualmente possui prospecções de expansão, voltadas principalmente ao processo de internacionalização.
Fundada em 2021 pelas empreendedoras Júlia Giovanaz Nunes, 25 anos, e Franciele Pedroso Carraro, 24 anos, a Protege Química começou a circulação do produto após dois anos de testes. "Foi um longo processo de evidência e estudo científico em cima do produto para garantir que é seguro, adequado e eficaz", conta Júlia.
Crescimento e primeiras oportunidades de expansão
No contexto de projeção do creme, as fundadoras destacam oportunidades pontuais de crescimento, principalmente através de participações e estratégias ativas com o seu público-alvo. A feira Expoagro Afubra, em Rio Pardo, conectou o negócio com os produtores de tabaco.
"A participação na Expoagro é um grande lembrete do porquê nós começamos e precisamos continuar. É lá que recebemos os produtores de tabaco que usam o nosso produto e percebemos o impacto que nós estamos gerando”, explica.
Mas o momento descrito como virada de chave para a iniciativa foi a oportunidade de apresentar o produto para grandes líderes globais e tomadores de decisão de grandes indústrias fumageiras em um congresso da Coresta, uma associação que tem como objetivo promover e facilitar a cooperação internacional e as práticas em pesquisa científica ligadas ao tabaco e seus derivados. A organização possui uma força tarefa dedicada ao problema da doença da folha verde do tabaco, e foi no evento ocorrido na Indonésia no ano passado que surgiu a possibilidade de divulgação mundial do trabalho que vem sendo feito pela empresa no Brasil.
"Depois de cinco anos de trabalho, conseguimos entrar nesse grupo. As oportunidades internacionais e as avaliações clínicas vieram. Tivemos a oportunidade de conversar com quem realmente trabalha se dedicando a esse assunto”, detalha Júlia.
Expectativas de internacionalização
Foram oportunidades como essas que impulsionaram as expectativas de levar o creme da Protege Química para outros lugares do mundo, principalmente localizados na África e na Ásia. Para as empreendedoras, já existia a percepção de necessidade do seu trabalho para fora do Brasil, visto a amplitude internacional da doença.
"A nível mundial, já havíamos feito uma pesquisa que a única forma recomendada de prevenção são as capas plásticas. Existe uma oportunidade de internacionalização, porque existe a demanda pelo nosso produto", conta Júlia.
Na concepção apresentada por Júlia e Franciele, o tabaco é cultivado em altas temperaturas, tornando a capa de plástico, forma de proteção tradicionalmente utilizada para prevenir a doença, um incômodo. É a partir disso que os fumicultores sentem necessidade de remover a proteção. A ideia é que no momento que o trabalhador remova a capa ele tenha a opção de utilizar o creme.
"O nosso objetivo é que continue existindo as duas opções, mas que o produtor tenha uma oportunidade de escolha", afirma a empreendedora.
A vitória na Gramado Summit 2026 garantiu a Protege Química um aumento ainda maior de possibilidades para o seu crescimento.
"Para nós, startups, que não conseguimos investir tanto dinheiro em divulgação, essa divulgação orgânica é maravilhosa. Faz com que cheguemos na casa dos fumicultores e mais gente nos conheça. Então, para nós, isso já é uma forma gigantesca de remuneração", diz Júlia.
Como prêmio pela conquista, a marca ganha a possibilidade de negociar um aporte da Ventiur entre R$ 200 mil e R$ 1 milhão. Ambas as empreendedoras deixam claro que essa verba contribuiria para o processo de internacionalização.
"Com certeza seria um investimento para essa expansão internacional. Nós ainda trataremos desse assunto com calma", enfatizam.
Projeções futuras
Para a próxima safra, elas planejam lançar uma nova versão do creme, incluindo proteção solar e um fator de verificação UV, tornando o produto auditável por lanternas de luz negra para garantir que o trabalhador o está utilizando corretamente.
A necessidade dessas melhorias na formulação vem a pedido das indústrias fumageiras, agentes com maiores recursos para levar a quem mais precisa. Existem também idealizações de possíveis outros produtos direcionados a diferentes culturas.
"O produtor de tabaco, hoje, necessita de uma área de diversificação. Então, ele não produz só tabaco, mas sim muitas coisas", detalha Júlia.
Com este cenário em vista, a startup já começa a pensar em possibilidades, como o figo, que produz uma espécie de "leite grudento" que fixa nas mãos, e o tomate, que tem uma folha urticária que causa, frequentemente, alergias e coceira na pele.

